In Bloom: tem gente que ouve Nirvana sem entender porra nenhuma
Atualizado: há 4 minutos
Kurt Cobain já denunciava a contradição de quem consome a rebeldia do rock, mas ignora suas mensagens. Mais de três décadas depois, a crítica parece ter encontrado novos destinatários

Existe uma passagem em In Bloom, do Nirvana, que me acompanha há muitos anos. Kurt Cobain canta sobre um sujeito que gosta das músicas da banda, conhece os refrões, gosta de armas, mas não faz a menor ideia do significado daquilo que está cantando. É uma ironia extraordinária. E, olhando para o Brasil de 2026, também é assustadoramente atual.
In Bloom, lançada em 1991, no álbum Nevermind, pode ser interpretada como uma espécie de carta de amor às avessas. Cobain não estava celebrando aquele sujeito. Estava ridicularizando uma masculinidade agressiva, incapaz de perceber que a própria música que consumia questionava seus valores.
Em uma entrevista de 1992, o músico foi bastante claro ao explicar sua aversão aos machões e às pessoas abusivas. A canção era um ataque a esse comportamento. Mais de trinta anos depois, parece que o personagem continua entre nós. Só mudou de roupa, ganhou uma conta no Instagram e aprendeu a transformar ignorância em engajamento.
Eu não ouço música simplesmente por entretenimento. Nunca foi assim. Quando escuto Pink Floyd, Nirvana, U2, Rage Against the Machine ou Fontaines D.C., não estou apenas procurando uma boa linha de baixo, guitarras barulhentas ou um refrão memorável. Estou ouvindo artistas que, em diferentes momentos e circunstâncias, questionaram guerras, governos, preconceitos, desigualdades e estruturas de poder.
A música tem contexto. Tem história. Tem posicionamento. E, muitas vezes, tem uma ideologia bastante evidente. Não é preciso concordar com tudo que um artista pensa. Mas ignorar deliberadamente aquilo que ele está dizendo é uma forma bastante peculiar de se relacionar com a arte. E aqui entra uma questão pessoal. Sou pai. E a paternidade mudou profundamente a maneira como enxergo o mundo. Não consigo olhar para a violência contra mulheres, o machismo naturalizado e o crescimento de discursos intolerantes como se fossem apenas divergências políticas sem consequências.
Não são.
Nas eleições de outubro de 2026, São Paulo elegeu Lucas Pavanato como seu deputado federal mais votado e Eduarda Campopiano como a deputada estadual mais votada. Dois jovens políticos do PL que construíram suas trajetórias em torno de confrontos ideológicos e de pautas conservadoras.
Eduarda chegou a afirmar que o feminicídio não existe, classificando sua tipificação penal como uma armadilha semântica. É difícil imaginar uma declaração mais perturbadora diante da realidade brasileira. Em 2025, o país registrou 1.571 feminicídios. São mais de quatro mulheres assassinadas por dia em crimes assim classificados.
Pode-se discutir a legislação, sua aplicação e sua eficácia. Isso é legítimo. O que considero inaceitável é tratar a própria definição dessa violência como uma invenção inconveniente. E, quando uma mulher transforma o combate ao feminismo em marca política, a contradição se torna ainda mais dolorosa.
Depois da eleição, Pavanato e Campopiano apareceram comemorando seus resultados ao som de um funk com provocações à esquerda e ao PT. O problema não é o funk. Nunca foi. O problema é o espetáculo político que transforma antagonismo em identidade e faz da provocação permanente um projeto de poder.
Em outro episódio, no Rio Grande do Norte, uma criança de nove anos apareceu sobre um carro, segurando um objeto que o pai afirmou ser uma arma de brinquedo, durante uma comemoração política. O caso passou a ser acompanhado pelo Conselho Tutelar. São acontecimentos distintos, mas que me fazem pensar sobre aquilo que estamos normalizando. Sobre os exemplos que oferecemos às crianças. Sobre a facilidade com que símbolos de violência e discursos de hostilidade passam a fazer parte do cotidiano.
E eu me recuso a tratar tudo isso com indiferença. O Teoria Cultural sempre teve uma visão progressista. Nunca escondi isso. Acredito na cultura como expressão artística, mas também como instrumento de reflexão, questionamento e transformação. Não quero transformar cada canção em um panfleto. Seria empobrecer a própria música. Mas também não aceito essa ideia confortável de que arte e política vivem em universos completamente separados.
O rock que aprendi a admirar não surgiu para agradar a todos. Ele também nasceu do desconforto, da desobediência, do inconformismo e da necessidade de questionar aquilo que parecia intocável.
É por isso que me causa tanta estranheza ver certos roqueiros defendendo discursos autoritários, reproduzindo preconceitos e tratando direitos fundamentais como ameaças, enquanto ostentam camisetas de bandas que passaram décadas combatendo justamente essas mentalidades.
E não, não estou dizendo que alguém precisa ser de esquerda para gostar de Nirvana, Pink Floyd ou Rage Against the Machine. Estou dizendo que existe uma diferença entre apreciar uma obra e compreender aquilo que ela tem a dizer. Kurt Cobain foi especialmente explícito sobre isso. Nas notas do álbum Incesticide, de 1992, deixou claro que não queria racistas, homofóbicos ou pessoas que odiassem mulheres entre os fãs do Nirvana.
Não era uma metáfora complicada. Não exigia doutorado em filosofia, teoria política ou história da música. Era uma posição inequívoca. Por isso, quando encontro alguém que se apresenta como fã de Cobain, mas reproduz exatamente os preconceitos que ele condenava, fico me perguntando qual Nirvana essa pessoa passou a vida ouvindo. Talvez apenas o barulho. Talvez somente o refrão.
Porque ouvir música não torna ninguém automaticamente mais consciente, mais sensível ou mais humano. Mas passar décadas consumindo arte contestadora sem jamais permitir que ela provoque uma única reflexão também diz muita coisa. Não pretendo fingir neutralidade diante daquilo que considero injusto apenas para parecer agradável ou preservar a simpatia de quem pensa diferente.
Posso respeitar o direito de alguém discordar de mim sem precisar respeitar toda ideia que essa pessoa defende. E, como pai, como alguém que ama música e como responsável por um espaço dedicado à cultura, sinto que essa distinção importa cada vez mais.
No fundo, In Bloom permanece uma das críticas mais certeiras que Kurt Cobain deixou. Não apenas sobre os fãs que não entendiam o Nirvana, mas sobre uma relação superficial com a arte, na qual se consome a estética da rebeldia enquanto se rejeita tudo que ela representa. O sujeito veste a camiseta, aumenta o volume, canta com entusiasmo e acredita que compreendeu tudo.
Mas continua sem entender porra nenhuma.
.png)




Comentários