Nada em Yankee Hotel Foxtrot, do Wilco, foi feito para dar certo. Por isso, deu
- Marcello Almeida
- há 11 horas
- 3 min de leitura
Um álbum feito de ruídos, silêncios e fraturas internas que nunca pediu consenso — só permanência

Você já quis quebrar o coração de alguém? Yankee Hotel Foxtrot não é aquele tipo de disco que ficou melhor com o passar do tempo. Ele sempre foi desconfortável na medida certa. A diferença é que, hoje, a gente vive num mundo que soa exatamente como ele: ruído, interrupção, ansiedade, baixa frequência. Silêncios estranhos entre uma coisa e outra. Ou entre pessoas.
Desde a primeira vez que escutei essa coisa bela do Wilco, pra mim ficou muito claro que eu não estava diante de canções que tentam te ganhar (mas acabam ganhando mesmo assim). Esse disco possui um comportamento diferente; ele se impõe. Eu nunca ouvi Yankee Hotel Foxtrot como uma obra-prima no sentido clássico da palavra.
Pra mim, ele funciona mais como uma espécie de organismo instável, sempre à beira do colapso, tentando se manter inteiro enquanto tudo em volta falha. E talvez seja justamente isso que o torne tão definitivo. É daquelas obras que te instigam, provocam curiosidade; você termina uma faixa e não sabe o que vem a seguir.
O Wilco, liderado pelo carismático Jeff Tweedy, vinha de um passado amplamente confortável no alt-country. Yankee Hotel Foxtrot surge como um rompimento quase agressivo com essa identidade. Nada aqui soa seguro. As músicas parecem montadas com fita crepe emocional. Sons entram e saem como pensamentos intrusivos. Melodias bonitas são interrompidas por ruídos, cliques, distorções que não pedem licença.
Há um conflito dentro desse disco, e ele não é só musical. A tensão entre Tweedy e Jay Bennett não é lenda de bastidor. Ela está impressa e registrada nas faixas. De um lado, o excesso, a colagem, a “pia cheia” de ideias. Do outro, a vontade de esvaziar tudo até sobrar só o osso. Esse atrito não foi resolvido. Ele foi gravado. E ainda bem.
Quando a gravadora rejeitou o álbum por “falta de singles”, ela não errou o diagnóstico. Só errou o julgamento. Yankee... realmente não quer ser um produto. Ele não oferece ganchos fáceis. Ele pede permanência. Pede que você fique ali, mesmo quando parece que nada está acontecendo. E a gente fica. E, quando termina, quer voltar.
O fato de o disco ter sido disponibilizado online pouco depois do 11 de setembro não o transforma automaticamente em um “álbum do trauma americano”. Isso é leitura preguiçosa. Mas é impossível ignorar como músicas como “Ashes of American Flags” ou “Jesus, etc.” respiram um mal-estar que ainda não tinha nome. Não é luto explícito. É confusão. É a sensação de que algo está errado, mas ninguém sabe exatamente onde.
Eu sempre achei “Ashes of American Flags” o coração defeituoso do disco. Não porque seja a mais bonita, mas porque é a mais desconcertante. Ela cresce, se abre, se desorganiza e termina sem oferecer catarse. A frase final não é um grito político. É um cansaço. Um gesto quase automático. Um aceno vazio. E o que dizer de “Jesus, Etc.”? Não sei. O conselho que deixo aqui é: pare tudo o que você está fazendo, coloque bons fones de ouvido e se permita entrar nesse mundo ao qual essa faixa te convida.
E isso envelhece bem. Assustadoramente bem.
Yankee Hotel Foxtrot virou referência, virou régua, virou manual para muita banda indie que veio depois. Nem sempre para o bem. Muita gente aprendeu a copiar a estética do disco, mas esqueceu da fratura interna que o sustenta. Sem conflito real, esse tipo de som vira decoração.
O Wilco não estava decorando nada. Estava tentando sobreviver criativamente. Depois de mais de vinte anos, o disco continua circulando não porque é confortável revisitá-lo, mas porque ele ainda não foi totalmente resolvido dentro da gente. Ele não fecha. Não explica. Não consola.
E talvez nunca tenha sido essa a verdadeira intenção. #nowplaing











