Sussurros é um terror psicológico capaz de criar algumas boas ideias em meio a uma execução regular
- Eduardo Salvalaio

- há 2 dias
- 2 min de leitura
Um terror psicológico que transforma o desconhecido em inquietação constante, mas tropeça ao revelar seus segredos

Talvez o mais interessante dentro de um filme de terror seja não apresentar logo sua intenção ao espectador. Mesmo que tudo ocorra de forma lenta e misteriosa, elementos como personagens, cenário, fotografia e a trama precisam passar por um processo convincente e provocativo. Por isso que, muitas vezes, é preciso até ter cuidado em descrever a sinopse de um filme para não entregar detalhes preciosos que a trama nos reserva.
Sussurros (El Susurro, 2025) do diretor Gustavo Hernández Ibáñez praticamente consegue essa façanha. Ao menos na primeira metade do filme. O filme que teve produção argentina e uruguaia traz dois personagens que vivem mudando constantemente de casa e que escondem segredos obscuros.
A jovem Lucia (Ana Clara Guanco Aguilera) e seu irmão Adrian (Marcelo Michinaux) vivem em harmonia mesmo com uma vida de frequentes mudanças. O pai, um tanto quanto ausente, chega em casa e pede para ser acorrentado. Mesmo que Adrian não fale, existe uma cumplicidade entre ele e sua irmã. O diálogo entre ambos, mesmo por sinais, funciona de forma perfeita e os faz sobreviver através das mudanças.
A atmosfera sombria e envolvente começa a ser construída através de imagens, olhares e uma constante sensação de tensão. Mesmo sem algo grandioso acontecendo na tela, a insegurança deles é vista a todo o momento, inclusive pelos temores de Lucia de que eles nunca estão seguros.
Sem apelar para subtramas, o diretor faz uso de bons recursos para criar uma sensação de desconforto, incluindo desde uma jovem que é raptada após andar pela floresta próxima da casa até uma microcâmera colocada em um gato que revela um vídeo assustador e capaz de mudar a perspectiva da narrativa.
Entretanto, é preciso entender que Ibáñez pretende trabalhar mais seu filme sob um aspecto de terror psicológico do que pelo terror com mortes a todo instante e que chega carregado de muito sangue, visceralidade e gore. Algumas mortes, por exemplo, sequer são mostradas em tela.

A escuridão e o isolamento também são os artifícios preferidos do diretor, sobretudo quando as cenas se concentram no interior da casa. O design visual e sonoro acentua a claustrofobia dos espaços apertados (como a cena do carro), dessa forma acentuando os horrores dos quais os irmãos precisam fugir.
Problema de Sussurros é quando o espectador passa a entender o que realmente persegue a família. Da mesma forma, quando percebe que o mal chega através de uma realidade tão próxima de nós, mundana e nem tanto sobrenatural. Não que isso seja ruim, mas é aonde a trama apresenta falhas em sua execução.
As cenas nos minutos finais ainda são chocantes e tensas, ganhando até um aspecto de found footage (e trazem uma sensação desconfortável de realidade), embora o conceito promissor se perca e um final apoteótico tão aguardado acabe virando uma narrativa confusa, caótica e com pressa em encontrar uma solução.

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