Criolo, Amaro & Dino: um bonito disco que soa como uma celebração sonora entre Brasil, Portugal e o mundo
- alexandre.tiago209
- há 17 horas
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“Criolo, Amaro & Dino” é um álbum que sintetiza Jazz, Rap, MPB, Soul e música africana sem forçar fusões ou buscar tendências. Tudo flui. Tudo conversa

Discos colaborativos são projetos fascinantes porque unem artistas de universos distintos e geram encontros criativos difíceis de prever. Quando essa soma funciona, o resultado costuma extrapolar gêneros, estilos e expectativas — e é exatamente isso que acontece em “Criolo, Amaro & Dino”, álbum lançado em 15 de janeiro de 2026 que reúne o rapper paulista Criolo, o pianista pernambucano de jazz Amaro Freitas e o músico português de ascendência cabo-verdiana Dino d’Santiago.
Antes dessa reunião, os três artistas já cultivavam carreiras sólidas e respeitadas: Criolo havia lançado o excelente “Sobre Viver” (2022), Amaro Freitas apresentou o monumental “Y’Y” (2024) e Dino vinha do bem-sucedido “EVA (onti y oji)” (2023). Ou seja, a colaboração nasce não apenas de trajetórias maduras, mas de artistas em plena forma criativa — ponto essencial para compreender a força deste álbum.
Embora Criolo e Amaro Freitas já tivessem historial de gravações e shows, Dino surge aqui como um elo que expande geografias e sonoridades. A primeira parceria entre Dino e Criolo aconteceu recentemente, em 2024, com “Esperança”. Dino também dialoga frequentemente com a música brasileira, como ficou evidente em “Oh Bahia” com Luedji Luna (2024), e no disco “O Mundo Dá Voltas” (2025), do BaianaSystem. Esse trânsito cultural prepara o terreno para o encontro.
Gravado entre Lisboa (Portugal), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), o álbum tem 12 faixas e 36 minutos, criando uma ponte sonora que conecta Portugal, Cabo Verde e Brasil. É uma obra com território indefinido — e isso é um elogio. Quando a música é boa, ela ignora fronteiras, calendários e rótulos.
A abertura com “E Se Livros Fossem Líquidos?” é arrebatadora. Utilizando elementos de “Poeta Fora da Lei”, de Xamã, o trio constrói uma crônica musical que celebra a leitura enquanto apresenta um manifesto sobre autenticidade, resistência e transformação. O passado e o presente se entrelaçam e o ouvinte entende, desde o primeiro minuto, que está diante de um trabalho que exige atenção e recompensa cada detalhe.
Em “Você Não Me Quis”, uma das grandes faixas do disco, o clima é de leveza comunitária. O canto firme de Criolo, o coro sedutor de Dino e o piano cintilante de Amaro se encontram com a participação das As Clarianas, que adicionam ancestralidade, afeto e potência cultural. O resultado é uma espécie de roda global onde Brasil e Cabo Verde conversam com o resto do mundo.
Esse mesmo espírito aparece em “Menina do Côco de Garipé”, mais percussiva e guiada por pulsos que remetem ao Afrobeat, ao jazz africano e a ritmos tradicionais afro-diaspóricos. É um desses momentos em que o ouvinte sente o corpo ser puxado pela música antes mesmo de racionalizar o que está ouvindo.
Outros dois grandes destaques estão em “Seka” e “No Vento de Nós” — músicas exuberantes, líricas, afiadas e carregadas de ancestralidade. São faixas que soam vivas, sentimentais e resilientes, reforçando a pluralidade estética do projeto.
Há também espaço para cada artista brilhar individualmente. Em “Amazônia”, o piano de Amaro ecoa a fluidez de “Y’Y”, enquanto em “Anoitecer”, Criolo mistura poesia e suingue pop com naturalidade. Já em “Mama Afrika”, Dino d’Santiago assume protagonismo em inglês, alcançando uma performance avassaladora e impecável. O trio ainda presta um tributo elegante com um interlúdio de “Passaredo”, homenagem a Chico Buarque e Francis Hime, que reforça respeito e reverência à tradição musical brasileira.
No fim, “Criolo, Amaro & Dino” é um álbum que sintetiza Jazz, Rap, MPB, Soul e música africana sem forçar fusões ou buscar tendências. Tudo flui. Tudo conversa. Tudo vibra. É um disco plural e contemporâneo que abre 2026 com vigor, beleza e inteligência estética. Mais do que um encontro entre três grandes nomes, é um lembrete poderoso de que a música pode ser liberdade, afeto, união e criatividade ao mesmo tempo — atravessando fronteiras e firmando raízes.
E assim o trio Criolo, Amaro Freitas e Dino d'Santiago se consagra ainda mais como parte essencial da música global contemporânea, celebrando arte, cultura, ancestralidade, amizade e magnitude sonora.












