Cartaz do Guns N’ Roses em Fortaleza gera revolta da Igreja
- Marcello Almeida
- há 16 horas
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Ilustração do show na capital cearense provoca crítica da Arquidiocese e retoma histórico de polêmicas visuais da banda

O Guns N' Roses sempre flertou com o desconforto. Está no som, na atitude, e, muitas vezes, na imagem. Mas, desta vez, a provocação visual da turnê brasileira acabou extrapolando o território da estética e caiu direto no campo da fé.
O pôster criado para o show em Fortaleza, realizado na Arena Castelão, trouxe uma releitura ousada: a Catedral Metropolitana de Fortaleza envolta por uma criatura vermelha, em clara referência ao imaginário clássico da banda, especialmente ao universo de Appetite for Destruction.
A reação veio rápida. Em comunicado publicado pela Arquidiocese, o padre Vanderlúcio Souza criticou duramente a imagem, conforme repercutido pelo portal Igor Miranda:
“Vi o cartaz no fim da tarde e fiquei impactado. A Catedral aparece cercada por um monstro apocalíptico e pequenas figuras demoníacas ao redor de um espaço que representa a casa de todos os católicos. É um uso indevido, com uma estética grotesca, muito alinhada a esse tipo de banda.”
A crítica não parou por aí. O religioso também mencionou Axl Rose em um comentário mais pessoal, sugerindo uma leitura simbólica da arte:
“Pesquisando um pouco sobre a vida do Axl, senti compaixão. Ele teve uma trajetória marcada por dor, abandono e conflitos. Fica a sensação de que, no fundo, ele também foi engolido por esse ‘monstro’. Talvez o que ele precise seja de acolhimento, de um abraço que cure essas feridas.”
A imagem foi assinada por Dafid Rizal, do estúdio Insect Decay, a convite da Collectionzz, responsável por desenvolver materiais exclusivos para cada parada da turnê.
Complementando a resposta, o padre também criou uma imagem através da IA, recriando o cartaz do show da banda, onde Axl é abraçado e acolhido por Jesus, com anjos voando ao redor da Igreja.

E, olhando para trás, não chega a ser surpresa. O Guns N’ Roses construiu parte de sua identidade justamente nesse território de atrito. A arte original de Appetite for Destruction, inspirada na obra de Robert Williams, já havia causado forte reação nos anos 80, ao ponto de ser substituída após pressão do Parents Music Resource Center, grupo que defendia a censura de conteúdos considerados ofensivos na música.
Na época, a solução foi trocar a imagem por outra, mais simbólica, menos explícita, com os crânios dos integrantes dispostos em forma de cruz. Uma decisão que, ironicamente, também se tornou icônica.
Agora, décadas depois, o episódio em Fortaleza mostra que esse tipo de tensão continua existindo. A linha entre provocação artística e ofensa simbólica segue sendo atravessada, e, muitas vezes, sem consenso sobre onde ela realmente está.
Enquanto isso, a turnê segue seu curso. Após passar por oito cidades, o Guns encerra a etapa brasileira neste sábado (25), em Belém, no Estádio Mangueirão. No fim, fica a sensação de que, mais uma vez, a banda conseguiu o que sempre soube fazer: provocar reação. Mesmo que ela venha de onde ninguém esperava.
Porque algumas imagens não pedem aprovação, elas pedem resposta.
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