top of page

Anos 90: 10 discos (parte 6) que explicam por que essa década ainda importa

Porque ali, mais do que em qualquer outra década, sentir era uma forma de resistência.

Radiohead
Imagem: Reprodução

Os anos 90 foram a década em que eu aprendi que a música podia ser abrigo, confronto e espelho ao mesmo tempo. Não era apenas sobre discos ou estilos, mas sobre atravessar um período em que tudo parecia mudar rápido demais. O mundo se digitalizava, o futuro prometia muito e prometia mal, e a cultura pop virou o espaço onde essas tensões se revelavam com mais honestidade. O alternativo deixou de ser margem, o ruído ganhou voz, e o silêncio também passou a dizer coisas importantes.



O que me fascina nos anos 90 é essa contradição permanente. Era uma década fértil, inquieta, emocionalmente exposta. O grunge escancarou o cansaço de uma geração, o britpop tentou resgatar alguma esperança melódica, o hip hop se afirmou como discurso central, a eletrônica redesenhou o tempo, e artistas escolheram a vulnerabilidade como linguagem. Esses discos não são apenas registros históricos; são documentos afetivos.


Eles me ensinaram que a música pode explicar o mundo quando as palavras falham. E talvez seja por isso que, mesmo hoje, os anos 90 ainda soem tão vivos. Porque ali, mais do que em qualquer outra década, sentir era uma forma de resistência.







  1. Radiohead – OK Computer (1997)

      Radiohead – OK Computer (1997)
Imagem: Reprodução

OK Computer é o momento em que o rock dos anos 90 encara o futuro e não gosta do que vê. O Radiohead abandona qualquer resquício de conforto e constrói um disco sobre alienação, tecnologia, solidão e medo coletivo. É um álbum que antecipa o colapso emocional da virada do milênio, quando o progresso deixa de ser promessa e passa a ser ameaça. Thom Yorke canta como quem tenta manter a sanidade em meio ao ruído do mundo moderno, enquanto guitarras e texturas eletrônicas criam um clima permanente de tensão.


Em faixas como “Paranoid Android”, “No Surprises” e “Karma Police”, o cotidiano se transforma em pesadelo silencioso. Nada aqui é gratuito: cada arranjo, cada pausa, cada distorção carrega significado. OK Computer não é apenas um marco dos anos 90, é um disco que mudou a forma como o rock podia pensar, sentir e existir. Um clássico que continua soando atual porque o mundo, infelizmente, ainda se parece muito com aquele que ele descreveu.


  1. Red Hot Chili Peppers – Blood Sugar Sex Magik (1991)

Red Hot Chili Peppers – Blood Sugar Sex Magik (1991)
Imagem: Reprodução

Blood Sugar Sex Magik é o ponto em que o Red Hot Chili Peppers encontra profundidade sem perder o instinto. Gravado em clima quase ritualístico, o disco captura a banda em estado bruto, misturando funk, rock, sexo, espiritualidade e vulnerabilidade como nunca antes. Rick Rubin despe a produção até o osso, deixando espaço para que cada instrumento respire e cada emoção apareça sem filtro. É hedonismo, mas também é confissão.


Em faixas como “Under the Bridge”, “Give It Away” e “Breaking the Girl”, Anthony Kiedis expõe fragilidades, vícios e afetos com uma honestidade rara para o início dos anos 90. Flea e John Frusciante criam uma química elétrica que oscila entre explosão e delicadeza. Blood Sugar Sex Magik não é só um clássico da década, é o retrato de uma banda que aprendeu que intensidade também pode significar sensibilidade. Um disco em que o corpo e a alma finalmente falam a mesma língua.


  1. Nirvana – MTV Unplugged in New York (1994)

      Nirvana – MTV Unplugged in New York (1994)
Imagem: Reprodução

MTV Unplugged in New York é o silêncio mais ensurdecedor dos anos 90. Longe das guitarras distorcidas e do caos elétrico, o Nirvana se apresenta nu, vulnerável, quase em despedida. Kurt Cobain canta como quem sabe que não há mais máscaras possíveis, sua voz soa frágil, profunda, definitiva. O palco decorado como um velório não era estética: era presságio.


