Inteligência Hostil é mais um filme que coloca homem e IA diante de uma situação conturbada
Suspense russo transforma uma casa controlada por inteligência artificial em palco para segredos, culpa e verdades que insistem em voltar

Com o avanço cada vez mais intenso da IA, o cinema sentiu a necessidade de explorar esse tema trazendo muitas questões e mostrando um novo mundo que se define conforme essa tecnologia fique sempre mais presente em nosso cotidiano.
Em Acompanhante Perfeita (Companion, 2025), a namorada de um rapaz não é exatamente uma pessoa de carne e osso como pensávamos ser. Diabólica (Afraid, 2024) traz uma família refém de uma casa totalmente computadorizada e Margaux – A Inteligência Mortal (Margaux. 2022) transforma um tranquilo final de semana entre amigos num pesadelo sangrento numa casa controlada por uma IA assassina.
O filme russo Inteligência Hostil (Голосовой помощник, 2025) tem uma trama bem parecida com o último filme citado anteriormente. Da mesma forma, um grupo de amigos decide passar um final de semana numa casa alugada e, novamente, a residência é manipulada por uma inteligência artificial.
Porém, ao contrário de Margaux, aqui o roteiro fica bem focado no mistério e suspense, não fazendo tanto caso do gênero terror. Contudo, se no filme de 2022 havia uma personagem que conhecia bem o universo da Inteligência Artificial, aqui no filme russo os 5 amigos inclusive estão tentando se adaptar à tecnologia que os cerca e que convive ao lado deles em suas profissões e rotinas.
O próprio avanço da tecnologia vira alvo do filme nos minutos iniciais. Dentro de um Tesla elétrico e todo computadorizado, um dos personagens comenta estar com medo de perder seu emprego para uma máquina. Posteriormente, isso voltará a ser discutido com os amigos reunidos para o almoço no interior da casa.
O grupo então conhece Alyona. Longe de ser mais uma variante avançada da Alexa, aqui a assistente virtual faz muito mais do que receber comandos de seus usuários, ela insere os amigos num jogo onde muitas verdades e revelações surgirão. A casa então passa a ser um lugar conturbado com a IA ditando suas próprias regras, inclusive mantendo o grupo trancado e sem saída para o exterior.

Conforme o filme avança, percebemos que algo trágico no passado aconteceu com o grupo, um evento que ocorreu de forma misteriosa e que não teve respostas. Os diversos flashbacks que surgem nos contam sobre o passado dos personagens e dessa forma vai pedindo que o espectador monte um quebra-cabeça para entender o que realmente aconteceu antes da chegada deles na residência.
Embora possua uma ideia interessante de criar uma IA onisciente capaz de julgar as próprias ações humanas, de se fixar tal qual uma juíza diante de um tribunal, o filme não engrena tão rápido, deixando que sua meia hora final seja a parte mais interessante e desenvolva acontecimentos mais cruciais e impactantes.
Os jogos tornam-se mais arriscados e os personagens começam a sentir que a reunião saiu do controle, sobretudo quando o ambiente claustrofóbico é sufocado com questões como aborto, assédio sexual, mentiras e traições.
Será que temos tanta privacidade assim hoje em dia? Existe uma sensação de estar sempre vigiado? Nossas vidas ficaram tão expostas? Nossos comentários e ações em redes sociais podem se voltar contra nós mesmos? São questões que ficam. De qualquer forma, Inteligência Hostil não perde tanto tempo para temáticas tão amplas e divergentes como os malefícios ou benefícios da IA.
O principal é o filme explorar o ambiente que geralmente se contamina ou fica perigoso, sobretudo quando a verdade não chega quando se é necessária. Como disse a própria Alyona em certa parte do filme: ‘a verdade pode ser contestada, mas nunca desaparece por completo’. O diretor Oleg Vitvitski conseguiu realizar uma das grandes surpresas do Cinema Russo dos últimos anos.
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