O disco de estreia do Gorillaz não marcou só uma geração, ele ensinou a ouvir
- Marcello Almeida
- há 19 horas
- 3 min de leitura
Do caos da MTV ao impacto cultural global, projeto de Damon Albarn e Jamie Hewlett mudou a forma como ouvimos, e descobrimos, música

Muita coisa mudou desde que o Gorillaz apareceu pela primeira vez no início dos anos 2000. O que começou como um projeto paralelo de Damon Albarn e do cartunista Jamie Hewlett rapidamente deixou de ser curiosidade para se tornar um dos nomes mais relevantes do pop britânico no século XXI. Foram milhões de discos vendidos, colaborações improváveis e uma capacidade rara de atravessar gerações sem perder identidade.
Hoje, o grupo já está em uma nova fase, explorando conceitos mais amplos, misturando música, animação e narrativas cada vez mais ambiciosas. Mas, no fundo, a ideia central continua a mesma: usar o pop como porta de entrada para algo maior. Uma espécie de educação alternativa, disfarçada de entretenimento.
E isso começa lá atrás

No fim dos anos 90, Albarn e Hewlett dividiam um apartamento em Londres e observavam o que passava na MTV. O cenário era dominado por boy bands, fórmulas repetidas, uma sensação geral de artificialidade. Em vez de rejeitar isso, eles decidiram inverter a lógica: criar uma banda artificial, mas que fosse interessante de verdade. Assim nasce o Gorillaz.
Com a experiência de Albarn no Blur e o universo visual já consolidado de Hewlett, o projeto ganhou forma rapidamente. Mas o que realmente diferenciava o grupo não era só o fato de ser uma banda virtual. Era a liberdade criativa. Sem precisar responder às expectativas de uma banda “real”, Albarn mergulhou em tudo que sempre quis explorar: hip-hop, dub, eletrônica, world music.
O primeiro passo veio com Tomorrow Comes Today (2000), uma introdução discreta, mas suficiente para apresentar 2-D, Murdoc, Noodle e Russel ao mundo. Ainda assim, foi com “Clint Eastwood” que tudo mudou.
A faixa, com sua batida construída a partir de um preset de Omnichord e o rap fantasmagórico de Del the Funky Homosapien, soava diferente de tudo que dominava o rádio naquele momento. Era pop, mas não obedecia às regras. Era acessível, mas carregava camadas.
E quando o álbum de estreia chegou em 2001, ficou claro que havia algo maior ali. O contexto ajudava. O pop vivia um momento estranho: o Britpop já não tinha o mesmo fôlego, o rap começava a se diluir em fórmulas comerciais, e o rock pesado mergulhava em excessos pouco inspirados. Nesse cenário, o disco do Gorillaz apareceu como um corpo estranho, e, justamente por isso, necessário.
Sem que muita gente percebesse, o álbum colocava lado a lado referências completamente diferentes. Tinha o peso de “M1 A1”, a melancolia trip-hop de “Tomorrow Comes Today”, o clima latino de “Latin Simone”, os grooves minimalistas de “Double Bass”. E, no meio disso tudo, participações de nomes como Dan the Automator, Ibrahim Ferrer, Miho Hatori e Tina Weymouth.
Para muita gente, especialmente os mais jovens, aquilo era o primeiro contato com um universo musical muito mais amplo do que o que tocava no mainstream. Mas havia outro fator decisivo: o visual.
Os personagens animados criados por Hewlett não eram apenas um detalhe estético. Eles eram parte da experiência. 2-D, Murdoc, Noodle e Russel não só apareciam nos clipes, como habitavam um universo próprio, com histórias, ambientes e até interações escondidas em conteúdos extras. Para quem viveu aquilo na época, havia um fascínio real em tentar entender quem, ou o que, era tudo aquilo.
E talvez esse seja o grande ponto. O Gorillaz nunca foi só música. Sempre foi um portal. Ao longo dos anos, o projeto cresceu, ficou mais político, mais conceitual, mais ambicioso. Mas é no disco de estreia que essa proposta aparece de forma mais pura. Ali está a essência: usar o pop como isca e, aos poucos, apresentar algo mais complexo, mais diverso, mais interessante.
Vinte e cinco anos depois, isso continua fazendo sentido. Porque, em um mundo saturado de informação rápida e consumo superficial, a ideia de provocar curiosidade ainda é poderosa. E poucos projetos fizeram isso tão bem quanto o Gorillaz.
No fim, não era sobre criar uma banda, era sobre abrir portas.






