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O barulho que salvou uma geração: oito canções essenciais dos Ramones

Três acordes, duas palavras gritadas no refrão e uma urgência que ainda soa como verdade

Ramones
Imagem: Reprodução

Poucas bandas mudaram tanto a história do rock dizendo tão pouco e tão alto ao mesmo tempo quanto o Ramones. Surgidos no meio da Nova York quebrada dos anos 1970, eles não queriam virtuosismo, não queriam solos longos, não queriam salvação. Queriam três acordes, velocidade, ironia e uma forma direta de sobreviver ao tédio, à frustração e à sensação de estar sempre fora do lugar.



Enquanto o rock se tornava cada vez mais "pomposo", técnico e distante, os Ramones fizeram o caminho inverso. Encurtaram as músicas, aceleraram o pulso e trouxeram o rock de volta ao chão sujo das ruas. O que parecia tosco era, na verdade, uma estética muito bem definida. O minimalismo virou linguagem. A repetição virou identidade. E aquela contagem seca — one, two, three, four — passou a soar como um manifesto.


As canções do Ramones falam de garotas, cola de sapateiro, filmes B, violência urbana, alienação juvenil e humor ácido. Mas por baixo da simplicidade existe um retrato fiel de uma juventude sem glamour, presa entre o desencanto e a vontade de gritar. É por isso que essas músicas seguem vivas. Não como nostalgia vazia, mas como energia bruta que atravessa décadas.


Abaixo, oito canções emblemáticas que ajudam a entender por que os Ramones não foram apenas uma banda. Foram um ponto de ruptura.


1. Blitzkrieg Bop

Joey Ramone
Imagem: Reprodução/YouTube

Não é exagero dizer que tudo começa aqui. “Blitzkrieg Bop” não apenas apresentou os Ramones ao mundo como redefiniu o que uma música de rock podia ser. Dois minutos, refrão infantil, andamento acelerado e um “Hey! Ho! Let’s go!” que virou grito coletivo. A letra é simples, quase ingênua, mas o impacto é devastador. É um chamado. Um empurrão. Um aviso de que o rock estava sendo reiniciado do zero.


Mais do que um hino punk, a faixa virou uma senha geracional. Até hoje, basta tocar os primeiros segundos para que qualquer ambiente mude de temperatura.



2. Judy Is a Punk

Johnny Ramone
Imagem: Reprodução

“Judy Is a Punk” é um bom exemplo da narrativa relâmpago dos Ramones. Em pouco mais de um minuto, a banda constrói uma história de fuga, rebeldia e caos juvenil. Judy não é exatamente uma personagem aprofundada. Ela é um símbolo. Uma garota em movimento, sem rumo claro, atravessando cidades, gangues e possibilidades.


A música traduz bem a ideia de juventude como deslocamento constante. Nada é fixo. Nada é seguro. Tudo acontece rápido demais para ser explicado.



3. Sheena Is a Punk Rocker

Joey Ramone
Imagem: Reprodução/YouTube

Aqui os Ramones fazem algo raro. Criam um hino e, ao mesmo tempo, uma declaração de identidade. Sheena é a garota que troca o surf rock pelo punk. Que abandona a diversão vazia para algo mais urgente, mais sujo, mais real. A canção tem melodia contagiante, quase pop, mas carrega uma mudança cultural clara.


“Sheena Is a Punk Rocker” é o punk olhando para si mesmo e dizendo: isso é quem somos agora.




4. Beat on the Brat

Ramones
Imagem: Reprodução

Ironia, humor negro e desconforto. “Beat on the Brat” nasceu de uma observação cotidiana de Joey Ramone e virou uma das letras mais provocativas da banda. A violência aqui não é glorificada, é escancarada como sintoma. A música soa quase alegre, mas o conteúdo incomoda, como deveria.


É um retrato torto da vida urbana, onde a agressividade se mistura à banalidade do dia a dia.




5. Rockaway Beach

(Crédito da imagem: Michael Ochs Archives via Getty Images)
(Crédito da imagem: Michael Ochs Archives via Getty Images)

Se existe um lado ensolarado nos Ramones, ele mora aqui. “Rockaway Beach” é rápida, melódica e cheia de energia. Fala de fuga, de calor, de liberdade, de pegar o caminho mais rápido para longe da opressão cotidiana. É quase um hit de verão punk, se isso fizer sentido.


A música mostra que os Ramones também sabiam soar leves sem perder identidade. Punk não precisa ser sempre raiva. Às vezes é só vontade de correr.



6. I Wanna Be Sedated

Ramones em animação
Imagem: Reprodução

Uma das canções mais honestas da banda. “I Wanna Be Sedated” fala de exaustão mental, ansiedade, sobrecarga e desejo de desligar o mundo. Tudo isso embalado por uma melodia quase alegre. A contradição é proposital e poderosa.


Décadas depois, a música soa ainda mais atual. O desejo de anestesia não mudou. Só ganhou novos nomes.



7. Pet Sematary

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Gravada já no fim da carreira, “Pet Sematary” mostra uma banda mais madura, mas sem perder personalidade. A letra inspirada em Stephen King flerta com o macabro, com a morte e com a ideia de que algumas coisas não deveriam voltar. Musicalmente, é mais acessível, quase radiofônica.


É também a prova de que os Ramones sabiam envelhecer sem virar caricatura de si mesmos.



8. Teenage Lobotomy

Ramones
Imagem: Reprodução

Talvez uma das letras mais estranhas e fascinantes do catálogo. “Teenage Lobotomy” mistura ficção científica, crítica social e paranoia juvenil. A lobotomia aqui é metáfora. Para a alienação. Para o apagamento do pensamento crítico. Para a sensação de ser moldado à força.


É punk como conceito, não só como som.



Ouvir os Ramones hoje é perceber que a simplicidade deles nunca foi falta de ideia. Foi escolha. Foi método. Foi resistência. Essas canções seguem pulsando porque falam de coisas que não envelhecem. Juventude, frustração, desejo de fuga, humor ácido e a necessidade quase física de fazer barulho quando ninguém está ouvindo.

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