O futuro imaginado por Akira ainda mora entre nós
- Marcello Almeida
- há 10 horas
- 5 min de leitura
Quase quarenta anos depois, Akira continua parecendo menos uma obra do passado e mais uma pergunta sobre o nosso futuro

Aproveitando o embalo da volta de Akira aos cinemas, com uma repaginação toda em 4K, fiquei pensando em como certos filmes, obras, vão envelhecendo e ganhando o tempo para si mesmos, e acabam ficando preservados como se fossem relíquias de uma época. Porém, quando falamos de Akira, ele parece desafiar todas as condições do tempo.
Lançado em 88, o clássico de Katsuhiro Otomo continua produzindo uma sensação estranha em quem o assiste pela primeira vez: a impressão de estar diante de uma obra que não pertence realmente ao passado, mas a algum futuro que ainda insiste em nos alcançar.
O retorno de Akira aos cinemas brasileiros oferece uma oportunidade rara de reencontrar uma das obras mais importantes da história da animação em seu ambiente natural: a tela grande. Isso é mais do que uma simples exibição comemorativa. A volta do anime permite observar como poucas produções foram capazes de atravessar tantas décadas sem perder sua capacidade de provocar, inquietar e dialogar com as angústias de diferentes gerações.
Ambientado em Neo-Tóquio, uma metrópole reconstruída após uma devastadora explosão que mudou para sempre o destino do Japão, Akira apresenta um mundo em constante estado de tensão. As ruas, aqui, são tomadas por protestos, a violência se espalha pelos bairros, a corrupção corrói todas as estruturas políticas e a população parece viver sob a sensação permanente de que algo está prestes a desmoronar.
Algo te parece familiar?
Embora a narrativa do filme esteja ambientada em um futuro fictício, a cidade imaginada por Otomo continua assustadoramente reconhecível. Neo-Tóquio não é apenas um cenário futurista. É o retrato de uma sociedade incapaz de superar os próprios traumas.
No centro dessa paisagem caótica estão Kaneda e Tetsuo, dois jovens que carregam uma amizade marcada por afeto, ressentimento e desequilíbrio. Enquanto Kaneda exibe uma confiança quase natural, Tetsuo cresce à sombra do amigo, acumulando inseguranças que se transformam em algo muito mais perigoso quando ele entra em contato com forças que ultrapassam a compreensão humana.

O que torna essa relação tão poderosa, ao meu ver, não é a dimensão épica do conflito, mas sua natureza, que atinge camadas profundamente humanas. Por trás das explosões, das perseguições e das manifestações de poder sobrenatural, existe uma história sobre abandono, sobre pertencimento e sobre aquela necessidade desesperada de ser visto, de fazer parte de algo.
Talvez seja por isso que Akira continue encontrando novos fãs até hoje. O filme compreende que os maiores desastres não surgem apenas da tecnologia ou das armas. Eles também nascem de feridas emocionais que são ignoradas, de instituições incapazes de enxergar os indivíduos que deveriam proteger e de uma sociedade que frequentemente abandona seus jovens à própria sorte.
A tragédia de Tetsuo não começa quando ele adquire seus poderes. Ela começa muito antes, em anos de isolamento, frustração e silêncio. Olhando a obra por esse ponto de vista, Akira se torna algo muito mais amplo do que uma simples ficção científica. Ao longo de toda a sua narrativa, o anime fala sobre a relação entre humanidade e progresso, questionando até que ponto somos capazes de controlar aquilo que nós mesmos criamos.
O medo nuclear que permeia toda a obra reflete diretamente os traumas históricos do Japão, mas sua reflexão ultrapassa fronteiras.
Em uma época marcada pelo avanço acelerado da tecnologia, pela inteligência artificial, pela hiperconectividade e pela crescente sensação de alienação social, as perguntas levantadas por Otomo permanecem surpreendentemente atuais. Esse talvez seja o grande triunfo de Akira.
Existe também uma outra dimensão artística que ajuda a explicar por que Akira continua tão impressionante quase quarenta anos após seu lançamento. Muito antes de o anime conquistar o reconhecimento de obra cult, a produção já demonstrava uma ambição raramente vista na animação.

