A explosão que mudou tudo: Keith Moon, The Who e a noite em que a TV perdeu o controle
- Marcello Almeida
- há 16 horas
- 2 min de leitura
Há noites em que a televisão apenas registra um acontecimento. E há outras em que ela vira cúmplice da história

No dia 17 de setembro de 1967, a TV americana testemunhou um desses momentos raros em que tudo sai do controle ao vivo. No palco do The Smothers Brothers Comedy Hour, o The Who não apenas tocou uma música. A banda implodiu a ideia do que era aceitável na televisão. E no centro daquele caos estava Keith Moon.
Moon já era conhecido como uma força da natureza. Não exatamente pelo virtuosismo técnico no sentido clássico, mas por tratar a bateria como um corpo vivo, pulsante, quase agressivo. Ele não acompanhava a música. Ele empurrava tudo para frente. No The Who, a bateria nunca ficou no fundo. Ela brigava por espaço com a guitarra, com a voz, com o próprio palco.
O programa dos irmãos Smothers tinha fama de abrir espaço para artistas que não cabiam no molde tradicional da TV. Era irreverente, politizado, jovem. Talvez por isso tenha achado que dar liberdade total ao The Who era uma boa ideia. Não era. Ou talvez fosse exatamente isso que o rock precisava naquele momento.
Durante “My Generation”, enquanto Pete Townshend fazia o ritual habitual de destruir sua guitarra, Moon foi além. Ele havia pedido para que sua bateria fosse preparada com explosivos. Não um efeito simbólico. Uma explosão real. Mais forte do que o combinado. Mais forte do que qualquer estúdio de TV estava pronto para receber.
Quando a carga detonou, o que se viu foi um segundo de suspensão absoluta. Fumaça, barulho, pedaços de bateria voando, o público sem entender se aquilo fazia parte do número ou se algo tinha dado muito errado. Moon se feriu levemente. Townshend sofreu perda auditiva temporária. O estúdio entrou em choque. A televisão também.
Nada ali era exatamente improvisado, mas tudo fugiu do controle. Como quase tudo que envolvia Keith Moon.
A cena acabou se tornando definitiva para a imagem do The Who nos Estados Unidos. Não só como uma grande banda britânica, mas como um grupo impossível de domesticar. A explosão virou símbolo. Não apenas do excesso, mas de uma ideia de rock que recusava limites, contratos implícitos, regras de bom comportamento.
Keith Moon ajudou a construir o arquétipo do baterista como figura caótica, imprevisível, maior que a própria música. Ele destruiu quartos de hotel, carros, instrumentos. Viveu rápido demais. Morreu cedo demais. Mas naquele palco, por alguns segundos, ele condensou tudo o que o rock dos anos 60 tinha de confronto com a ordem.
O episódio foi eternizado anos depois no documentário The Kids Are Alright, transformando aquele instante em mito. Revisto hoje, o momento ainda causa desconforto. Não apenas pelo perigo real envolvido, mas pela sensação de que algo irrepetível aconteceu ali.
A explosão de Keith Moon não foi só um truque de palco. Foi um gesto extremo de presença. Uma recusa em ser apenas entretenimento domesticado. Um lembrete de que, por um breve período, o rock and roll realmente parecia capaz de desestabilizar tudo ao redor.
Depois daquela noite, a televisão voltou a ser mais cuidadosa.O rock, talvez, nunca mais foi tão inconsequente ao vivo.











