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Noel Gallagher conheceu David Bowie bêbado demais para lembrar da conversa

Para alguém que tinha opinião sobre quase todo mundo, Noel guarda um curioso vazio sobre a noite em que encontrou um de seus maiores ídolos

Noel Gallagher
Imagem: Via Shutterstock


Noel Gallagher nunca teve muita dificuldade para lembrar o que pensava sobre outros músicos. Durante os anos mais incendiários do Oasis, suas entrevistas podiam ser quase tão imprevisíveis quanto os shows da banda. Phil Collins virou alvo, os Beach Boys não escaparam e uma quantidade considerável de artistas descobriu, em algum momento, que Noel tinha alguma coisa desagradável a dizer sobre eles.





David Bowie era diferente. Não porque Noel tivesse perdido subitamente a capacidade de provocar. Bowie simplesmente ocupava outro lugar em sua hierarquia musical, próximo daquele pequeno grupo de artistas diante dos quais até um Gallagher parecia disposto a guardar as armas.


O curioso é que, quando finalmente teve a oportunidade de conhecê-lo, Noel estava bêbado e drogado demais para lembrar o que os dois conversaram.


“Fui ver David Bowie e Morrissey na Wembley Arena nos anos 90. Estava drogado e bêbado”, recordou Gallagher. “Aí, antes do Bowie entrar no palco, alguém veio falar comigo e perguntou se eu gostaria de conhecer o David.”


Noel aceitou. A partir daí, sua memória praticamente desaparece.


“Me levaram para ver o David Bowie no camarim dele. Não me lembro de absolutamente nada. Lembro de entrar e ele estar se maquiando em frente ao espelho, e só isso.”


Para um homem que construiu parte de sua reputação dizendo exatamente o que pensava, é quase cômico que um dos encontros mais interessantes de sua vida tenha sobrevivido apenas como uma imagem: David Bowie diante de um espelho, preparando-se para entrar no palco.


O resto se perdeu naquela noite.




Havia poucos intocáveis no universo do Oasis


Para entender o peso daquele encontro, é preciso lembrar como Noel e Liam Gallagher falavam sobre a história do rock durante a ascensão do Oasis. A reverência nunca vinha automaticamente.


Os irmãos chegaram carregando a arrogância de quem acreditava que o rock britânico precisava recuperar alguma coisa que havia perdido. Essa postura produziu declarações memoráveis, brigas, exageros e uma coleção de desafetos que se tornou parte da própria mitologia da banda.


Mas existia um pequeno panteão particular. Os Beatles estavam acima de qualquer discussão. A obsessão de Noel pela banda de Liverpool atravessou composições, entrevistas e referências espalhadas pela carreira do Oasis. Sex Pistols, The Smiths e The Stone Roses também pertenciam à linhagem que ajudava a explicar de onde aqueles cinco músicos de Manchester estavam vindo.


Bowie poderia parecer uma presença menos óbvia nessa árvore genealógica. O Oasis buscava deliberadamente uma imagem direta: guitarras enormes, refrões gigantescos, parkas, atitude e pouquíssima disposição para intelectualizar o próprio rock. Bowie havia passado a carreira fazendo quase o contrário. Mudava de personagem, estética e linguagem, atravessava gêneros e parecia desconfiar de qualquer identidade que começasse a se tornar confortável demais.


Mesmo assim, Noel reconhecia nele algo que dificilmente poderia desprezar: grandeza.

“Para mim, ele está no mesmo nível que John Lennon”, afirmou Gallagher. Vindo dele, não era pouca coisa.


Bowie fez aquilo que Noel sempre admirou


Existe uma conexão interessante entre os dois que vai além da sonoridade. Noel Gallagher sempre demonstrou fascínio por artistas capazes de construir músicas enormes sem perder personalidade. Bowie fez isso repetidamente, mas acrescentou outro elemento: recusou-se a permanecer preso ao personagem que acabara de criar. Ziggy Stardust poderia ter se tornado uma carreira inteira.





Bowie matou Ziggy. Quando determinado som começava a defini-lo, procurava outro. Glam rock, soul, experimentação eletrônica, pop, art rock: sua trajetória foi construída sobre movimentos que frequentemente colocavam em risco aquilo que já havia conquistado. Essa inquietação estava muito distante da caricatura de Bowie como simplesmente um artista excêntrico. Era uma espécie de método.


E ela se tornaria especialmente interessante quando observada ao lado da trajetória posterior de Noel. Durante os anos 1990, o Oasis criou uma linguagem tão poderosa que acabou aprisionado dentro dela. Definitely Maybe e (What's the Story) Morning Glory? transformaram a banda em fenômeno mundial. O tamanho alcançado tornou qualquer tentativa de mudança uma negociação com as expectativas de milhões de pessoas.


Noel descobriria mais tarde, já longe do Oasis, que havia alguma liberdade em não precisar proteger aquela identidade o tempo inteiro.


Depois do Oasis, as fronteiras começaram a ceder


Noel Gallagher's High Flying Birds nasceu ainda reconhecivelmente ligado ao compositor de “Live Forever”, “Don't Look Back in Anger” e “The Masterplan”. Isso seria inevitável. A voz, a escrita melódica e determinadas progressões pertenciam a ele muito antes de qualquer projeto solo.


Mas aos poucos Noel começou a procurar outras possibilidades. Essa vontade ficou especialmente evidente em Who Built the Moon?, lançado em 2017 e produzido por David Holmes. Psicodelia, loops, texturas eletrônicas e arranjos menos presos ao velho modelo de guitarras do Oasis empurraram Gallagher para fora de uma zona conhecida. Não era Noel tentando se transformar em Bowie.


Seria uma leitura fácil demais. O ponto de contato estava na liberdade para se movimentar.

Bowie havia passado uma carreira inteira demonstrando que abandonar uma fórmula não significava necessariamente renegar aquilo que veio antes. Às vezes era justamente o que permitia continuar criando.


Para alguém que havia participado de uma das bandas mais definidoras do Britpop, essa talvez fosse uma lição especialmente valiosa.


Uma conversa perdida


Noel acabaria tendo outros contatos com Bowie e falou sobre ele com enorme respeito ao longo dos anos. Mas aquela primeira oportunidade permanece envolvida numa ironia difícil de superar. Um dos homens mais falantes do rock britânico encontrou um dos artistas que colocava no mesmo patamar de John Lennon. Entrou no camarim. Viu Bowie diante do espelho.


Conversou com ele. E não consegue lembrar de uma palavra. Talvez Noel tenha dito alguma coisa brilhante. Talvez tenha falado uma enorme bobagem. Talvez Bowie tenha dado algum conselho que desapareceu poucos minutos depois. Nenhum dos dois pode mais preencher esse espaço. Restou somente aquela imagem. David Bowie se maquiando diante do espelho enquanto Noel Gallagher, bêbado e drogado, assistia.


Para um músico que passou boa parte da vida tendo alguma coisa a dizer sobre todo mundo, talvez não exista história mais apropriada. Diante de Bowie, Noel ficou justamente sem palavras. Só não foi naquele momento. Foi quando tentou lembrar.




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