Otomo e sua equipe buscaram um nível de detalhamento que parecia impossível para a época. Os cenários são densos, vivos e repletos de pequenas informações visuais. As luzes de Neo-Tóquio refletem nos prédios e nas ruas molhadas com uma riqueza impressionante. Os movimentos dos personagens possuem uma fluidez incomum, enquanto a direção transforma cada perseguição e cada sequência de ação em momentos genuinamente cinematográficos.
O aspecto revolucionário de Akira, porém, não está apenas nos números que cercam sua produção ou na quantidade extraordinária de desenhos utilizados para dar vida ao filme. Sua verdadeira inovação está na forma como a técnica serve à narrativa. Cada detalhe existe para tornar aquele universo mais palpável, mais sufocante e mais real.
Neo-Tóquio não parece uma cidade que foi desenhada. Parece uma cidade habitada. É possível sentir o peso de cada estrutura, o brilho artificial dos letreiros, o ruído constante da metrópole e a tensão que paira sobre cada um de seus habitantes.
A trilha sonora composta por Shoji Yamashiro amplia ainda mais essa sensação. Ao combinar elementos da música japonesa com experimentações sonoras futuristas, o compositor cria uma identidade única que reforça o conflito e todo o contexto central da obra: a coexistência entre passado e futuro, memória e transformação, destruição e renascimento. Poucos filmes conseguem construir uma atmosfera tão particular e reconhecível.

O impacto de Akira sobre a cultura pop também permanece difícil de mensurar em sua totalidade. Sua influência pode ser encontrada em incontáveis filmes, séries, quadrinhos, videogames e obras de animação produzidas nas décadas seguintes. Mais importante do que isso, o filme ajudou a transformar a percepção internacional sobre o potencial artístico da animação japonesa.
Em um período no qual muitos ainda associavam animação exclusivamente ao entretenimento infantil, A obra de Katsuhiro demonstrou que desenhos também podiam abordar política, filosofia, trauma coletivo, identidade e questões existenciais com profundidade e complexidade.
Ainda assim, reduzir sua importância ao pioneirismo técnico ou à influência cultural seria insuficiente. O que mantém Akira vivo não é apenas aquilo que ele mudou na indústria, mas aquilo que continua despertando em seus espectadores. Além de tudo isso que já foi apontado, existe uma leitura um tanto rara sobre as fragilidades que nos acompanham, independentemente da época em que vivemos.
Eu lembro da primeira vez que tive contato com Akira através de uma fita VHS. Era moleque ainda e, mesmo sem compreender totalmente tudo o que estava acontecendo na tela, havia algo hipnotizante naquela experiência. As luzes da cidade, a moto de Kaneda, a transformação de Tetsuo e aquela sensação constante de que o mundo estava prestes a acabar ficaram comigo muito depois dos créditos finais.
Com o passar dos anos, percebi que Akira era um daqueles filmes raros que crescem junto com quem os assiste. Cada revisita revelava uma camada nova, uma inquietação diferente, uma pergunta que havia passado despercebida da vez anterior.
Talvez porque o olhar clínico de Otomo observa uma humanidade fascinada pelo progresso e, ao mesmo tempo, aterrorizada pelas consequências desse avanço. Observa pessoas tentando encontrar sentido em meio ao caos. Observa jovens herdando problemas que não criaram e tentando sobreviver em um mundo construído pelos erros das gerações anteriores.
E vai ver seja por isso que Akira continue parecendo tão contemporâneo. Seu futuro nunca foi uma previsão literal. Era um alerta, uma reflexão e, acima de tudo, uma pergunta. Quase quatro décadas depois de sua estreia, essa pergunta permanece sem resposta: o que acontece quando o poder avança mais rápido do que nossa capacidade de compreendê-lo?
A permanência de Akira na cultura pop talvez exista justamente porque o filme nunca tentou responder completamente essa questão. Em vez disso, escolheu algo muito mais difícil e duradouro: continuar nos fazendo pensar sobre ela.

Akira
Ano: 1988
Gênero: Ação, Animação, Ficção Científica
Direção: Katsuhiro Otomo
Roteiro: Katsuhiro Otomo, Izô Hashimoto
Elenco: Mitsuo Iwata, Nozumo Sasaki, Mami Koyama
País: Japão
Duração: 124 min
⭐⭐⭐⭐⭐
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