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Construção, 55 anos depois: o Brasil mudou, mas ainda reconhecemos o homem de Chico Buarque

há 17 horas
6 min de leitura

Lançado em 71, em meio à ditadura e à censura, o álbum atravessou seu próprio tempo ao transformar trabalho, poder, rotina, desigualdade e liberdade em algumas das páginas mais inquietantes da música brasileira

Chico Buarque
Imagem: Reprodução


Eu não consigo ouvir Construção apenas como um disco de 71. Já tentei colocá-lo nesse lugar confortável reservado aos grandes clássicos, olhar a capa, entender o contexto, reconhecer sua importância histórica e seguir adiante. Não funciona. Há alguma coisa naquele disco que se recusa a permanecer no passado.





Talvez porque a primeira sensação não seja exatamente de distância. O Brasil que recebeu Construção era outro. Vivia sob uma ditadura militar, a censura atravessava jornais, teatros, filmes, livros e canções, e Chico Buarque já conhecia bem o peso dessa engrenagem. O álbum foi composto entre o período de seu exílio na Itália e a volta ao país. O próprio Chico diria anos depois que sua produção daquele início dos anos 70 estava diretamente condicionada à realidade política brasileira e à luta pela liberdade de expressão.


É preciso lembrar disso. Não para transformar o disco em documento empoeirado de uma aula de História, mas justamente para compreender de onde vem aquela sensação de sufocamento. Porque Construção parece respirar com dificuldade.


Desde “Deus lhe Pague”, há alguma coisa apertando o peito. O trabalho, o pão, a cama, o domingo, a existência administrada e vigiada. Depois vem “Cotidiano”, colocando duas pessoas dentro de uma repetição quase sem saída. Os mesmos horários, os mesmos gestos, os mesmos movimentos. A rotina deixa de ser simplesmente rotina e passa a parecer uma espécie de máquina. E isso me soa muito atual nestes tempos caóticos.


E então chega “Construção”. Mais de meio século depois, ainda impressiona o que Chico conseguiu fazer ali. Não apenas pela história daquele trabalhador que passa o dia erguendo um edifício e termina morto no chão. O espanto está também na maneira como ele escolheu contar essa história. O homem trabalha. A cidade cresce. O corpo cai. E a cidade continua.


Essa talvez seja uma das imagens mais violentas de todo o disco, justamente porque Buarque não precisa transformá-la num espetáculo. A morte não interrompe a engrenagem. Em determinado momento, aquele corpo deixa de ser percebido como uma vida e passa a ser um inconveniente no funcionamento da cidade.


É difícil chegar a 2026, ouvir isso e fingir que estamos falando apenas sobre 71. Não porque o Brasil de hoje seja o Brasil da ditadura. Não é. Confundir os dois períodos seria apagar diferenças históricas fundamentais. Mas regimes passam, governos terminam, cidades mudam de tamanho, tecnologias transformam nossas relações e algumas formas de desumanização encontram maneiras impressionantes de sobreviver.


O trabalhador de “Construção” continua sendo reconhecível. Ele pode não estar mais naquele mesmo andaime. Pode estar numa motocicleta atravessando a cidade com uma entrega nas costas. Pode passar o dia diante de uma máquina, de um computador, dirigindo, carregando peso, atendendo pessoas, construindo prédios que jamais poderia comprar. Pode ter outra profissão, outra roupa, outra rotina. A pergunta permanece desagradavelmente próxima: quanto vale uma pessoa quando aquilo que interessa nela é apenas sua capacidade de produzir?


É nesse ponto que obra deixa de ser apenas um grande álbum sobre seu tempo. Ele começa a falar sobre o nosso. E Chico não faz isso oferecendo respostas. Faz algo muito mais perturbador: constrói uma estrutura na qual nós mesmos começamos a perceber o mecanismo.


Na faixa-título, os versos seguem uma disciplina impressionante. São dodecassílabos, construídos com uma regularidade quase arquitetônica e encerrados por palavras proparoxítonas que vão mudando de posição conforme a narrativa se repete. O arranjo, com a presença decisiva de Rogério Duprat, cresce junto com essa sensação de vertigem.


A forma não acompanha simplesmente a história. A forma é parte da história. Sempre achei essa uma das coisas mais fascinantes na música. Chico escreve sobre um homem preso numa engrenagem e coloca a própria canção dentro de uma engrenagem. As palavras se deslocam. As peças mudam de posição. A estrutura permanece. É impossível não pensar no trabalhador como mais uma dessas peças.





Tira-se uma. Coloca-se outra. A obra continua subindo. E aí está uma crueldade que atravessou os 55 anos que separam aquele lançamento de nós: sociedades são muito eficientes em transformar pessoas em funções. O homem deixa de ser o homem. Passa a ser pedreiro, empregado, entregador, motorista, funcionário, número, produtividade, custo. Só volta a ser indivíduo, muitas vezes, quando alguma tragédia nos obriga a olhar para ele.



Chico Buarque
Imagem: Reprodução


Por alguns minutos.


Depois o trânsito precisa seguir. É por isso que chamar Construção simplesmente de “disco de protesto” sempre me parece pouco. O próprio Chico já demonstrou desconforto com essa definição ao falar de sua produção dos anos 70. Havia política, evidentemente. Havia uma realidade autoritária pressionando sua escrita. Mas reduzir tudo a um enfrentamento direto com a ditadura seria diminuir a dimensão que aquelas músicas adquiriram.


