Pete Docter explica por que Gatto quebra padrões visuais e narrativos da Pixar
- Marcello Almeida
- há 19 horas
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O estúdio olha para o futuro sem abandonar a alma

Em meio a um cenário cada vez mais saturado de animações, a Pixar decidiu correr riscos. E Gatto é a prova mais clara disso. Em entrevista concedida ao BAFTA, o diretor criativo da Pixar, Pete Docter, falou abertamente sobre como o novo filme se distancia da estética tradicional do estúdio e aposta em uma linguagem visual e emocional diferente.
“Gatto é muito empolgante por vários motivos”, explicou Docter. “Primeiro, é uma história ótima. Segundo, se passa em Veneza, que é como se fosse uma pintura viva. Então, tentamos trazer essa estética para o visual do filme. Não é tão fotorrealista como os nossos filmes costumam ser, historicamente.”
A fala deixa claro que Gatto não nasce apenas como mais uma produção da Pixar, mas como um experimento consciente. Ambientado em Veneza, o filme busca traduzir a cidade como obra de arte em movimento, com texturas, cores e traços menos realistas e mais pictóricos, algo pouco comum na história do estúdio.
Docter também comentou sobre o desafio maior que ronda a animação hoje: como surpreender um público que cresceu cercado por conteúdos audiovisuais o tempo todo.
“Sinto que estamos em um momento interessante da história da animação em que as pessoas cresceram com tanta coisa, que estão procurando por algo novo. Acho que esse é o desafio para todos nós, para o nosso time de diretores, encontrar essa novidade que surpreenderá as pessoas, mas também será reconhecível como parte da sua própria experiência humana.”
No centro da história está Nero, um gato preto carismático e sensível, apaixonado por música, mas constantemente rejeitado pelos moradores da cidade por causa das superstições ligadas à sua cor. Isolado, ele começa a se perguntar se está vivendo da maneira certa — um conflito simples, mas profundamente humano.
A trama ganha contornos mais sombrios quando Nero se vê endividado com um chefe da máfia felina local. É a partir desse impasse que surge uma amizade inesperada, capaz de apontar um novo propósito para o personagem. Tudo isso enquanto a Veneza menos turística, mais misteriosa e ambígua, parece observar cada passo, pronta para engolir quem se perde em seus próprios dilemas.
Um detalhe curioso é a ligação pessoal do projeto com seu diretor. A Itália é o país natal de Enrico Casarosa, que nasceu e cresceu em Gênova, no extremo oposto de Veneza. Ainda assim, a relação afetiva com o país transparece na construção do filme, que trata o cenário não como pano de fundo, mas como parte viva da narrativa.
Com Gatto, a Pixar sinaliza algo importante: mais do que buscar o próximo grande sucesso, o estúdio parece interessado em explorar novos caminhos estéticos e emocionais, mesmo que isso signifique se afastar da zona de conforto que ajudou a construir sua própria história.











