Oasis acabou por causa de uma briga? Não. Acabou por algo muito menor
- Marcello Almeida
- há 24 horas
- 3 min de leitura
Às vezes, o fim começa quando ninguém percebe. E, justamente por isso, muito maior.

Quando o Oasis anunciou seu fim em 2009, a narrativa foi rápida, quase preguiçosa. Mais uma explosão entre irmãos. Mais um capítulo do folclore Gallagher. Paris virou símbolo do colapso, como se tudo tivesse ruído ali, num acesso de raiva, num camarim quente demais, num copo a mais.
Mas o fim não começou em Paris. Começou em silêncio. E começou três anos antes, num gesto banal o suficiente para passar despercebido por qualquer um que não estivesse emocionalmente à beira do abismo.
Em 2006, Noel Gallagher decidiu doar algumas roupas que havia ganhado do irmão. Não usava mais. Não precisava. Nada de simbólico, ao menos para ele. Só que, para Liam Gallagher, aquilo soou como algo bem diferente. Soou como desprezo.
Não foi uma discussão imediata. Não houve grito, nem soco, nem manchete. O que houve foi pior. Um ressentimento que não explode, mas fica. Um incômodo que se instala e passa a contaminar tudo ao redor. A partir dali, a relação, que já era frágil, virou um campo minado. Cada gesto virou mensagem. Cada silêncio, provocação.
No Oasis, conflitos nunca foram pequenos. Nunca. Eram sempre disputas de território, de reconhecimento, de afeto mal resolvido. Noel era o arquiteto das canções, o controle, a ordem. Liam era a voz, o rosto, o risco. Quando Noel se desfaz de algo que veio do irmão, a leitura emocional não passa pelo racional. Passa pelo orgulho ferido. Pelo sentimento de não ser levado a sério. De ser tolerado, mas não valorizado.
E quando isso acontece entre irmãos, não há contrato que resolva.
Entre 2006 e 2009, o Oasis seguiu existindo como se nada tivesse mudado. Discos foram lançados. Turnês aconteceram. O público cantava. A máquina funcionava. Mas por dentro, a banda já estava rachada. As conversas diretas desapareceram. Produtores e empresários viraram mensageiros. O que antes parecia o caos típico do rock virou desgaste real, cotidiano, exaustivo.
Não era mais sobre música. Era sobre convivência. E ela havia se tornado insuportável. Quando a ruptura oficial veio, em agosto de 2009, pouco antes de um show em Paris, parecia apenas o desfecho natural de mais uma briga grande demais. Noel saiu dizendo que não conseguia mais trabalhar com Liam. Para o público, era só mais um capítulo da novela. Mas, olhando para trás, fica claro que Paris não foi o fim. Foi apenas o momento em que alguém finalmente teve coragem de encerrar algo que já estava morto.
O curioso é que o mesmo tempo que solidifica mágoas também pode, com sorte, desgastá-las. Em agosto de 2024, os irmãos anunciaram o retorno do Oasis para uma turnê em 2025. A mensagem foi direta, quase teatral: “As armas silenciaram. As estrelas se alinharam. A grande espera acabou. Venham ver. Não será televisionado.”
Não era um pedido de desculpas. Não era uma confissão. Era um acordo possível. A resposta foi imediata. Euforia, incredulidade, emoção. Tanta que, já em 2026, surgiu a ideia de estender a celebração em novos shows em 2027. Não como reescrita do passado, mas como aceitação dele.
O Oasis nunca foi uma banda sobre harmonia. Foi sobre tensão. Sobre ego. Sobre ruído. Talvez por isso suas músicas tenham sobrevivido tão bem ao tempo. Porque elas entendem algo que a gente finge não saber: grandes rupturas quase nunca nascem de grandes explosões. Elas nascem do acúmulo. De pequenos gestos mal interpretados. De silêncios que duram anos.
Às vezes, o fim de uma das maiores bandas da história começa assim. Com roupas. E com tudo o que elas carregam sem dizer uma palavra.