Construção fala do poder, mas também fala do cotidiano. Fala daquilo que acontece quando a opressão deixa de parecer extraordinária e entra na rotina. Talvez por isso “Cotidiano” continue tão próxima. A repetição diária ali tem uma espécie de claustrofobia doméstica. A vida passa a acontecer por horários e movimentos previsíveis. Não existe tanque na rua dentro daquela história, não existe um discurso político sendo pronunciado. Existe algo muito menor e, justamente por isso, muito humano: a sensação de estar preso dentro dos próprios dias.



Essa é outra força do álbum. A política não aparece apenas onde esperamos encontrá-la. Está na relação com o trabalho. Está na dificuldade de falar. Está no corpo. Está no silêncio. Está no desejo de ir embora. Está na saudade de quem saiu. Está na tentativa quase desesperada de preservar algum espaço para viver. Está no meu amor, que eu já não a tenho mais.


“Samba de Orly” carrega isso de maneira especialmente dolorida. A canção nasce da experiência do exílio e acabou tendo versos modificados pela censura. Expressões relacionadas à omissão forçada tiveram de ser substituídas antes de a música chegar ao disco. Não era metáfora sobre censura. A censura estava fisicamente dentro da canção, escolhendo quais palavras poderiam sobreviver.


Há algo assustador nisso. Um governo entrando numa música e trocando suas palavras. Quando ouvimos hoje, conhecendo essa história, entendemos que liberdade de expressão não é uma ideia abstrata escrita numa Constituição. Em determinados momentos da história brasileira, houve alguém sentado diante das palavras de um compositor decidindo o que o resto do país estava autorizado a ouvir. Algo nesse intervalo me leva diretamente para Continental, do Black Pantera, em especial à faixa “Banzo”, com o majestoso Chico César.


E Chico respondia como podia. Às vezes pelo confronto. Às vezes pela ironia. Às vezes construindo uma música tão sofisticada que a crítica não dependia de uma frase de efeito. O próprio processo de produção de Construção ocorreu sob esse cerco. Registros do acervo de Chico mostram que canções do álbum passaram pelo exame da censura, com “Cordão” chegando a ser classificada por um censor como protesto contra a ordem vigente.


“Minha História”, por sua vez, enfrentou questionamentos relacionados ao que os órgãos oficiais consideravam ofensivo às convicções religiosas. Mas existe outra coisa que me impede de enxergar o álbum apenas pelo cinza daqueles anos. Há amor ali. Há delicadeza.


Há gente tentando escapar. “Valsinha” sempre me parece fundamental dentro do disco por causa disso. No meio de tanta repetição, vigilância, trabalho e sufocamento, duas pessoas simplesmente alteram o curso de uma noite. A cidade que parecia máquina volta por alguns minutos a pertencer às pessoas. Isso muda tudo. Porque talvez resistir também seja isso.


Continuar sendo humano quando tudo ao redor parece interessado em transformar você em outra coisa. Amar. Dançar. Desejar. Lembrar. Falar. Voltar para casa diferente do que saiu. Construção não envelheceu bem porque continua soando moderno. Isso seria uma forma pequena de elogiar um disco desse tamanho. Ele envelheceu bem porque as perguntas que carregava não encontraram respostas definitivas.


O que fazemos com quem constrói nossas cidades? Quanto de nossa vida entregamos ao trabalho? Em que momento a rotina deixa de organizar a existência e começa a consumi-la?

O que acontece quando o poder decide quais palavras podem ser pronunciadas? Quanto tempo uma sociedade leva para naturalizar aquilo que deveria causar indignação?


E quanto de humanidade conseguimos preservar no meio disso tudo? Eu volto ao homem de “Construção”. Não sabemos seu nome. Essa ausência me incomoda cada vez mais. Sabemos que trabalhou, que comeu, que amou, que subiu, que caiu. Conhecemos os últimos movimentos daquele dia e ainda assim ele permanece anônimo. Pode ser qualquer um.


Talvez essa seja justamente a ferida que Chico deixou aberta em 1971. O personagem não precisava de nome porque o sistema já havia tirado dele muito mais do que isso. Cinquenta e cinco anos passaram. A ditadura terminou. A censura institucional daquele período acabou. O Brasil recuperou a democracia, atravessou outras crises, viu cidades explodirem de tamanho e colocou computadores dentro do bolso de praticamente toda uma geração.





Mudamos muito. E ainda assim colocamos esse disco para tocar e reconhecemos alguma coisa. Não exatamente o mesmo país. Mas certos ruídos. Certas engrenagens. Certas maneiras de medir a importância de uma vida.


É por isso que voltar a esse álbum não deveria ser apenas um exercício de memória. Há discos importantes porque registraram perfeitamente o tempo em que nasceram, e eu sei bem disso. Mas Construção fez algo mais difícil: registrou seu tempo com tamanha profundidade que acabou encontrando os tempos seguintes.


Ouvir Chico Buarque em 2026 é lembrar do Brasil de 1971. Mas é também fazer uma pergunta muito menos confortável: quanto daquele homem que caiu da construção ainda existe em nós?



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