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Por que ainda ouvimos “Sara”, do Fleetwood Mac

Uma canção que não pede atenção, apenas silêncio e entrega

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

“Sara” começa com um instrumental melódico capaz de nos transportar para longe, direto para dentro dos próprios pensamentos. Então entra a voz doce, angelical e, ao mesmo tempo, profundamente sensual de Stevie Nicks. O arranjo embala, cresce com delicadeza, e de repente ela solta aquele verso que arrepia a espinha. Não é exagero dizer que estamos diante de uma das canções mais bonitas já compostas.



Pra mim, essa é uma faixa que transcende tudo aquilo que esperamos de uma canção pop. É um estado de espírito. Uma música que não se apressa, não explica demais e não tenta impressionar. Ela simplesmente fica ali, na alma. E talvez seja exatamente por isso que ela resiste tão bem aos efeitos do tempo.


Naquele fim dos anos 70, o Fleetwood Mac estava no olho de um furacão emocional. Relacionamentos implodindo, egos em choque, tudo à flor da pele. “Sara” nasce desse cansaço afetivo. É como se, no meio do caos, alguém apagasse as luzes, sentasse no chão e começasse a cantar baixinho para não acordar mais ninguém.


A música parece flutuar. Não tem refrão explosivo, não tem clímax óbvio. Ela vai se abrindo aos poucos, como uma conversa que acontece de madrugada, quando a gente fala mais com o silêncio do que com a outra pessoa. E a voz de Nicks não conduz, ela confessa. Meio sussurro, meio memória.



O mais bonito é que a música nunca se entrega totalmente. Ela deixa espaços. Espaços para a gente projetar perdas, amores que não se completaram, versões de nós mesmos que ficaram pelo caminho. É uma música sobre alguém, mas também sobre tudo aquilo que poderia ter sido e não foi.


A canção foi escrita por Stevie Nicks em meio a perdas profundas. Há quem associe o nome a uma gravidez interrompida, há quem leia a letra como um retrato de relações que não sobreviveram ao tempo, há quem veja ali uma conversa íntima consigo mesma. O mais importante é que Stevie nunca fechou esse significado. “Sara” permanece aberta, como se fosse feita para não ser totalmente compreendida, apenas sentida.



Isso se reflete diretamente na estrutura da música. Ela não segue um formato convencional. Vai e volta, cresce, recua, repete versos como quem tenta entender o que acabou de dizer. O instrumental não conduz a voz; ele a envolve. É quase como se a banda estivesse ali para amparar aquela confissão, não para enquadrá-la, se é que vocês me entendem.


Dentro de Tusk, um disco marcado por tensões criativas e escolhas arriscadas, a faixa funciona como um ponto de respiro. Uma música que não quer vencer, não quer provar nada, não quer competir com o passado glorioso da banda. Ela existe fora dessa lógica. É íntima demais para ser grandiosa, delicada demais para ser épica.



Talvez a pergunta não seja apenas por que ainda ouvimos “Sara”. Talvez seja porque, em algum ponto da vida, todo mundo vira essa música: delicado, confuso, tentando seguir em frente sem fazer barulho demais.  E, no fim das contas, são essas músicas que atravessam o tempo. As que não tentam se explicar. As que apenas permanecem, esperando que a gente esteja pronto para ouvi-las de novo.



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