Por que ainda ouvimos “Pais e Filhos”, da Legião Urbana
- Marcello Almeida
- há 15 horas
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Às vezes, a música não consola. Ela apenas revela o que a gente evitou encarar dentro de casa

“Pais e Filhos” nunca foi aquela canção que começa pedindo atenção. Ela simplesmente começa exigindo. Isso fica logo evidente no primeiro verso: a Legião Urbana coloca o ouvinte diante de um choque seco, inspirado por uma experiência real que atravessou a vida de Renato Russo. Não há ornamento ali. Há perplexidade; talvez essa seja a palavra correta aqui. Pois estamos diante de uma constatação de que certas dores não surgem com manual de compreensão. E isso define o tom de tudo o que vem depois. Essa é “Pais e Filhos”, e esse é o Por que Ainda Ouvimos.
A partir desse ponto, a faixa se espalha como uma conversa difícil que nunca aconteceu direito. São pequenas cenas, frases quase banais, pensamentos que parecem soltos, mas não estão. Tudo gira em torno da mesma fratura: a incapacidade de dizer o essencial enquanto ainda existe tempo (isso me faz lembrar de “Tempo Perdido”), mas isso é assunto para outro texto. Pais que erram tentando proteger. Filhos que acusam tentando ser vistos. Gente que ama, mas não sabe demonstrar.
Não dá pra falar dessa música sem mencionar o ilustre e belo arranjo, aquele que caminha com cautela, quase como quem pisa em terreno instável. Não há explosão sonora, não há dramatização em excesso. O peso está no acúmulo. Na repetição das falhas. Na rotina que anestesia. A canção parece entender algo fundamental: a tragédia raramente nasce do nada. Ela cresce no silêncio, na falta de escuta, na ideia equivocada de que o outro vai entender sozinho.
Quando o refrão aparece (e que refrão, meus amigos), a música encontra o seu ponto mais alto. Não no sentido de explosão, mas de permanência. É ali que surge a frase que atravessou o tempo, que saiu da canção e passou a circular pela vida das pessoas. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” virou citação, virou uma espécie de mantra, virou memória coletiva. Um verso que segue ainda mais vivo em nossa atualidade cada vez mais caótica e acelerada. Renato costumava dizer que uma canção pop pode ser sua vida inteira em três minutos; essa frase de “Pais e Filhos” conversa muito com essa lógica.
Mas, dentro da música, ela não soa confortável. Funciona como aviso, eu diria, ou como lembrete. Quase como algo que precisava ter sido dito antes. E talvez por isso carregue tanto peso. “Pais e Filhos” não entrega respostas, não fecha feridas, não organiza o caos. Ela apenas acende a luz e deixa a gente sozinho com aquilo que evitou dizer.
Um dos momentos mais duros da letra é quando ela desmonta a imagem do adulto como figura sólida. Pais não são entidades prontas. São pessoas em construção, cheias de medo, insegurança e falhas. A música escancara isso sem condescendência. Ninguém sai ileso. Ninguém sai inocente. Mas também ninguém é tratado como vilão. Renato era um gênio das letras.
Talvez seja por isso que “Pais e Filhos” continue atravessando gerações. Porque o conflito que ela expõe não pertence a uma época específica. Ele se renova a cada jantar em silêncio, a cada conversa adiada, a cada afeto mal comunicado. A música não oferece cura. Oferece consciência.
Ainda ouvimos porque ela lembra, sem suavizar, que amar não é um sentimento abstrato. É ação. É presença. É risco. E porque, no fundo, todos nós seguimos tentando aprender isso antes que o amanhã deixe de ser uma possibilidade.











