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Fred Smith nunca quis ser o centro, e talvez por isso tenha sido essencial

Enquanto alguns gritam para entrar na história, outros constroem o chão onde a história pisa

Fred Smith
Imagem: Corbis/VCG via Getty Images

Existe uma obsessão estranha no rock por quem ocupa o foco. O solo mais longo. A persona mais ruidosa. A pose mais fotogênica. Fred Smith nunca esteve interessado nisso. E talvez seja exatamente aí que mora o incômodo: sem ele, muita coisa que chamamos de “revolução” teria soado vazia.



Fred Smith morreu aos 77 anos, após enfrentar uma doença por alguns anos. A confirmação veio pela própria banda. A causa não foi divulgada. A notícia circulou rápido. Mas a morte, em si, é só o fato bruto. O que importa é o buraco que ela deixa.


Smith fazia parte daquele tipo raro de músico que não disputa espaço. Ele cria estrutura. Não chama atenção. Sustenta. Antes de entrar para o Television, passou pelo Angel and the Snake, embrião do Blondie, e saiu antes que o holofote chegasse. Em 1975, substituiu Richard Hell no Television. Uma troca que diz muito sobre escolhas estéticas e éticas.


Porque o Television não era sobre excesso. Nunca foi.


Em Marquee Moon e Adventure, Smith toca como quem entende o espaço entre as notas. Linhas econômicas, melódicas, quase invisíveis se você não estiver prestando atenção. Mas tente tirar o baixo dali. O edifício desmorona. Não é virtuosismo. É arquitetura. Eu leio assim: Fred Smith tocava baixo como quem respeita o silêncio do outro.

Depois da separação do Television, em 1978, seguiu orbitando o mesmo universo, colaborando com Tom Verlaine, Richard Lloyd e outros nomes da cena nova-iorquina que nunca coube direito nas prateleiras da indústria. Quando a banda voltou em 1992, para um disco homônimo e turnês esporádicas, ele estava lá. Sem alarde. Sem revanche nostálgica.

Há algo profundamente humano nisso.


Television
A banda de rock Television com Richard Lloyd, Tom Verlaine, Billy Ficca e Fred Smith. — Foto: Reprodução/Redes sociais

Jimmy Rip, parceiro de estrada por mais de quatro décadas, descreveu Smith como o tipo de pessoa que você quer por perto quando a turnê cansa. Não quando a plateia vibra. Quando o corpo pesa. Quando a estrada cobra. As últimas palavras entre eles foram “eu te amo”. Isso diz mais do que qualquer release bem escrito.



O Television tocou no Brasil em 2013, no Abril Pro Rock, em Olinda. Quem viu, viu um grupo que não parecia interessado em provar nada. Apenas tocar. Como sempre.


Talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar: Fred Smith não deixa um legado espetacular. Deixa algo mais raro. Um modo de existir na música sem atropelar ninguém. Sem gritar por reconhecimento. Sem confundir presença com ego. Num mundo que premia o excesso, isso soa quase subversivo. E talvez ainda incomode por isso.



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