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“The Mountain”: o Gorillaz sobe a montanha do luto e encontra luz

Um disco que encara a finitude sem perder o humor, nem a alma

Gorillaz
Imagem: Reprodução

Uma das coisas mais lindas nesse nono trabalho do Gorillaz é que The Mountain é carregado de sentimentos, talvez seja o álbum mais espiritual da banda liderada por Damon Albarn e Jamie Hewlett. Ele é daqueles discos que já te atravessam com divindade da faixa-título; aquele instrumental funciona como um abraço na alma para quem já teve que dizer adeus a alguém querido.



Estamos diante de um disco que não quer aquele retorno triunfal às pistas de dança; ele também não quer ser um mero exercício de estilos e gêneros. Esse álbum é bonito, honesto e humano; ele nasce da perda e não foge dela. Isso fica bem claro quando Albarn canta em "Orange County" que uma das coisas mais difíceis de se dizer é aquele adeus a alguém que você ama, e isso não é uma simples encenação do luto, da dor, da saudade. Ele está tentando entender o que sobra da gente quando algumas pessoas vão embora.


Se você ouviu o disco anterior, o Cracker Island, um trabalho que flertava com aquela coisa do delírio pop e críticas sociais ácidas, pois é, a atmosfera aqui ganha novos ares: uma jornada de auto descoberta. O Gorillaz sobe a montanha, literalmente e simbolicamente.


A viagem à Índia, feita por Damon Albarn e Jamie Hewlett logo após a morte de seus pais, não é um mero pano de fundo, nem algo exótico. Isso é uma jornada espiritual. A cultura que encara a morte como passagem, não como tabu, contamina o disco inteiro. O que ouvimos aqui é uma banda tentando reaprender a lidar com o fim.


Como mencionei no começo deste texto, a faixa-título abre o disco como se fosse um portal. A música é tomada por paisagens indianas, texturas que acolhem; ela respira com você. O ouvinte percebe aquele senso de amplitude, algo que lembra a ambição de Plastic Beach, mas sem se deixar ser tomado por toda aquela ironia distópica. O mundo aqui não está caindo ou afundando. Ele é revestido de silêncio.


As canções conversam uma com a outra e conversam com quem tá ouvindo. "The Moon Cave" mesmo é levada por aquele funk leve, quase como quem diz que a vida continua, a gente precisa seguir; essa canção entende isso muito bem. Já "The Happy Dictator", com a ilustre participação do Sparks, cutuca os tiranos com aquele humor ácido. E isso é genial e, ao mesmo tempo, curioso: como o álbum consegue falar de morte sem perder a sua capacidade de rir do poder. Talvez a morte seja o único poder real.



Quando Joe Talbot, do IDLES, chega em "The God Of Lying", o clima muda de tom; a atmosfera é quase banhada por um hip-hop minimalista. Isso me lembrou um pouco Clint Eastwood, mas a pergunta aqui é existencial. Você realmente é feliz onde está? Você tem visto os noticiários? Não é sobre política. É sobre cansaço. Sobre o quanto a gente vai se perdendo tentando sobreviver.


The Mountain ainda conta com as guitarras celestiais de Johnny Marr em "The Plastic Guru", "Casablanca", que também traz a presença de Paul Simonon, e "The Sweet Prince", mas o que impressiona mesmo no disco não é a lista de convidados especiais, e sim a coesão. Nada aqui soa como feat de planilha.


E então vem o ponto mais delicado: os mortos cantam.


Tony Allen surge em “The Hardest Thing” como um mantra que empurra espíritos para o próximo plano. Mark E. Smith aparece em “Delirium” como se nunca tivesse saído. Proof, assassinado em 2006, ressurge com versos gravados décadas atrás. E, em “Voices From Elsewhere”, as presenças de Dennis Hopper, Bobby Womack e Dave Jolicoeur transformam ausência em eco.


Não é exploração nostálgica. É quase liturgia. Como se o Gorillaz estivesse dizendo que a arte é a única forma real de eternidade. O que torna The Mountain tão forte é que ele não tenta consolar. Ele não oferece respostas fáceis. Ele aceita que o luto é desorganizado. Que o amor continua mesmo quando a matéria se desfaz. Que tudo o que a gente dá aos outros é o que fica.



Se Demon Days falava sobre escuridão coletiva e Plastic Beach sobre colapso ambiental e cultural, The Mountain fala sobre algo mais íntimo e, por isso mesmo, universal: a finitude. É um disco menos interessado em hit e mais interessado em legado. Menos preocupado em dominar as paradas e mais focado em escalar aquilo que dói.


No fim, quando Albarn canta que não é inimigo de ninguém e que os átomos se vão, mas o que você deu permanece, o álbum revela sua tese central. A morte não é o fim da conversa. É a mudança de tom. E talvez essa seja a obra mais humana que o Gorillaz já fez. Não porque soa grandiosa. Mas porque soa verdadeira.



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