Entre releituras de David Bowie, Lead Belly e The Vaselines, e versões despidas de “Come as You Are” e “All Apologies”, o show se transforma em confissão pública. Nada ali busca agradar ou entreter. É entrega. MTV Unplugged in New York não é apenas um registro ao vivo; é um documento emocional, um retrato cru de um artista no limite. Um dos momentos mais comoventes da história da música, e um dos discos mais humanos que os anos 90 nos deixaram.


  1. The Smashing Pumpkins – Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995)

The Smashing Pumpkins – Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995)
Imagem: Reprodução

Mellon Collie and the Infinite Sadness é o excesso transformado em confissão. Um disco duplo que carrega o peso emocional de uma geração inteira, oscilando entre fúria, doçura, desespero e redenção. Billy Corgan escreve como quem tenta organizar o caos interno em canções que vão do grito ao sussurro, enquanto a banda constrói paisagens sonoras grandiosas, barrocas, intensamente humanas. É ambição sem medo de soar grande demais.


De “Tonight, Tonight” a “1979”, de “Bullet with Butterfly Wings” a “Thirty-Three”, o álbum atravessa estados de espírito como capítulos de um diário aberto. Mellon Collie não busca coesão fácil; ele abraça a contradição, o drama e a vulnerabilidade. É o retrato de um tempo em que a juventude ainda acreditava que a dor podia ser épica, e que a música tinha espaço suficiente para comportar tudo isso. Um clássico monumental dos anos 90.


  1. The Cure – Wish (1992)

The Cure – Wish (1992)
Imagem: Reprodução

Wish é o momento em que o The Cure transforma dor em catarse. Depois de anos imerso na melancolia mais densa, Robert Smith abre espaço para um disco expansivo, emocionalmente intenso, onde a tristeza não paralisa, explode. As guitarras são altas, brilhantes, quase desesperadas, como se cada canção fosse uma tentativa de atravessar o sentimento em vez de se afogar nele. É um álbum de contrastes, entre euforia e desalento.


Em faixas como “From the Edge of the Deep Green Sea”, “A Letter to Elise” e “Friday I’m in Love”, o Cure prova que pode ser devastador e luminoso ao mesmo tempo. Wish é amor ferido, memória em combustão, esperança trêmula. Um disco que captura o início dos anos 90 com precisão rara, quando a música ainda acreditava que sentir tudo, mesmo que demais, era a única forma possível de existir.


  1. Tom Petty – Wildflowers (1994)

Tom Petty – Wildflowers (1994)
Imagem: Reprodução

Wildflowers é o som da liberdade conquistada com calma. Longe de excessos e grandes poses, o saudoso, Tom Petty entrega aqui um disco íntimo, quase confessional, onde cada canção parece nascer da necessidade de respirar fundo e seguir em frente. Produzido por Rick Rubin, o álbum despe o rock até o essencial, revelando um artista em plena maturidade emocional, confortável com o silêncio e com a passagem do tempo.


Faixas como “You Don’t Know How It Feels”, “Time to Move On” e a própria “Wildflowers” soam como conversas honestas, sem pressa, sem dramatização. É um disco sobre recomeços, perdas e dignidade, sobre entender que crescer também é aprender a deixar ir. Wildflowers não grita, não implora, não seduz. Ele permanece. Um dos retratos mais humanos e elegantes dos anos 90.



  1. Eminem – The Slim Shady LP (1999)

Eminem – The Slim Shady LP (1999)
Imagem: Reprodução

The Slim Shady LP é o soco que os anos 90 ainda não tinham levado de frente. Eminem surge do subúrbio de Detroit com um disco que mistura humor ácido, violência verbal, confissão psicológica e provocação sem freio. Nada aqui pede desculpa. Slim Shady é um alter ego criado para dizer o indizível, escancarar traumas, zombar da moral e expor o lado mais desconfortável da mente humana. É hip hop como confronto, não como entretenimento confortável.


