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Harpía - Presença Maligna abriga folclore e simbologias para questionar sobre maternidade, luto e sanidade

A película não deseja ter pressa. E algo que parecia uma simples reunião familiar, vai crescendo gradativamente numa atmosfera sombria e instável

Harpía - Presença Maligna
Imagem: Divulgação/ Prime Video

O gênero terror se aproveita de muitos recursos para criar sua história. Claro que em algumas vezes o resultado pode não ser tão eficiente e a interpretação que o espectador tira daquilo pode ainda ficar de forma vaga em sua mente.

 


Usar da própria natureza animal, do folclore e de simbologias não é algo fácil e precisa estar tudo corretamente interligado, sobretudo quando a proposta do filme pretende chegar em forma de várias metáforas e de analogias.

 

Foi pensando assim que Angela Gulner escreveu e dirigiu Harpía - Presença Maligna (The Beldham, 2024). No filme, Harper (Katie Parker) e sua bebê Cristine se mudam para a antiga casa da família. Harper então percebe que a casa esconde segredos e que algo amaldiçoado no lugar está lhe vigiando a cada dia que passa.

 

O título em inglês refere-se a uma expressão arcaica usada para designar mulher idosa. O folclore europeu se insere na narrativa pois remete a uma ave que se alimenta de crianças (que também foi chamada por muitos como uma bruxa, uma harpía). O terror então começa a ser construído com essa simbologia da ave, seja nas penas que começam a cair por um vão no teto, seja no pássaro que Harper encontra dentro de uma gaveta.

 

A temática maior aqui, claro, fica por conta da maternidade. No gênero, a maternidade nem sempre é vista como algo que traz felicidade ou conforto. Pelo contrário, muitas vezes está associada ao medo, culpa e até mesmo se torna um elo entre conflitos existenciais e familiares.

 

A película não deseja ter pressa. E algo que parecia uma simples reunião familiar, vai crescendo gradativamente numa atmosfera sombria e instável. O terror vai se instalando não com muito sangue, cenas viscerais ou sustos fáceis, e sim, na própria condição psicológica da personagem.

 

Créditos: Prime Video / Divulgação
Créditos: Prime Video / Divulgação

O medo de deixar a bebê sozinha e até mesmo o hábito de colocar papel alumínio nos vidros da janela (para afugentar um corvo) correspondendo aos exageros de mãe criam uma tensão necessária inclusive quando a sanidade de Harper começa a causar desconforto familiar.

 

Engraçado que num certo momento da narrativa até podemos nos lembrar de O Bebê de Rosemary, mas, por sorte, o filme de Angela está longe de ser uma cópia do filme de 1968 dirigido por Roman Polanski.

 

A diretora também sabe trabalhar com a arquitetura da casa. O porão, o compartimento fechado (por algum motivo), a câmera que foca na janela atrás do personagem (e a gente esperando ver algo ali) e até mesmo o jardim descuidado que esconde um objeto diferente e estranho colaboram para um Terror que progride gradativamente.

 


Sim, são velhos e conhecidos elementos do gênero, mas como eles surgem e aceleram os medos e dúvidas da personagem é que fazem o diferencial. A casa, por si só, já é uma representação fiel da vivência emocional dos personagens. O espaço revela confinamento, vigilância e é uma metáfora para o luto e o passado dos moradores.

 

Um dos destaques do filme fica por conta da edição de som. O choro alto do bebê, os gritos desesperados da mãe, o barulho de algo se arrastando pela casa, chiados e uma trilha sonora densa que surge na hora exata contribuem para uma ideia de sufocamento, de claustrofobia e de uma personagem que se questiona a si mesma sobre sua sanidade.

 

Harpía - Presença Maligna entra na lista daqueles filmes difíceis de indicar e que precisaria de uma segunda revisita. Claro que não são muitos espectadores que estão dispostos a isso. O final, com os créditos ainda passando na tela, nos deixa em estado de reflexão e de observação. Conseguimos assimilar tudo ali, realmente? Se assim for a intenção do cinema, deixe estar.

 

E difícil não pensar que mesmo por trás do aspecto folclórico, do sobrenatural e do emprego de simbologias, existe a questão que temos os mesmos problemas que contemplamos na ficção que acabamos de presenciar, até porque, acima de tudo, somos humanos.

Trailer:


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