O silêncio que atravessou gerações: a história que Alanis Morissette só descobriu adulta
- Marcello Almeida
- há 10 horas
- 2 min de leitura
Há histórias que não chegam até nós em forma de memória, mas de silêncio. E, às vezes, é justamente esse silêncio que diz tudo

A participação de Alanis Morissette no programa Finding Your Roots, exibido pela PBS, escancarou uma dessas histórias guardadas por décadas dentro de uma família. Não por descaso, mas por medo. Medo herdado. Medo que atravessa gerações.
Alanis descobriu apenas na vida adulta que sua mãe é judia. Uma informação mantida em segredo dentro de casa como uma forma de proteção. Não se tratava de negar a própria identidade, mas de sobreviver num mundo que, durante muito tempo, ensinou judeus a se esconderem para continuar vivos.
A origem materna da cantora passa pela Hungria e pela Ucrânia, regiões profundamente marcadas pela violência do Holocausto. No programa, a investigação conduzida com apoio do Yad Vashem confirmou que dois tios-avôs de Alanis, Gyorgy e Sandor Feuerstein, morreram em campos de trabalho forçado enviados à Rússia. Números ajudam a dimensionar a tragédia, mas nunca dão conta dela. Estima-se que mais de meio milhão de judeus húngaros tenham sido mortos naquele período.
O avô materno, Imre Feuerstein, escapou. E esse detalhe muda tudo. Depois da guerra, com a Hungria já sob domínio soviético, ele decidiu fugir com a família em 1956. A mãe de Alanis tinha apenas seis anos. Mesmo assim, ainda carrega lembranças assustadoras daquela travessia. O destino final foi Ottawa, no Canadá. Um novo país, outra língua, uma tentativa de recomeço. E também o início de um silêncio cuidadosamente mantido.
Quando Alanis fala sobre isso, não há ressentimento. Há compreensão. Ela reconhece que esconder a herança judaica foi um gesto de cuidado. Um reflexo de um terror que, como ela mesma diz, estava “nos ossos” das mulheres da família. O trauma não terminou com o fim da guerra. Ele apenas mudou de forma.
Talvez por isso a revelação tenha vindo acompanhada de uma sensação curiosa de retorno. Alanis conta que sempre sentiu uma atração quase intuitiva pelo judaísmo. Aparecia em celebrações como o Pessach, participava de rituais, sentia uma familiaridade difícil de explicar. Agora, tudo se encaixa. Não como uma descoberta externa, mas como algo que sempre esteve ali, esperando ser nomeado. Um voltar para casa que não depende de endereço.
O episódio também mergulha na linhagem paterna da cantora, remontando à França do século XVII. Colonos, lenhadores, histórias de rios, balsas e sobrevivência. Um antepassado, inclusive, foi o único sobrevivente de uma expedição perigosa no Rio Ottawa, episódio que acabou virando canção folclórica local. São narrativas bem diferentes entre si, mas atravessadas pelo mesmo fio: seguir em frente apesar de tudo.
Ao olhar para sua árvore genealógica, Alanis não encontra uma linha reta. Encontra bifurcações, fugas, perdas, recomeços. “Tantos caminhos a seguir”, ela resume. Talvez seja essa a imagem mais honesta para falar de identidade. Não algo fixo, fechado ou dado de antemão, mas um emaranhado de histórias que, cedo ou tarde, pedem para ser escutadas.
Algumas famílias contam suas histórias em voz alta. Outras sobrevivem aprendendo a calar. E há momentos raros em que o silêncio, finalmente, encontra espaço para virar palavra.











