Por que ainda ouvimos “Let Down”, do Radiohead
- Marcello Almeida
- há 12 horas
- 3 min de leitura
Nem sempre é tristeza. Às vezes é só o peso invisível de continuar. Porque o mundo acelerou, mas a sensação de estar esmagado ficou

Existe uma expressão que define muito bem toda a angústia e narrativa envolvida em Let Down: aquela sensação diária de estar “crushed like a bug in the ground” (esmagado como um inseto no chão). É sobre viver no automático, dias monótonos que se repetem, formando um ciclo vicioso, algo bem característico desses tempos modernos e acelerados, onde o consumo desenfreado, excesso e polarizações de informações dominam as redes.
E que mundo é esse onde muitos Orelhas são torturados e mortos, melhor dizendo, empalados diariamente? É um fluxo de questionamentos, revolta e sensação de que tudo deu muito errado. Let Down também é sobre isso.
Ela é profundamente humana, justamente por expor o que há de mais desumano em nós.
Interessante é que estamos falando de uma canção lançada lá em 97, o profético e brilhante OK Computer. O que mudou de lá pra cá? Violência desenfreada, estupidez humana, como cantava o saudoso Renato Russo, guerras, ódio e um mundo tomado por tecnologia e redes sociais… e, nisso, a vida vai acontecendo no automático: casa, trabalho, ruas, velocidade, pressa… cansaço... e eu volto a pensar no Orelha..."shell smashed, juices flowing / wings twitch, legs are going".
Enquanto o mundo se deslumbrava com os brilhos do novo milênio, o Radiohead se trancava num estúdio em uma casa velha e distante para escrever o fim da era da inocência. OK Computer não foi só um disco, foi uma premonição. Um recado cifrado sobre tudo que estava prestes a dar errado. E que deu.
“Let Down” nunca foi sobre um grande colapso. Ela fala do desgaste silencioso. Da sensação de estar sempre correndo e, ainda assim, ficando para trás. De cumprir horários, expectativas, metas invisíveis, enquanto algo dentro da gente vai se achatando, quase sem fazer barulho.
A música cresce devagar, como o cansaço cresce. Primeiro, parece só melancolia. Depois, vira peso. As camadas se acumulam, os vocais se multiplicam, como se a própria canção estivesse tentando respirar num ambiente saturado. Nada explode. Tudo aperta.
Em 97, isso soava como uma inquietação artística, quase uma paranoia elegante. Hoje, soa como retrato fiel. A exaustão mental, a cobrança por produtividade constante, a obrigação de estar sempre disponível, sempre atualizado, sempre performando alguma versão aceitável de si mesmo. “Let Down” já sentia isso antes da gente saber dar nome.
Ela não acusa a tecnologia, nem demoniza o progresso. Apenas mostra o efeito colateral. Mostra o corpo cansado dentro da engrenagem. Mostra a mente tentando acompanhar um mundo que não desacelera. E talvez por isso ela doa tanto: porque é simples, direta, humana.
Não há consolo fácil aqui. Não há promessa de redenção. O que existe é reconhecimento. Um espelho meio embaçado, mas honesto. A música não diz “vai passar”. Ela diz “eu vejo você”.
Talvez a gente ainda ouça “Let Down” porque ela continua fazendo sentido demais. Porque seguimos atravessando dias parecidos, cheios de ruído, informação, urgência e pouca escuta. Porque seguimos tentando não desaparecer no meio do fluxo.
E porque, às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma canção que sente ao nosso lado, sem pressa, sem resposta pronta, e acompanhe o cansaço até o fim. Uma beleza frágil, flutuante, um colapso em câmera lenta.











