Anos 90: 10 discos (parte 6) que explicam por que essa década ainda importa
- Marcello Almeida

- 14 de dez. de 2025
- 7 min de leitura
Porque ali, mais do que em qualquer outra década, sentir era uma forma de resistência.

Os anos 90 foram a década em que eu aprendi que a música podia ser abrigo, confronto e espelho ao mesmo tempo. Não era apenas sobre discos ou estilos, mas sobre atravessar um período em que tudo parecia mudar rápido demais. O mundo se digitalizava, o futuro prometia muito e prometia mal, e a cultura pop virou o espaço onde essas tensões se revelavam com mais honestidade. O alternativo deixou de ser margem, o ruído ganhou voz, e o silêncio também passou a dizer coisas importantes.
O que me fascina nos anos 90 é essa contradição permanente. Era uma década fértil, inquieta, emocionalmente exposta. O grunge escancarou o cansaço de uma geração, o britpop tentou resgatar alguma esperança melódica, o hip hop se afirmou como discurso central, a eletrônica redesenhou o tempo, e artistas escolheram a vulnerabilidade como linguagem. Esses discos não são apenas registros históricos; são documentos afetivos.
Eles me ensinaram que a música pode explicar o mundo quando as palavras falham. E talvez seja por isso que, mesmo hoje, os anos 90 ainda soem tão vivos. Porque ali, mais do que em qualquer outra década, sentir era uma forma de resistência.
Radiohead – OK Computer (1997)

OK Computer é o momento em que o rock dos anos 90 encara o futuro e não gosta do que vê. O Radiohead abandona qualquer resquício de conforto e constrói um disco sobre alienação, tecnologia, solidão e medo coletivo. É um álbum que antecipa o colapso emocional da virada do milênio, quando o progresso deixa de ser promessa e passa a ser ameaça. Thom Yorke canta como quem tenta manter a sanidade em meio ao ruído do mundo moderno, enquanto guitarras e texturas eletrônicas criam um clima permanente de tensão.
Em faixas como “Paranoid Android”, “No Surprises” e “Karma Police”, o cotidiano se transforma em pesadelo silencioso. Nada aqui é gratuito: cada arranjo, cada pausa, cada distorção carrega significado. OK Computer não é apenas um marco dos anos 90, é um disco que mudou a forma como o rock podia pensar, sentir e existir. Um clássico que continua soando atual porque o mundo, infelizmente, ainda se parece muito com aquele que ele descreveu.
Red Hot Chili Peppers – Blood Sugar Sex Magik (1991)

Blood Sugar Sex Magik é o ponto em que o Red Hot Chili Peppers encontra profundidade sem perder o instinto. Gravado em clima quase ritualístico, o disco captura a banda em estado bruto, misturando funk, rock, sexo, espiritualidade e vulnerabilidade como nunca antes. Rick Rubin despe a produção até o osso, deixando espaço para que cada instrumento respire e cada emoção apareça sem filtro. É hedonismo, mas também é confissão.
Em faixas como “Under the Bridge”, “Give It Away” e “Breaking the Girl”, Anthony Kiedis expõe fragilidades, vícios e afetos com uma honestidade rara para o início dos anos 90. Flea e John Frusciante criam uma química elétrica que oscila entre explosão e delicadeza. Blood Sugar Sex Magik não é só um clássico da década, é o retrato de uma banda que aprendeu que intensidade também pode significar sensibilidade. Um disco em que o corpo e a alma finalmente falam a mesma língua.
Nirvana – MTV Unplugged in New York (1994)

MTV Unplugged in New York é o silêncio mais ensurdecedor dos anos 90. Longe das guitarras distorcidas e do caos elétrico, o Nirvana se apresenta nu, vulnerável, quase em despedida. Kurt Cobain canta como quem sabe que não há mais máscaras possíveis, sua voz soa frágil, profunda, definitiva. O palco decorado como um velório não era estética: era presságio.
Entre releituras de David Bowie, Lead Belly e The Vaselines, e versões despidas de “Come as You Are” e “All Apologies”, o show se transforma em confissão pública. Nada ali busca agradar ou entreter. É entrega. MTV Unplugged in New York não é apenas um registro ao vivo; é um documento emocional, um retrato cru de um artista no limite. Um dos momentos mais comoventes da história da música, e um dos discos mais humanos que os anos 90 nos deixaram.
The Smashing Pumpkins – Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995)

Mellon Collie and the Infinite Sadness é o excesso transformado em confissão. Um disco duplo que carrega o peso emocional de uma geração inteira, oscilando entre fúria, doçura, desespero e redenção. Billy Corgan escreve como quem tenta organizar o caos interno em canções que vão do grito ao sussurro, enquanto a banda constrói paisagens sonoras grandiosas, barrocas, intensamente humanas. É ambição sem medo de soar grande demais.
De “Tonight, Tonight” a “1979”, de “Bullet with Butterfly Wings” a “Thirty-Three”, o álbum atravessa estados de espírito como capítulos de um diário aberto. Mellon Collie não busca coesão fácil; ele abraça a contradição, o drama e a vulnerabilidade. É o retrato de um tempo em que a juventude ainda acreditava que a dor podia ser épica, e que a música tinha espaço suficiente para comportar tudo isso. Um clássico monumental dos anos 90.
The Cure – Wish (1992)

