A Colecionadora: Mundos Paralelos aborda o terror que se manifesta através de nossas próprias ações
Entre o luto, a culpa e os fantasmas do passado, A Colecionadora: Mundos Paralelos constrói uma atmosfera inquietante, mas se perde ao tentar explorar tantas histórias em tão pouco tempo.

Para quem sempre curtiu cinema e consegue ser engajado com vários gêneros e temáticas, sempre existe aquele pensamento que muitos roteiros talvez ficassem mais aconchegantes num formato série. Explorar melhor os personagens, abrir mais espaços para núcleos narrativos e não ter pressa de oferecer cada detalhe da história.
Essa reflexão certamente pode ser encaixada em A Colecionadora: Mundos Paralelos (La Coleccionista, 2025), filme do diretor espanhol Manuel Sanabria. Em 95 minutos o diretor deseja trazer várias abordagens e temáticas, embora acabe se enrolando num filme que termina apressado demais (onde e quando) não deveria ser.
Numa pequena cidade, uma vendedora de antiguidades presenteia duas pessoas (que não se conhecem e são distintas entre si). Manuela (Maggie Civantos), uma mãe que ainda vive o luto do filho perdido, recebe um espelho. Por outro lado, Gaby (Canco Rodríguez) é um viciado em drogas que é presenteado com um diário. Os dois objetos irão mudar a vida dessas pessoas de uma forma estranha e dolorosa.
Embora os aspectos cinematográficos sejam simples, a atmosfera que ronda os primeiros minutos absorve o espectador. A cidade isolada, uma loja de antiguidades estranha cuja dona é mais estranha ainda, ruas escuras, moradores que preferem não conversar com outros e a própria moradia de Gaby que se consiste num pequeno trailer em lugar ermo e próximo a um cemitério.
Interessante os objetos usados aqui e que serão compreendidos conforme o filme avança. Eles funcionam como canalizadores de vários sentimentos presentes ao longo da narrativa: a memória que costuma nos assombrar por atos do passado, remorso, culpa, vergonha, até mesmo o vício que é nos consome.
Logo, são praticamente duas histórias paralelas acontecendo ao mesmo tempo na cidade: a de Manuela e a de Gaby. Entretanto é a de Gaby que acaba assustando e convencendo mais, sobretudo quando o espectador assume o mesmo olhar do viciado em drogas que agora vê através da persiana de seu trailer uma família estranha que passa a morar do seu lado e que vai alterar sua rotina.
Sanabria vai bem até este ponto, mas se perde conforme incorpora mais elementos e detalhes em sua narrativa, muitos dos quais necessários para aumentar a tensão e a compreensão do filme. No caso de Gaby, é como se fosse uma espécie de loop temporal que se distorce gradativamente quando ele está sob o efeito da droga.

Problema é que a sucessão de eventos que acontece com o viciado em drogas torna-se confusa e apressada, mesmo sendo essa a parte do filme que é mais brutal e onde o personagem mais sofre as consequências diante do objeto que recebeu como presente.
A parte dramática acaba ficando com Manuela. A sua história conectada ao espelho nos coloca diante da questão da maternidade: até onde você iria para reaver seu filho ou então para ficar novamente com ele? Pena que a história da personagem precisaria de um retoque maior para ser ainda mais intrigante e com um fechamento mais requintado.
Apesar de ser um filme de baixo orçamento, Sanabria sabe trabalhar com alguns elementos do terror, mesmo clichês. Sons e ruídos que incomodam os personagens, objetos que expressam o medo tais como animais empalhados, a escuridão, lugares apertados, até mesmo a comida oferecida por alguém que pode trazer aquele ingrediente inesperado e indigesto.
Faltou um trabalho com flashbacks, até porque aqui a intenção é destacar as ações do dos personagens no passado. Também faltou rebuscar alguns trechos bem decisivos (e até que ele conseguiu isso na cena que envolve o jogo de cartas).
Conforme dito no início da resenha, quem sabe o diretor não seria mais feliz se explorasse essa trama num formato série? Mesmo que num pequeno formato de 4 a 5 episódios, certamente seria muito mais assustadora e coesa, além de trabalhar melhor com seus personagens, sua metáforas e simbologias.
A Colecionadora: Mundos Paralelos é interessante ao trazer o terror que assusta carregando metáforas e simbologias que representam sentimentos típicos do homem, mas para quem deseja um filme que inove o gênero, ele ainda está um pouco distante. Bem provável que daqui uns anos, ele até se transforme num Cult Movie. Não seria tão injusto.
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