Jesus and Mary Chain nunca foram feitos para agradar
- Marcello Almeida
- há 20 horas
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Eles sempre soaram como um ruído bonito demais para ser domesticado

Existe um tipo de banda que não envelhece porque nunca pertenceu totalmente ao seu tempo. O Jesus and Mary Chain é assim. Eles não soam nostálgicos, nem tentam parecer atuais. Sempre estiveram num lugar à parte. Um espaço onde o barulho dói um pouco, mas a melodia abraça logo depois.
Quando penso neles, não penso só em discos. Penso em sensação. Em volume alto demais. Em guitarras que parecem mal reguladas de propósito. Em músicas que soam como se estivessem prestes a desmoronar, mas nunca desmoronam. É ali que mora o encanto.
Formada em 1983, na Escócia, a banda dos irmãos Jim e William Reid apareceu como um corpo estranho no pós-punk britânico. Enquanto muita gente buscava sofisticação ou atitude, eles apostaram no atrito. Ruído contra melodia. Doçura contra agressão. Como se Phil Spector tivesse sido engolido por uma parede de amplificadores estourados.
Psychocandy, de 1985, não foi apenas um disco de estreia. Foi um manifesto involuntário. Aquilo não parecia certo, limpo ou educado. E justamente por isso soava tão novo. Anos depois, o rótulo shoegaze tentaria dar conta do estrago que o álbum causou. Mas, na época, ninguém chamava de nada. Só sentia.
A história do Jesus and Mary Chain também é inseparável da tensão entre os irmãos Reid. Não como fofoca, mas como força criativa. Eles nunca esconderam o conflito. Pelo contrário. Pareciam alimentá-lo. Jim e William são os únicos membros permanentes da banda, e isso diz muito. Tudo passa por esse embate silencioso, às vezes nada silencioso, entre dois jeitos de enxergar a música.

Talvez por isso o som deles sempre tenha essa aura de névoa. Algo que hipnotiza e desorienta. Você reconhece a melodia, mas ela vem coberta de distorção, como se estivesse sendo tocada atrás de uma parede. Há Velvet Underground ali. Há Suicide. Há o pop feminino dos anos 60. Tudo misturado sem pedir licença.
Mesmo com discos importantes nos anos 80 e 90, o Mary Chain nunca foi exatamente bem compreendido pela indústria. A passagem pela Warner é quase simbólica. Uma banda grande demais para o underground, estranha demais para o mainstream. Executivos não sabiam muito bem o que fazer com aquilo. E, no fundo, a banda também nunca pareceu se importar.
Depois de hiatos, separações e reconciliações, eles voltaram a lançar discos. Glasgow Eyes, de 2024, não tenta competir com o passado. Ele conversa com ele. Há mais sintetizadores, baterias eletrônicas, uma produção que olha para frente sem apagar o DNA da banda. O método, segundo eles, segue praticamente o mesmo desde 1984. O que muda é o mundo ao redor.
E o mundo mudou mesmo. Jim Reid já falou abertamente sobre o incômodo com o streaming, essa lógica de trabalhar quase de graça. Também demonstrou certo cansaço com a onda interminável de documentários musicais, muitos deles mais interessados em mitificar do que em entender. Não soa como amargura. Soa como lucidez.
O mais curioso é que, apesar de tudo, existe ali um otimismo raro. William Reid fala em continuar compondo, gravando, fazendo discos. Não por obrigação. Por necessidade. Como se o Jesus and Mary Chain ainda fosse, antes de qualquer coisa, um lugar onde eles conseguem existir artisticamente.
Talvez seja por isso que a banda continue a cativar tanta gente. Porque nunca se comportou como produto. Nunca se explicou demais. Nunca tentou ser simpática. O Jesus and Mary Chain sempre foi sobre tensão. Entre irmãos. Entre ruído e melodia. Entre o que machuca e o que consola.
E talvez seja exatamente isso que a gente continue buscando neles. Não conforto. Mas verdade. Mesmo quando ela vem distorcida.











