top of page

Tim Maia cantando com Os Mutantes muda tudo ou só expõe o Brasil que a gente finge não ouvir?

Uma descoberta que chega com aquele gostinho de curiosidade de arquivos

Os Mutantes
Foto: Wikimedia - Arquivo Nacional

Nem toda descoberta musical serve para alimentar nostalgia ou completar discografia. E você, leitor e ouvinte de boa música, deve concordar comigo, né? Gosto de pensar que algumas, na verdade, surgem para bagunçar tudo aquilo a que a gente está acostumado quando se trata de música e cultura pop. Dito isso, vamos logo para o que interessa de fato neste texto.



A gravação inédita que reúne Tim Maia e Os Mutantes, feita em 1971 e nunca lançada, pertence claramente a essa característica levantada aqui. Ela não chega como celebração. Chega como incômodo.


“Quero Mais Dinheiro” é uma paródia direta de “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, um dos maiores sucessos de Tim. Só que, no lugar do romantismo fácil que virou mantra nacional, o que se ouve é a repetição quase obsessiva da frase “quero mais dinheiro”. Não soa como piada boba. Soa como ironia afiada, dessas que envelhecem melhor do que deveriam. Ou pior.


A gravação foi encontrada nos arquivos da antiga PolyGram, hoje sob a guarda da Universal, pelo pesquisador Marcelo Fróes. Vozes de Rita Lee e Arnaldo Baptista, letra assinada pelo próprio Tim junto à banda, tudo registrado durante as sessões do álbum Jardim Elétrico. Um detalhe quase irônico completa o quadro: a música foi aprovada pela censura federal em fevereiro de 1971, meses antes do lançamento oficial da canção original de Tim.


Eu leio isso menos como brincadeira de estúdio e mais como sintoma. Os Mutantes sempre tiveram essa habilidade rara de rir enquanto cortavam fundo. Tim Maia, por sua vez, nunca foi exatamente o personagem dócil que a memória afetiva insiste em preservar. Juntos, eles expõem uma contradição que a música brasileira costuma varrer para debaixo do tapete: o amor é lindo, mas o dinheiro organiza o mundo.


Talvez por isso a faixa tenha ficado engavetada. Questões jurídicas, autorizações, processos envolvendo a gravadora, tudo isso pesa. Mas pesa também o desconforto simbólico de lançar uma paródia dessas antes mesmo da música original se tornar um sucesso popular. Seria quase um curto-circuito na imagem que começava a se formar em torno de Tim Maia naquele momento.


Hoje, Sérgio Dias chama a gravação de um “diamante” e defende seu lançamento. A jornalista Chris Fuscaldo também vê valor no resgate. O material existe, está preservado e depende apenas de autorizações formais. Tecnicamente, é simples. Culturalmente, nem tanto.



A questão não é se a música pode sair. É se a gente sabe ouvir. Porque, se “Quero Mais Dinheiro” tivesse sido lançada em 1971, talvez tivesse ajudado a desmontar mais cedo a ideia de que a MPB nasceu para consolar. Às vezes, ela só aponta o dedo, ri e deixa a ferida aberta. E talvez seja exatamente por isso que essa gravação ainda incomoda tanto.




bottom of page