Banda Black Rio: não era influência, era identidade em estado puro
- Marcello Almeida
- há 17 horas
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Entre o soul americano e o samba carioca, a Banda Black Rio criou um som que não pedia tradução, apenas escuta atenta

Em meados dos anos 70, quando o soul e o funk já tinham tomado os bailes, as rádios e os corpos em movimento, a música brasileira parecia pronta para dar um passo além. Tim Maia, Jorge Ben, Gerson King Combo e Cassiano já haviam mostrado que o diálogo com a música negra americana não era imitação, mas conversa de igual para igual. Ainda assim, havia um espaço em aberto. Faltava uma banda que transformasse essa troca em linguagem instrumental, sem concessões, sem letras guiando o caminho. Foi nesse vácuo criativo que surgiu a Banda Black Rio, uma ideia ousada desde o nascimento.
À frente estava Oberdan Magalhães, saxofonista, arranjador e visionário. A Black Rio bebia em fontes como James Brown, Funkadelic e Earth, Wind & Fire, mas nunca perdeu o sotaque. O que saía dos amplificadores era funk, era soul, era jazz, mas também era samba, era rua, era Rio de Janeiro pulsando em forma de groove. Os metais vinham quentes, o baixo caminhava com segurança, a guitarra desenhava o balanço e a percussão costurava tudo com uma naturalidade rara.
Em 1977, essa identidade ganhou forma definitiva com o lançamento de Maria Fumaça, pelo selo Atlantic/WEA. Um disco curto, direto, com pouco mais de 29 minutos, mas que parecia conter um universo inteiro ali dentro. Funk e samba não se encontravam por esforço intelectual ou discurso estético. Eles simplesmente coexistiam, como se sempre tivessem feito parte da mesma família. A faixa-título virou um hino imediato, daqueles que atravessam décadas sem pedir atualização.
Mas Maria Fumaça não se sustentava apenas por um momento icônico. Faixas como “Na Baixa do Sapateiro”, “Caminho da Roça” e “Mr. Funky Samba” revelavam uma banda surpreendentemente madura, mesmo com pouco tempo de estrada. Era música instrumental que não soava fria, nem cerebral demais. Havia corpo, havia suor, havia prazer em tocar junto.
Curiosamente, o impacto mais profundo veio de fora. Na Europa e nos Estados Unidos, o álbum foi tratado como joia rara, garimpado por DJs e produtores que enxergavam ali um groove singular, impossível de replicar. No Brasil, a recepção foi mais contida. O fato de ser um disco totalmente instrumental causou estranhamento, especialmente dentro da lógica das gravadoras, que passaram a pressionar por músicas cantadas nos trabalhos seguintes. A Black Rio seguiu adiante, manteve sua proposta, mas é difícil negar que aquele primeiro registro capturou algo que nunca mais se repetiu com a mesma intensidade.

Em 1984, a morte precoce de Oberdan interrompeu a trajetória do grupo de forma abrupta. Sem seu centro criativo, a banda se dissolveu. Parecia o fim de uma história que ainda tinha muito a dizer. O tempo, no entanto, tratou de recolocar as coisas no lugar.
No ano 2000, William Magalhães, filho de Oberdan, decidiu reacender essa chama. Reuniu músicos, respeitou a essência e atualizou a linguagem sem descaracterizar o espírito original. A nova fase levou a Black Rio a lançar discos por selos britânicos como Mr. Bongo e Far Out Recordings, consolidando definitivamente seu status de culto fora do país.
Hoje, a Banda Black Rio segue viva nos palcos, aqui e lá fora, provando que seu som não pertence a uma década específica. Ele faz parte de um fluxo contínuo da música negra, dessa tradição que se reinventa sem pedir permissão. Se o Brasil tem um groove que o diferencia do resto do mundo, uma parte importante desse DNA passa, inevitavelmente, pelos trilhos de Maria Fumaça.











