O punk em estado bruto: mais oito canções essenciais dos Ramones
- Marcello Almeida
- há 2 dias
- 3 min de leitura
Do porão do CBGB para o mundo, músicas curtas, diretas e eternamente inquietas

Antes de o punk virar camiseta cara ou discurso pasteurizado, ele tinha endereço fixo. Um porão sujo, palco pequeno, som estourado e cheiro de cerveja velha. O CBGB não foi apenas um clube. Foi um ponto de encontro de gente deslocada, barulhenta e criativa demais para caber no rock da época. Ali, bandas testavam limites, erravam sem medo e aprendiam rápido, porque o público estava a poucos metros de distância.
No meio desse caos organizado, os Ramones criaram uma identidade própria. Não eram virtuosos, nem queriam ser. O que eles fizeram no CBGB foi lapidar uma linguagem direta, quase brutal, que colocava o rock em estado de urgência permanente. Essas músicas nasceram desse ambiente. Curtas, intensas e cheias de tensão entre humor, violência, juventude e tédio. Abaixo, mais oito canções que ajudam a entender por que aquela banda de jaquetas de couro mudou tudo.
1. Now I Wanna Sniff Some Glue

Talvez nenhuma música represente tão bem o espírito nihilista inicial dos Ramones. A letra é repetitiva, quase infantil, mas justamente por isso soa perturbadora. Não há glamour, não há redenção. Só tédio, frustração e a busca por qualquer coisa que desligue a mente.
O impacto da canção não está no choque gratuito, mas no retrato cru de uma juventude sem horizonte. É desconfortável porque é honesta. E porque nunca tentou ser exemplo de nada.
2. Gimme Gimme Shock Treatment

Aqui, os Ramones flertam com um tema delicado sem qualquer cuidado moralizante. A música fala de colapso mental, instituições e a sensação de ser empurrado para dentro de um sistema que não entende você. Tudo isso embalado por um ritmo acelerado e quase alegre.
A ironia é o que torna a faixa tão poderosa. A dor nunca é explicada. Ela simplesmente acontece. Como tantas coisas na vida real.
3. Commando

“Commando” soa como uma sátira militar passada pelo filtro do punk. A letra mistura imagens de disciplina, violência e lavagem cerebral com humor seco e quase absurdo. Nada ali parece heroico. Tudo é automático, mecânico, desumanizado.
É uma crítica que não se explica. Ela se impõe pela repetição e pela sensação de vazio que deixa no fim. Punk como desconforto, não como discurso.
4. Do You Wanna Dance?

Uma releitura que mostra o quanto os Ramones entendiam a história do rock. Ao transformar uma canção leve dos anos 1950 em algo acelerado e urgente, a banda conecta passado e presente sem reverência excessiva.
O resultado é quase uma declaração estética. O punk não nega o que veio antes. Ele atropela, reaproveita e segue em frente.
5. Pinhead

“Pinhead” é estranha, repetitiva e hipnótica. O famoso “Gabba Gabba Hey” não faz sentido literal, mas funciona como código de pertencimento. Um chamado para quem se sente fora do padrão, fora da norma, fora de tudo.
A música não pede aceitação. Ela cria uma comunidade própria. Mesmo que seja caótica, barulhenta e meio torta.
6. We're a Happy Family

Nada aqui é literal. A família feliz do título é uma farsa, um retrato irônico de relações disfuncionais, abuso e normalidade imposta. A música soa quase divertida, mas o conteúdo é ácido e incômodo.
Os Ramones entendiam que rir também é uma forma de denunciar. E talvez uma das mais eficazes.
7. Poison Heart

Já no fim da trajetória, “Poison Heart” revela um lado mais vulnerável da banda. A urgência dá lugar a uma melancolia direta, sem firulas. É uma música sobre amor, rejeição e desgaste emocional.
Mesmo mais lenta, ela carrega o mesmo espírito. O coração continua quebrado. Só que agora ele sabe disso.
8. Danny Says

Talvez uma das canções mais subestimadas dos Ramones. “Danny Says” é quase confessional, cansada, introspectiva. Fala de estrada, solidão e do peso de viver sempre em movimento.
É uma despedida silenciosa dentro de um catálogo barulhento. E justamente por isso, uma das mais humanas.
Essas músicas mostram que os Ramones nunca foram só velocidade e barulho. Eram observadores atentos de um mundo quebrado, transformando frustração em canção curta e direta. No palco apertado do CBGB ou nos fones de ouvido de hoje, elas continuam soando como um soco seco. Sem aviso. Sem anestesia.











