O Mundo Vai Tremer: quando ainda precisamos de filmes que nos chocam com os horrores de guerra
- Eduardo Tadeu Ferrari Salvalaio
- 24 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de abr.
Focado nos primeiros anos da Guerra, o filme mostra um nazismo assumindo um caráter cada vez mais sombrio, mortal e sem escrúpulos

Alguns cinéfilos já questionaram se ainda precisamos de filmes que retratam a Segunda Guerra Mundial. Pelo tanto de conflitos que o mundo passa e pela sensação de que sempre estamos na iminência de uma próxima guerra mundial, nunca é demais que o cinema cutuque a consciência humana sobre os horrores de uma guerra.
Sejamos sinceros que o evento da Segunda Guerra é tão abrangente e contundente que muitas outras visões e perspectivas podem (e devem) ser compreendidas dali. Exemplo é o filme A Queda! As Últimas Horas de Hitler (2004) onde presenciamos as consequências da guerra para os alemães quando Hitler e o nazismo começam a perder forças.
O Mundo Vai Tremer (The World Will Tremble, 2025), dirigido por Lior Geller, retrata a história de um grupo de judeus que planeja fugir de um campo de prisioneiros na Polônia ocupada. O filme é baseado em fatos reais e o objetivo maior é retratar os fatos que culminaram no primeiro relato de uma testemunha sobre os assassinatos em massa dos judeus pelos nazistas.
Sem apelar para violência extrema e efeitos, Geller consegue chocar quando mostra a própria dignidade humana se esvaindo. Cenas que ficam eternizadas após o término da narrativa: o prisioneiro que perde seu sapato na lama e nem pode calçá-lo novamente, o pai que enterra sua própria família numa vala rasa e que pede ao comandante nazista para ser morto e poder ser enterrado junto.
Focado nos primeiros anos da Guerra, o filme mostra um nazismo assumindo um caráter cada vez mais sombrio, mortal e sem escrúpulos. Um tempo onde os judeus são mortos em carrocerias fechadas de caminhões inalando a própria fumaça do escapamento do veículo. Um prelúdio cruel da câmara de gás que viria em seguida e que mataria muitos mais prisioneiros.
Fugindo de um estereótipo de bravura e heroísmo, os personagens do filme tal qual Solomon Wiener (Oliver Jackson Cohen) e Michael Podchlebnik (Jeremy Neumark Jones) trazem o humano ao extremo, o carne e osso vulnerável, o prisioneiro que sente por seu povo e que vê numa fuga a esperança de contar ao mundo as atrocidades que eles presenciaram (e que até precisaram participar).

Embora não exagere nas cenas de ação e seja um filme que não tem pressa de contar sua história, o diretor consegue impor momentos impactantes mesmo numa narrativa que preza pelo Drama Histórico. Apesar disso, mesmo sem coreografias cinematográficas, até mesmo uma cena que foca numa corrida desenfreada pela mata em busca da liberdade pode trazer a tensão necessária para a narrativa.
Em meio a soldados fortemente armados, torturas e humilhações, os prisioneiros possuem seu poder: o de revelar ao mundo os horrores que uma guerra começava a apresentar. Embora abatido, o grupo encontra até mesmo num simples lápis uma ferramenta e tanto para dar voz a essa verdade, isso em duas cenas fantásticas do filme (não citadas aqui para não entregar SPOILERS).
A eficiente fotografia de Ivan Vatsov privilegia tons cinzentos e esmaecidos, realçando a frieza e a ambientação nefasta de muitas cenas. A trila sonora de Erez Koskas, premiado compositor de filmes e séries de TV, também merece destaque.
Nos minutos finais, um dos personagens tenta escrever seu relato com as mãos trêmulas. Tal cena fica repercutindo em nossas mentes. A dificuldade em se tornar firme diante de todas as atrocidades compartilhadas. Assim são os filmes de guerra. E sim, eles nunca devem acabar e precisam sempre incomodar o espectador, quer muita gente goste ou não.

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