De “Vital e Sua Moto” a “Alagados”: os três anos que transformaram os Paralamas
- Marcello Almeida

- há 22 horas
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Três discos foram suficientes para uma banda encontrar sua identidade e decidir que ela ainda podia ser maior

Em 83, os Paralamas do Sucesso cantavam sobre Vital e sua moto. Três anos depois, Herbert Vianna olhava para Alagados, Trenchtown e a favela da Maré enquanto uma guitarra de rock dividia espaço com reggae, baixo pulsante, percussão e uma letra sobre desigualdade.
Entre uma música e outra existe uma distância muito maior do que três anos. Existe uma banda aprendendo quem era. Cinema Mudo, O Passo do Lui e Selvagem? formam uma sequência particularmente reveladora do rock brasileiro dos anos 1980 porque permitem acompanhar essa transformação praticamente em tempo real. O primeiro registra um grupo ainda organizando suas referências. O segundo encontra uma linguagem capaz de produzir sucessos em sequência. O terceiro faz justamente aquilo que uma banda recém-consagrada poderia evitar: coloca essa linguagem novamente em movimento.
Ouvir os três em ordem é acompanhar os Paralamas descobrindo que encontrar uma identidade não significava necessariamente permanecer dentro dela.
Quando tudo ainda estava sendo descoberto
Cinema Mudo chegou em 83 pela EMI-Odeon. Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone já formavam o trio que atravessaria as décadas seguintes, mas musicalmente os Paralamas ainda pareciam experimentar as possibilidades que tinham diante deles.
Rock, new wave, ska e reggae apareciam naquele primeiro álbum sem a integração que posteriormente se tornaria uma das marcas do grupo. Isso não significa que faltassem boas músicas. “Vital e Sua Moto”, homenagem bem-humorada a Vital Dias, primeiro baterista dos Paralamas, tornou-se o primeiro grande sucesso. O disco também trazia “Vovó Ondina é Gente Fina” e uma versão de “Química”, composição de Renato Russo.
Lulu Santos apareceu tocando slide guitar em “O Que Eu Não Disse”, outro pequeno retrato de uma geração que começava a ocupar espaço na música brasileira. Havia energia em Cinema Mudo, mas ainda não existia a segurança que apareceria pouco depois. O próprio Herbert Vianna seria crítico em relação ao resultado do álbum. É um disco interessante justamente porque permite ouvir uma banda antes de sua linguagem estar completamente formada.
E os Paralamas não demorariam para encontrá-la.
Um disco cheio de músicas que se recusaram a desaparecer
O Passo do Lui saiu no ano seguinte. A diferença é enorme. Produzido por Marcelo Sussekind, o segundo álbum apresenta uma banda muito mais consciente do próprio ritmo. O baixo de Bi Ribeiro e a bateria de João Barone deixam de funcionar apenas como sustentação para assumir papel decisivo na personalidade das músicas. Herbert encontra espaço para uma guitarra econômica, muitas vezes mais preocupada com ritmo e textura do que com demonstração técnica.
Rock, reggae e ska agora conversavam naturalmente. Mas existe outra coisa em O Passo do Lui: canções. Muitas delas. “Óculos”, “Meu Erro”, “Romance Ideal”, “Mensagem de Amor”, “Me Liga” e “Ska” estão no mesmo álbum. É quase uma pequena coletânea de sucessos disfarçada de segundo disco.
Os Paralamas haviam encontrado uma combinação difícil de reproduzir: músicas imediatamente acessíveis sem parecerem fabricadas para isso. Havia romantismo, humor, guitarras, influência jamaicana e refrões capazes de atravessar o rádio sem que a banda precisasse abandonar sua personalidade. O resultado colocou o trio entre os grandes nomes daquela geração. E então veio o Rock in Rio.
Quando os Paralamas perceberam o tamanho que tinham alcançado
Em janeiro de 1985, o primeiro Rock in Rio reuniu nomes gigantes da música internacional e colocou a geração brasileira que havia crescido nos clubes e rádios diante de uma escala inédita.
Os Paralamas fizeram duas apresentações no festival. Herbert Vianna também utilizou aquele palco para falar. Criticou as vaias direcionadas a artistas brasileiros e questionou a ausência de bandas paulistas na programação. Em meio à celebração do rock nacional, havia ali uma discussão sobre quem estava sendo incluído naquela história.
O festival ampliou ainda mais a projeção do grupo. Depois de O Passo do Lui e do Rock in Rio, os Paralamas estavam diante de uma situação que costuma ser perigosa para qualquer banda: haviam descoberto algo que funcionava. O caminho comercial mais previsível seria repetir. Mais canções românticas, mais refrões imediatos, mais variações de uma linguagem que já havia encontrado público.
Dois anos antes, os Paralamas estavam procurando uma identidade. Agora precisavam decidir o que fariam com ela. A resposta veio com um ponto de interrogação.
Selvagem?
A capa já causava desconforto. Um homem negro, sem camisa, com uma lata na cabeça. Era Pedro Ribeiro, irmão de Bi. A imagem parecia confrontar diretamente algumas ideias de civilização, marginalidade e identidade que atravessariam o disco. Gravado em 1986 e produzido por Liminha, Selvagem? não abandonou aquilo que os Paralamas haviam construído. Fez algo mais interessante: expandiu.
O reggae ganhou ainda mais espaço. Ritmos caribenhos, africanos e brasileiros começaram a atravessar uma música que já não parecia interessada em obedecer às fronteiras tradicionais do rock brasileiro. As letras também mudaram de perspectiva.
“Alagados” é provavelmente o exemplo definitivo dessa transformação. Salvador aparece ao lado de Trenchtown, bairro de Kingston associado à história do reggae, enquanto a favela da Maré entra nesse mesmo mapa de desigualdade. Herbert conecta lugares diferentes através de experiências semelhantes de pobreza, abandono e sobrevivência.
Era uma mudança enorme para uma banda que, poucos anos antes, havia conquistado o rádio cantando “Vital e Sua Moto”. A faixa-título carregava uma tensão política ainda mais evidente. “A Novidade”, parceria com Gilberto Gil, ampliava essa conversa enquanto transformava desigualdade em uma narrativa quase fantástica. “Melô do Marinheiro” mostrava que crítica e leveza podiam ocupar o mesmo disco. E a versão de “Você”, de Tim Maia, deixava claro que as referências dos Paralamas estavam se tornando grandes demais para permanecer restritas ao universo do rock.
Selvagem? vendeu centenas de milhares de cópias. A experiência mostrou algo importante: ampliar a música não significava necessariamente perder o público.
O rock brasileiro começava a olhar para fora do próprio quintal

