Nem punk, nem clássico: o lugar estranho de Marquee Moon, do Television
- Marcello Almeida
- há 19 horas
- 3 min de leitura
"There I stand' neath the Marquee Moon...just waiting"

Você já se deparou com discos que tentam definir ou explicar uma época? Pois é, tenho comigo a sensação de que o maravilhoso Marquee Moon, do Television, não explica nada e nem precisa, sabe. Não é esse o rótulo ou narrativa proposta por essas canções que atravessam o tempo e gerações inteiras. A sensação que eu tenho é de que o álbum apenas observa, como se estivesse ali parado, olhando, enquanto tudo ao redor se agita.
Vamos fazer um breve mergulho na linha do tempo e voltar para aquela Nova York dos anos 70, onde o punk ganhava forma nas paredes sujas do CBGB; o Television parecia levemente fora de lugar. Não porque fosse melhor, mas porque algo no comportamento da banda recusava a pressa. Enquanto o punk gritava e berrava urgência, suor e simplificação, o Television escolhia a demora, o detalhe, o desconforto. Era rock, mas não obediente, se é que me entendem?!
Isso incomodava. Pensar sempre foi um motivo de incomodou no rock.
No centro desse gesto estava Tom Verlaine, alguém que nunca pareceu interessado em ser simpático ou acessível. Suas letras nunca quiseram explicar sentimentos, nunca soaram como manual. A escrita de Verlaine estava mais para vestígios, inspirados por uma cidade nervosa, introspectiva, meio paranoica… Ele sempre falou desses fragmentos.
São letras que não possuem refrões para cantar enquanto você mantém os olhos fechados. Ah, sim, muito para se refletir e questionar, tipo aquela imagem que surge na cabeça quando você está diante de uma música que te instiga, que te faz encarar a vida, a realidade.

Ao lado dele, Richard Lloyd ajudou a criar algo raro: guitarras que não competem. Elas se atravessam, se evitam, se respondem, se entendem, sabe? Às vezes, parece que uma tenta fugir da outra. Não é virtuosismo exibido. É outra coisa. É tensão construída. É conversa, não discurso. E, claro, talvez na base disso tudo estivesse o preciso baixo do saudoso Fred Smith, dono de um talento raro. Fred nos deixou aos 77 anos. Ele fazia parte daquele tipo raro de músico que não disputava espaço. Ele criava estrutura. Não chamava atenção. Sustentava.
E então vem a faixa-título. E como definir aquilo em palavras? São onze minutos sem pressa, sem concessão, sem medo de entediar quem não está disposto a ficar. “Marquee Moon” ignora completamente o manual punk com aquela tranquilidade rara. A canção é hipnótica, repetitiva, quase obsessiva. Um crescendo que não explode, apenas se estica. Você não ouve essa música. Você entra nela. Quando percebe, já está preso.
Isso, para mim, é radical.
O resto do disco, pra mim, segue nessa lógica absurda, estranha de tão boa, rsrs. “See No Evil” e “Friction” têm energia, mas recusam a catarse fácil. Nada aqui soa óbvio. A produção é seca, não protege, não embeleza nada. Acho que a palavra exata seja expor. Essas canções expõem, transformam. Cada silêncio, cada pausa importa. Cada nota parece escolhida não para impressionar, mas para sustentar aquele clima hipnótico e atmosférico.
Curiosamente, Marquee Moon nunca soou como futuro nem como passado. Ele paira. Talvez por isso nunca tenha sido exatamente popular. Foi respeitado antes de ser amado. Influente antes de ser totalmente entendido. É por isso que hoje estamos aqui falando dele.
Sem o Television, é difícil imaginar o pós-punk da mesma forma. Não no som direto, mas na postura. Na ideia de que a guitarra pode sugerir, não dominar. Essa linha aparece depois em gente como Johnny Marr, e até no revival nova-iorquino dos anos 2000, com bandas como The Strokes. Não como cópia, mas como herança de atitude.
A discografia curta da banda reforça isso. Três álbuns, nenhum esforço real de adaptação, nenhuma tentativa clara de permanência. A banda nunca pareceu interessada em ficar. Só em dizer. Talvez por isso ainda funcione. Porque o que eles cantavam nunca foi sobre slogans, rebeldia performática ou juventude eterna.
Isso aqui está mais para aquele momento raro em que uma música te obriga a sentir, discordar, pensar e ouvir com mais atenção. Marquee Moon não é um disco de consumo rápido; é um álbum para ser ouvido na íntegra. Você precisa se desligar do mundo externo e viajar apenas no mundo do disco.
Porque o Television nunca foi sobre slogans, rebeldia performática ou juventude eterna. Foi sobre aquele momento raro em que uma música te obriga a ouvir melhor. A prestar atenção. A sair um pouco desconfortável.
E isso, no rock, é uma forma muito específica de durar.











