Mother, do IDLES: o grito de um filho contra uma sociedade que mata mulheres
Na canção de 2017, Joe Talbot transforma o luto pela mãe em uma denúncia contra a exploração do trabalho, o machismo e a violência que atravessa a vida de milhões de mulheres

Quinze horas de trabalho por dia, cinco dias por semana. É assim que Joe Talbot começa a falar de sua mãe em Mother. Não há uma homenagem delicada, tampouco uma tentativa de transformar o sofrimento em virtude. O vocalista do IDLES apresenta uma jornada exaustiva, dessas que costumamos chamar de exemplo de superação para não precisar discutir o que existe de cruel por trás delas.
A música avança entre guitarras ásperas e uma indignação que parece não encontrar descanso. Talbot não está interessado em oferecer conforto. Sua mãe trabalhou, adoeceu e morreu. Ele conhece o peso dessa história e não pretende transformá-la em mais uma celebração da mulher guerreira. Há amor naquela violência sonora, mas também uma pergunta que permanece sem resposta: por que admiramos tanto as mulheres que suportam tudo e tão pouco fazemos para que não precisem suportar?
Lançada em 2017, no álbum de estreia Brutalism, a canção nasceu de uma experiência dolorosa. Christine, mãe do vocalista, enfrentou graves problemas de saúde, e Talbot assumiu parte de seus cuidados. Ela morreu enquanto a banda preparava o disco, deixando uma ausência que atravessaria boa parte das composições.
Mas Mother não se limita ao luto. A memória de Christine abre caminho para uma crítica feroz à exploração do trabalho feminino, às estruturas de poder e à violência contra as mulheres. Talbot também dirige sua indignação aos conservadores britânicos, os chamados Tories, e apresenta a educação e a independência econômica como instrumentos capazes de desafiar essas estruturas.
Em entrevista à revista Music & Riots, em 2017, o músico explicou que a composição o levou a enxergar a própria mãe para além da maternidade. Christine também era uma mulher com experiências, vulnerabilidades e relacionamentos que ele nem sempre havia compreendido. Parte dessa reflexão surgiu de uma observação da escritora Margaret Atwood sobre a diferença entre os medos masculinos e femininos: enquanto alguns homens temem ser ridicularizados por mulheres, muitas mulheres precisam conviver com o medo de serem mortas por homens.
A frase atravessa a música como uma acusação. E encontra no Brasil uma realidade difícil de encarar. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, o país registrou 1.571 feminicídios em 2025, o maior número da série histórica. São mais de quatro mulheres assassinadas por dia em crimes assim classificados. Entre os casos com autoria identificada, 96,4% foram cometidos por homens. A maioria desses crimes ocorreu dentro de casa.
Quatro mulheres por dia. Enquanto discutimos ideologias, costumes e os supostos perigos do feminismo, mulheres continuam sendo assassinadas em um país que gosta tanto de celebrar a família.
É especialmente revoltante perceber como a violência de gênero ainda encontra espaço para ser relativizada no debate público. Há quem apresente o feminismo como uma ameaça à sociedade, enquanto problemas concretos, como agressões domésticas, desigualdade e feminicídios, são tratados como exageros ou instrumentos de disputa política.
Não se trata de impedir discussões sobre legislação ou políticas de proteção. O problema começa quando a preocupação em combater uma ideia parece maior do que o compromisso de enfrentar a violência que atinge pessoas reais.
E a violência não começa necessariamente com uma agressão física. Ela também se manifesta no controle, na humilhação, nas ameaças e na cultura que ensina mulheres a reconhecer determinados abusos como parte inevitável dos relacionamentos.
A exploração do trabalho feminino revela outra face dessa desigualdade. Para muitas mulheres, o expediente não termina quando deixam o emprego. Em casa, há roupas para lavar, comida para preparar, filhos para cuidar e uma infinidade de responsabilidades que raramente são divididas de maneira justa.
É um trabalho silencioso, muitas vezes invisível, sustentado por uma ideia cruel de que cuidar de todos é uma obrigação natural da mulher. Chamamos essa exaustão de dedicação, a sobrecarga de amor e a renúncia de instinto materno. Como se o sofrimento fosse uma condição necessária para que uma mulher seja reconhecida como uma boa mãe.
Aprendemos a chamar essas mulheres de guerreiras. A palavra é bonita. O problema é quando ela serve para esconder o cansaço, justificar a ausência de apoio e transformar sobrecarga em obrigação.
Foi justamente essa dimensão que Talbot encontrou ao revisitar a história de Christine. A mãe que ele amava também era uma trabalhadora submetida a jornadas desgastantes, uma mulher atravessada por dificuldades e por relações sociais que iam muito além do papel materno.
Sou pai. E não consigo ouvir Mother sem pensar na sociedade que estamos deixando para nossos filhos. Na facilidade com que discursos de ódio circulam, na violência que se tornou parte do noticiário cotidiano e no desprezo com que questões fundamentais para a dignidade humana são tratadas. A política está presente em tudo isso. Nas condições de trabalho, no acesso à saúde, na educação, nas leis de proteção e nas decisões que determinam quais vidas recebem atenção do poder público.
Por isso, separar completamente a música da política seria ignorar parte essencial daquilo que o IDLES está dizendo. O rock nunca precisou ser educado para ter relevância. E Mother está longe de ser uma canção educada. Sua força está justamente na recusa de suavizar aquilo que provoca indignação. Talbot grita porque a história que carrega não cabe em uma homenagem convencional.
No fundo, sua revolta nasce de um amor que já não encontra a pessoa a quem poderia ser dedicado. Mas, em vez de permanecer restrito à saudade, esse sentimento alcança outras mulheres, outras mães e outras histórias marcadas pelo trabalho exaustivo e pela violência.
Christine morreu. A música permaneceu.
E talvez a homenagem mais importante que Joe Talbot poderia prestar à mãe fosse justamente essa: recusar a ideia de que o sofrimento das mulheres merece apenas admiração. Porque amar uma mulher não deveria significar celebrar tudo que ela consegue suportar. Deveria significar não aceitar que ela precise suportar tanto.
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