Talvez seja aqui que essa sequência de três discos ganhe outra dimensão. Os Paralamas surgiram durante uma explosão de bandas brasileiras profundamente conectadas ao pós-punk, à new wave e ao rock produzido nos Estados Unidos e na Europa. Isso fazia parte daquela geração e seria absurdo negar sua importância. Mas os Paralamas começaram rapidamente a olhar em outras direções. Jamaica. Caribe. África. Brasil.
Posteriormente, essa abertura chegaria ainda mais longe, especialmente na relação do grupo com a música latino-americana. Selvagem? é um ponto decisivo porque registra o momento em que essas referências deixam de parecer simplesmente influências e começam a integrar uma linguagem própria.
Os Paralamas não precisavam escolher entre ser uma banda de rock e tocar reggae. Não precisavam escolher entre guitarra elétrica e música brasileira. Tampouco precisavam abandonar o formato pop para escrever sobre desigualdade social. Podiam colocar tudo dentro da mesma música. Essa liberdade ajudaria a definir o que a banda faria nas décadas seguintes.
Três anos
Voltar a esses discos hoje produz uma sensação curiosa porque a transformação aconteceu muito rápido. Cinema Mudo é de 1983. O Passo do Lui, de 1984. Selvagem?, de 1986. Em apenas três anos, os Paralamas passaram de uma banda jovem experimentando referências para um grupo capaz de construir uma das identidades mais reconhecíveis da música brasileira.
Mas o detalhe mais revelador está justamente no que fizeram quando chegaram lá.
Não permaneceram parados. Depois de descobrir uma fórmula extraordinariamente eficiente em O Passo do Lui, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone poderiam simplesmente protegê-la. Em vez disso, abriram portas e deixaram outras músicas entrarem.
Talvez seja por isso que a distância entre “Vital e Sua Moto” e “Alagados” continue tão fascinante. Não são apenas duas músicas muito diferentes gravadas pela mesma banda.
São dois pontos de uma transformação. Entre elas, três músicos descobriram como soar como os Paralamas do Sucesso. E, assim que descobriram, começaram a descobrir tudo outra vez.
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