Jeff Buckley entra na Billboard Hot 100 pela primeira vez graças a viral no TikTok
- Marcello Almeida
- há 16 horas
- 2 min de leitura
Algumas vozes não desaparecem. Elas apenas esperam o tempo certo para voltar

A voz de Jeff Buckley voltou a atravessar o presente como quem nunca aceitou ficar presa ao passado. Não houve relançamento, campanha de marketing ou estratégia calculada. O empurrão veio do lugar mais imprevisível possível: o TikTok.
A canção em questão é Lover, You Should’ve Come Over, uma das faixas mais intensas e emocionalmente expostas do álbum Grace, lançado em 1994. Pela primeira vez desde sua criação, a música entrou oficialmente na Billboard Hot 100, estreando na 97ª posição. Jeff Buckley morreu em 1997, aos 30 anos, vítima de um afogamento acidental.
Grace acabou se tornando não apenas seu único álbum de estúdio completo, mas também um desses discos que parecem existir fora do tempo. “Lover…” nunca foi single, nunca foi pensada para rádio e sempre soou mais como uma confissão tardia do que como uma música feita para disputar números.
O que mudou agora foi o contexto. Fragmentos da canção começaram a circular em vídeos no TikTok, geralmente acompanhando reflexões sobre perdas, amadurecimento, relacionamentos quebrados e aqueles aprendizados que só chegam depois de alguma queda. Nada performático. Nada irônico. Apenas gente reconhecendo a própria fragilidade na voz de alguém que cantava como se estivesse sempre à beira.
Curiosamente, nem “Hallelujah”, a interpretação mais famosa de Buckley e responsável por apresentá-lo ao grande público anos depois de sua morte, chegou a alcançar esse feito. A música ganhou enorme popularidade digital a partir de 2008, mas nunca entrou na Hot 100. Coube justamente a uma faixa mais longa, mais dolorida e menos óbvia atravessar essa porta — e com atraso, como manda sua natureza.
Esse retorno silencioso começou a ganhar forma também com a chegada do documentário It’s Never Over, Jeff Buckley (2025), cujo título vem da própria letra de “Lover…”. O filme revisita sua trajetória, sua arte e o vazio deixado por uma carreira interrompida cedo demais.
Buckley, aliás, não é um caso isolado. Canções antigas têm encontrado novas vidas nas redes, reaparecendo em contextos completamente diferentes de quando foram criadas. Um exemplo recente é Radiohead, cuja música “Let Down” voltou às paradas quase 30 anos após o lançamento. À época, Thom Yorke descreveu o fenômeno como “bizarro”.
Talvez seja mesmo. Ou talvez seja só a prova de que algumas músicas não foram feitas para o seu tempo, foram feitas para encontrar alguém, em algum momento, exatamente quando essa pessoa mais precisa.











