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Pitty: oito canções que seguem pulsando

Entre o grito e o silêncio, a obra de Pitty atravessa o tempo falando de identidade, liberdade e transformação

Pitty
Imagem: Reprodução

Antes da lista, vale situar. A Pitty nunca foi apenas uma cantora de rock que estourou nos anos 2000. Ela surge num Brasil atravessado por contradições, ainda pouco disposto a ouvir mulheres falando alto sobre identidade, ansiedade, controle, autonomia e afeto. Um país em transição, entre o fim de uma euforia artificial e o início de um mal-estar mais difuso, que ainda não tinha nome.



Desde o começo, suas músicas partiram do íntimo, mas nunca ficaram presas ali. Falavam de dentro, sim, mas batiam fora, no social, no comportamento, nas relações de poder, nas pequenas violências cotidianas. Eram confessionais sem fragilidade performática, políticas sem panfleto, diretas sem perder densidade emocional. Havia raiva, mas também dúvida. Força, mas também fissura.


O tempo passou, o mundo acelerou, os conflitos mudaram de forma. Ainda assim, essas canções seguem ali, firmes, atravessando gerações, playlists e contextos. Algumas, curiosamente, parecem hoje ainda mais atuais do que quando foram lançadas. Talvez porque a Pitty nunca escreveu para um momento específico. Escreveu para estados de espírito. E esses, infelizmente ou não, continuam os mesmos.



  1. Admirável Chip Novo

Pitty
(Foto: Bruno Fujii)

É impossível fugir dela. Não só porque abriu caminhos, mas porque segue funcionando como espelho. A música fala de controle, padronização e silenciamento, mas sem apontar o dedo. O desconforto vem justamente daí.


Com o tempo, deixou de ser apenas um retrato de um sistema opressor e virou um comentário sobre como a gente aprende a se vigiar, a se moldar, a se autocensurar. Dói porque reconhece.




  1. Máscara

Pitty
Imagem: Reprodução

Aqui, a Pitty toca num ponto delicado: a coragem de se mostrar sem personagem. “O importante é ser você” não soa como frase de efeito, soa como decisão difícil. A canção cresce como um desabafo que vira afirmação, sem romantizar o processo.


É sobre arrancar camadas, mesmo sabendo que o mundo prefere versões mais fáceis de engolir.



  1. Equalize

Pitty ao vivo
Imagem: Reprodução/YouTube

Talvez a mais delicada da lista. Equalize fala de amor, mas não daquele amor confortável. É desejo misturado com medo, entrega com insegurança, vontade com limite. O rock aqui se curva ao sentimento sem perder força. Com o tempo, virou trilha sonora de histórias muito diferentes entre si. Cada um escuta de um jeito. E isso diz muito sobre a música.



  1. Teto de Vidro

Pitty

Essa envelheceu bem porque nunca foi simples. Fala de contradição, incoerência, julgamento. De apontar falhas enquanto esconde as próprias. É um soco seco, direto, mas inteligente. Não há vilões claros.


Só gente tentando sustentar discursos que nem sempre se mantêm em pé. Hoje, em tempos de opinião em excesso, o refrão soa ainda mais afiado.



  1. Me Adora

Foto: reprodução/Instagram)
Foto: reprodução/Instagram)

Muita gente leu essa música como deboche ou provocação. Mas ela funciona melhor como reconstrução. Me Adora fala de sair do lugar da rejeição e retomar o próprio eixo. Não para agradar o outro, mas apesar dele. É uma canção sobre autonomia emocional. Talvez por isso tenha incomodado tanto quando saiu.



  1. Serpente

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Aqui está a Pitty mais madura, mais silenciosa e talvez mais perigosa. Serpente não grita, ela se infiltra. Fala de ciclos, de veneno, de relações que se alimentam da repetição. É uma música que cresce depois que acaba. Fica ecoando. Retrato de alguém que já atravessou o caos e agora observa com calma, sabendo exatamente onde pisa.


  1. Submersa

Pitty
Foto: Reprodução

Lá no Matriz, Submersa soa diferente desde a primeira escuta. Não é uma canção que se impõe. Ela envolve. Parece falar de maternidade, sim, mas sem nunca fechar o sentido. Está ali a ideia de cuidado extremo, de medo constante, de amor que protege e, ao mesmo tempo, assusta pela intensidade. A sensação de estar sempre alerta, de viver com o coração fora do corpo.


É uma música sobre transformação profunda. Sobre deixar de ser centro para virar abrigo. A água que aparece não afoga, mas exige fôlego. E talvez seja isso que torne Submersa tão forte. Ela não explica a maternidade, não romantiza, não dramatiza. Apenas traduz aquele estado em que amar é também aprender a respirar de outro jeito.




  1. Bicho Solto

Pitty
Imagem: Reprodução

Bicho Solto é instinto em estado bruto. Uma canção sobre não caber mais onde antes parecia suficiente. Tem algo de libertação, mas também de alerta. Não é fuga irresponsável, é sobrevivência. A letra fala de romper cercas invisíveis, de recusar domesticação, de assumir o risco de ser quem se é, mesmo quando isso assusta os outros.


Dentro do contexto do Matriz, ela ganha ainda mais força. Depois da introspecção de Submersa, Bicho Solto soa como um corpo que volta à superfície, respira fundo e decide seguir em frente. É a Pitty reafirmando autonomia, agora sem pressa, sem provar nada, apenas consciente do próprio território.



No fim, a lista não fecha nada. Ela abre. Porque ouvir Pitty hoje é perceber como certas perguntas continuam sem resposta. E talvez nem precisem ter. A força dessas canções está justamente nisso: elas não tentam explicar o mundo. Elas escutam. E devolvem.

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