Corrida dos Bichos aposta na distopia e no espetáculo visual mesmo sem soar tão crítico e contundente
- Eduardo Salvalaio

- há 1 dia
- 3 min de leitura
Atualizado: há 3 horas
Fernando Meirelles aposta em um Rio de Janeiro distópico onde violência, desigualdade e espetáculo se encontram em uma versão brutal do Jogo do Bicho

O que seria do cinema se não existisse a ficção distópica? Esse gênero é importante e vem ganhando cada vez mais respaldo nas mãos de diversos diretores. Em muitos filmes contemplamos uma ficção que não é impossível de virar realidade, por mais que tudo seja tão caótico, assustador e difícil de aceitar. Não apenas criar catarse, a distopia pode servir muito bem como um alerta.
O cinema brasileiro através dos últimos anos tem voltado os olhos para esse gênero. Com ideias boas e se apropriando bem das características e peculiaridades de nosso país, filmes como Medida Provisória (2022) e O Último Azul (2025) chocaram e cumpriram seu papel ao trazerem tramas distópicas, mesmo sem apelarem para efeitos, exageros ou cenários futuristas demais.
Dessa vez, quem foi conquistado por esse gênero é nosso grandioso Fernando Meireles (O Jardineiro Fiel, 2005). Junto com outros dois diretores, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis (Perdido, 2020), ele traz Corrida dos Bichos (2026). Nada mais oportuno pegar algo da nossa cultura popular, o ainda controverso Jogo do Bicho, para criar uma narrativa ambientada num Rio de Janeiro devastado por uma catástrofe ambiental.
Aqui, o Jogo do Bicho foi transformado num jogo que serve de entretenimento para magnatas. Eles controlam um jogo onde a classe mais baixa corre usando máscaras de animais. Caso não se classifiquem, os participantes precisam deixar uma garantia. Essa garantia é alguém da família que passa a ser como um escravo para os controladores do jogo.
Com um apelo visual bem forte, as corridas acontecem entre elementos da paisagem urbana como prédios, vielas, contêineres, morros e escadas. Para acentuar a ação, os participantes também podem trapacear com direito a empurrões e combates corpo a corpo. São cenas ágeis e extremas com direito a acrobacias de parkour e coreografias de artes marciais.
O corredor também pode passar pelo perímetro. No filme, é um lugar que serve de atalho, porém é uma região arriscada que é controlada pelos rebeldes que não aceitam o jogo e nem de quem dele participa. Uma pena que essa subtrama do filme acaba não tão bem aproveitada e os personagens dessa região sequer contribuem para trazer mais tensão ou para acrescentar algum fator surpresa para a narrativa.

De uma forma geral, o cenário pós-apocalíptico nem faz tanta diferença. Tudo é explicado brevemente no início do filme que opta por entrar logo na Ação. Um Rio de Janeiro em parte devastado nem influencia tanto na história. Através do jogo, o objetivo maior ainda é criticar o uso da violência e da desumanização que viram forma de entretenimento.
Mano (Matheus Abreu), um dos participantes, está no jogo para poder salvar sua irmã. Ele que poderia ser um contraponto perfeito dentro da narrativa ao entrar em choque com os controladores do jogo e das regras impostas, acaba não funcionando tão bem assim.
Outro dois personagens, Baco (Seu Jorge) e Nadine (Isis Valverde), também poderiam ter recebido um desenvolvimento menos raso, sobretudo com alguns flashbacks que mostrassem melhor o passado e a história de ambos.
O elenco conta ainda com a participação de Rodrigo Santoro que incorpora o vilão Abu com sua personalidade envolta em cinismos e sarcasmos. Anitta faz o papel de Divina, a locutora dos jogos que faz da rima e das gírias um poder maior de motivar os espectadores afoitos pelos resultados das corridas.
Corrida dos Bichos passa mais um conceito de espetáculo visual do que de um filme capaz de deixar mensagens ou críticas. Sabemos bem que não faltaram influências como O Sobrevivente (1987) e Jogos Vorazes (2012). É entretenimento? Sim. Você vai se empolgar e se deslumbrar com muitas cenas.
Em contrapartida, é um filme que não compreende toda a maestria de quem um dia fez Cidade de Deus (2002), porém não é tão ruim se o encaixarmos no novo horizonte que nosso Cinema chegou e que está de portas abertas para mais produções que envolvam sobretudo a distopia.
Trailer:
.png)



Comentários