Wilco: 7 canções, o som que fica quando o mundo diminui
- Marcello Almeida
- há 16 horas
- 3 min de leitura
Algumas bandas não pedem atenção. Elas pedem tempo

Antes de qualquer lista, é preciso ajustar o ouvido. Wilco não é banda de impacto imediato, nem de refrão que se impõe no primeiro play. É música que pede convivência. Que cresce aos poucos, como certas ideias ou pessoas que só fazem sentido depois de algum tempo. Em um mundo viciado em urgência, Wilco sempre escolheu o caminho oposto: o da escuta paciente, do silêncio respeitado, da canção que amadurece junto com quem ouve.
Talvez seja por isso que essas músicas atravessam fases da vida sem perder relevância. Elas falam de fracasso, amor, solidão, ruído, fé e dúvida, mas nunca de forma grandiosa ou ensaiada. Falam como a gente pensa, quando ninguém está ouvindo. E não é curioso como, em algum momento, todo mundo acaba chegando nelas? Eu cheguei assim. Sem perceber. Quando dei conta, essas canções já estavam ali, me acompanhando, fazendo perguntas que eu mesmo evitava responder.
1. Jesus, Etc.

Há algo de profundamente humano nessa canção. Ela fala de amor, mas também de ruído, de falhas na comunicação, de tentativas sinceras que nem sempre dão certo. Não há pressa aqui. A melodia caminha com cuidado, como se soubesse que qualquer passo em falso pode quebrar algo frágil demais.
Sempre que ouço, me pergunto se não é assim que a vida acontece. Aos poucos, entre ruídos, promessas meio tortas e uma esperança que insiste em ficar. Talvez por isso ela soe tão próxima, tão minha, tão nossa. Quem nunca tentou dizer algo importante e tropeçou nas próprias palavras?
2. Sky Blue Sky

Essa canção soa como maturidade aceita, não como resignação. É Wilco olhando para frente sem negar as cicatrizes do caminho. A melodia é aberta, quase ensolarada, mas carrega um peso silencioso, como quem aprendeu que nem toda clareza elimina a dor.
Sempre me chama atenção como ela fala de seguir em frente sem prometer redenção. Apenas continuidade. Não é isso que a gente acaba fazendo, no fim das contas? Seguindo, mesmo sem garantias, tentando encontrar algum azul possível no meio do céu nublado.
3. I Am Trying to Break Your Heart

Aqui, o desconforto é emocional. A música soa instável porque o sentimento é instável. Nada está no lugar certo. Nem o arranjo, nem a relação que ela sugere. É o som de algo se desfazendo enquanto ainda tenta existir.
Eu sempre senti essa faixa como um retrato honesto do colapso interno. Aquela fase em que você sabe que algo acabou, mas continua ali, insistindo. Por quê? Medo? Apego? Amor? Talvez tudo isso junto, num nó difícil de desatar.
4. Ashes of American Flags

Essa canção carrega um peso estranho, quase político, mas profundamente íntimo. Ela fala de fracasso, de sonhos corroídos, de uma ideia de progresso que não se sustenta mais. Tudo isso sem gritar, sem discurso pronto.
O que mais me chama atenção é como ela soa atual, mesmo tantos anos depois. Será que alguma coisa realmente mudou? Ou seguimos empilhando promessas vazias enquanto fingimos que está tudo bem?
5. Impossible Germany

Aqui o Wilco alcança um equilíbrio raro entre emoção e precisão. A canção cresce devagar, quase tímida, até abrir espaço para um dos solos de guitarra mais lindos da banda. Não é um solo exibicionista. Ele conversa, responde, hesita. Parece pensar antes de dizer qualquer coisa.
Sempre que chega esse momento, eu sinto como se a música respirasse mais fundo. Como se tudo o que não foi dito antes finalmente encontrasse voz ali, nas cordas. Não é isso que a gente faz também, às vezes? Guarda tudo, até que uma hora precisa deixar escapar, mesmo sem saber exatamente como.
6. Via Chicago

Essa é uma viagem. Literal e emocional. A cidade aqui não é cenário, é estado de espírito. A música cresce, se perde, se encontra, como quem anda sem mapa, confiando apenas na intuição.
Escuto e lembro de quantas vezes me senti assim. Andando por dentro de mim mesmo, sem saber exatamente onde ia dar. Será que a gente precisa mesmo de destino, ou o caminho já basta?
7. California Stars

Talvez a canção mais luminosa da banda. Mas não é uma luz artificial. É aquela claridade suave do fim de tarde. Fala de amor, de expectativa, de um lugar que parece sempre um pouco distante.
Ela me pega justamente por isso. Porque todo mundo tem sua Califórnia particular. Um lugar, uma pessoa, uma ideia. Algo que parece perto o suficiente para sonhar, mas longe o bastante para doer.
No fim das contas, Wilco é isso. Um espelho embaçado, mas honesto. Música que não se impõe, mas permanece. E talvez seja por isso que, volta e meia, eu retorno a essas canções. Não para encontrar respostas. Mas para fazer melhores perguntas.