Em faixas como “My Name Is”, “Guilty Conscience” e “’97 Bonnie & Clyde”, Eminem transforma choque em linguagem e controvérsia em narrativa. O disco incomoda porque é cru, exagerado, cruel e, ao mesmo tempo, brilhantemente articulado. The Slim Shady LP marca o fim da década com uma ruptura clara: a entrada de uma nova voz que não queria agradar ninguém. Um álbum que redefiniu os limites do rap mainstream e deixou claro que os anos 90 também terminaram em combustão.


  1. Fiona Apple – When the Pawn… (1999)

Fiona Apple – When the Pawn… (1999)
Imagem: Reprodução

When the Pawn… é o som da lucidez em estado bruto. Aos 22 anos, Fiona Apple entrega um disco feroz, inteligente e emocionalmente nu, que desafia qualquer expectativa de delicadeza ou complacência. Produzido por Jon Brion, o álbum mistura piano, jazz, pop e dissonâncias com uma intensidade quase física. Fiona canta como quem não pede permissão para sentir, sua voz é afiada, irônica, vulnerável e poderosa ao mesmo tempo.


Faixas como “Fast as You Can”, “Paper Bag” e “Limp” expõem contradições, frustrações e desejos com uma honestidade desconcertante. When the Pawn… não tenta ser confortável; ele quer ser verdadeiro. É o retrato de uma mulher jovem que se recusa a ser moldada, em um fim de década marcado por excessos e ruídos. Um disco que encerra os anos 90 afirmando algo essencial: sensibilidade também é força, e consciência, um ato de resistência.


  1. The Jesus Lizard – Liar (1992)

The Jesus Lizard – Liar (1992)
Imagem: Reprodução

Liar é o desconforto levado ao limite. O The Jesus Lizard entrega aqui um dos discos mais brutais e fisicamente intensos dos anos 90, um ataque direto aos nervos do ouvinte. Nada é polido, nada é conciliador. As guitarras são secas, a bateria soa como impacto industrial, e David Yow canta como se estivesse em confronto direto com o próprio corpo e com o mundo. É noise rock sem metáfora, cru, hostil, honesto até o osso.


Em faixas como “Puss” e “Gladiator”, a banda transforma tensão em linguagem, repetição em violência rítmica. Liar não busca catarse fácil nem redenção; ele expõe o colapso. Um disco que representa o lado mais subterrâneo e agressivo da década, lembrando que os anos 90 também foram feitos de ruído, confronto e desconforto extremo. Música como fratura aberta.


  1. Bruce Springsteen – The Ghost of Tom Joad (1995)

Bruce Springsteen – The Ghost of Tom Joad (1995)
Imagem: Reprodução

The Ghost of Tom Joad é o silêncio que denuncia. Em pleno auge do espetáculo e da grandiosidade dos anos 90, Bruce Springsteen faz o movimento contrário: desliga a banda, abaixa o volume e dá voz aos invisíveis. Inspirado por As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, o disco é um retrato seco e compassivo da América marginalizada, dos trabalhadores esquecidos, dos imigrantes e dos corpos que o sonho americano deixou pelo caminho.


Com violões austeros, harmonica contida e letras quase documentais, Springsteen canta como um cronista social, mais próximo do folk do que do rock. Faixas como “Youngstown” e a faixa-título carregam dignidade e dor sem ornamento. The Ghost of Tom Joad não busca aplauso nem consolo; busca consciência. É um disco sóbrio, profundo e necessário, que lembra que os anos 90 também tiveram espaço para escuta, empatia e resistência.

1 comentário


ARNAUD
18 de dez. de 2025

Não pra passar pelos anos 90 e ignorar Mazzy Star

Curtir
bottom of page