Wish é o momento em que o The Cure transforma dor em catarse. Depois de anos imerso na melancolia mais densa, Robert Smith abre espaço para um disco expansivo, emocionalmente intenso, onde a tristeza não paralisa, explode. As guitarras são altas, brilhantes, quase desesperadas, como se cada canção fosse uma tentativa de atravessar o sentimento em vez de se afogar nele. É um álbum de contrastes, entre euforia e desalento.
Em faixas como “From the Edge of the Deep Green Sea”, “A Letter to Elise” e “Friday I’m in Love”, o Cure prova que pode ser devastador e luminoso ao mesmo tempo. Wish é amor ferido, memória em combustão, esperança trêmula. Um disco que captura o início dos anos 90 com precisão rara, quando a música ainda acreditava que sentir tudo, mesmo que demais, era a única forma possível de existir.
Tom Petty – Wildflowers (1994)

Wildflowers é o som da liberdade conquistada com calma. Longe de excessos e grandes poses, o saudoso, Tom Petty entrega aqui um disco íntimo, quase confessional, onde cada canção parece nascer da necessidade de respirar fundo e seguir em frente. Produzido por Rick Rubin, o álbum despe o rock até o essencial, revelando um artista em plena maturidade emocional, confortável com o silêncio e com a passagem do tempo.
Faixas como “You Don’t Know How It Feels”, “Time to Move On” e a própria “Wildflowers” soam como conversas honestas, sem pressa, sem dramatização. É um disco sobre recomeços, perdas e dignidade, sobre entender que crescer também é aprender a deixar ir. Wildflowers não grita, não implora, não seduz. Ele permanece. Um dos retratos mais humanos e elegantes dos anos 90.
Eminem – The Slim Shady LP (1999)

The Slim Shady LP é o soco que os anos 90 ainda não tinham levado de frente. Eminem surge do subúrbio de Detroit com um disco que mistura humor ácido, violência verbal, confissão psicológica e provocação sem freio. Nada aqui pede desculpa. Slim Shady é um alter ego criado para dizer o indizível, escancarar traumas, zombar da moral e expor o lado mais desconfortável da mente humana. É hip hop como confronto, não como entretenimento confortável.
Em faixas como “My Name Is”, “Guilty Conscience” e “’97 Bonnie & Clyde”, Eminem transforma choque em linguagem e controvérsia em narrativa. O disco incomoda porque é cru, exagerado, cruel e, ao mesmo tempo, brilhantemente articulado. The Slim Shady LP marca o fim da década com uma ruptura clara: a entrada de uma nova voz que não queria agradar ninguém. Um álbum que redefiniu os limites do rap mainstream e deixou claro que os anos 90 também terminaram em combustão.
Fiona Apple – When the Pawn… (1999)

When the Pawn… é o som da lucidez em estado bruto. Aos 22 anos, Fiona Apple entrega um disco feroz, inteligente e emocionalmente nu, que desafia qualquer expectativa de delicadeza ou complacência. Produzido por Jon Brion, o álbum mistura piano, jazz, pop e dissonâncias com uma intensidade quase física. Fiona canta como quem não pede permissão para sentir, sua voz é afiada, irônica, vulnerável e poderosa ao mesmo tempo.
Faixas como “Fast as You Can”, “Paper Bag” e “Limp” expõem contradições, frustrações e desejos com uma honestidade desconcertante. When the Pawn… não tenta ser confortável; ele quer ser verdadeiro. É o retrato de uma mulher jovem que se recusa a ser moldada, em um fim de década marcado por excessos e ruídos. Um disco que encerra os anos 90 afirmando algo essencial: sensibilidade também é força, e consciência, um ato de resistência.
The Jesus Lizard – Liar (1992)

Liar é o desconforto levado ao limite. O The Jesus Lizard entrega aqui um dos discos mais brutais e fisicamente intensos dos anos 90, um ataque direto aos nervos do ouvinte. Nada é polido, nada é conciliador. As guitarras são secas, a bateria soa como impacto industrial, e David Yow canta como se estivesse em confronto direto com o próprio corpo e com o mundo. É noise rock sem metáfora, cru, hostil, honesto até o osso.
Em faixas como “Puss” e “Gladiator”, a banda transforma tensão em linguagem, repetição em violência rítmica. Liar não busca catarse fácil nem redenção; ele expõe o colapso. Um disco que representa o lado mais subterrâneo e agressivo da década, lembrando que os anos 90 também foram feitos de ruído, confronto e desconforto extremo. Música como fratura aberta.
Bruce Springsteen – The Ghost of Tom Joad (1995)

The Ghost of Tom Joad é o silêncio que denuncia. Em pleno auge do espetáculo e da grandiosidade dos anos 90, Bruce Springsteen faz o movimento contrário: desliga a banda, abaixa o volume e dá voz aos invisíveis. Inspirado por As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, o disco é um retrato seco e compassivo da América marginalizada, dos trabalhadores esquecidos, dos imigrantes e dos corpos que o sonho americano deixou pelo caminho.
Com violões austeros, harmonica contida e letras quase documentais, Springsteen canta como um cronista social, mais próximo do folk do que do rock. Faixas como “Youngstown” e a faixa-título carregam dignidade e dor sem ornamento. The Ghost of Tom Joad não busca aplauso nem consolo; busca consciência. É um disco sóbrio, profundo e necessário, que lembra que os anos 90 também tiveram espaço para escuta, empatia e resistência.















Não pra passar pelos anos 90 e ignorar Mazzy Star