Black Pantera encara o Brasil de frente em Continental
- Marcello Almeida

- há 18 horas
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Em seu quinto álbum, o trio mineiro amplia o próprio som para atravessar ancestralidade, racismo, identidade e as contradições de um país que insiste em não olhar para todas as suas faces.

O Brasil gosta de falar sobre si mesmo como um país diverso. A palavra é confortável. Cabe em campanha publicitária, discurso oficial, camiseta, carnaval e cartão-postal. O problema começa quando essa diversidade ganha rosto, voz, memória e resolve perguntar quem, afinal, sempre teve permissão para representar o país.
É desse Brasil menos confortável que o Black Pantera se aproxima em Continental. O quinto álbum de estúdio do trio mineiro não tenta explicar o país. Seria pretensioso demais. Faz algo mais interessante: coloca suas contradições para dividir o mesmo espaço.
O título já entrega a escala. Continental é o Brasil do mapa, imenso, espalhado por sotaques, ritmos, crenças, histórias e diferenças sociais brutais. Mas também é uma palavra que ganha outro peso quando colocada nas mãos de três músicos negros fazendo rock pesado em um país que ainda estranha a presença negra em determinados territórios culturais.
Charles Gama, Chaene da Gama e Rodrigo “Pancho” não pedem licença para entrar nessa conversa. Eles aumentam o volume.
Um país não começa onde disseram que ele começa
Continental abre com Milton Santos. A escolha dificilmente poderia ser mais simbólica. A voz do geógrafo e intelectual baiano aparece logo na faixa-título, colocando o espaço brasileiro muito além de uma simples extensão territorial. O Brasil que surge dali é movimento, conflito, gente, transformação. Então a banda entra.
Guitarra, baixo e bateria parecem assumir fisicamente aquilo que o conceito propõe. O peso continua ali, reconhecível, mas o Black Pantera já não demonstra qualquer preocupação em proteger fronteiras musicais. Ainda existe hardcore. Existe metal. Existe groove. Só que agora soul, rap, música brasileira e matrizes africanas circulam pelo disco como partes de uma mesma história.
Isso faz diferença. Porque Continental poderia ter caído facilmente na armadilha do álbum que mistura gêneros para provar que sabe misturar gêneros. Não cai. As mudanças acontecem porque a própria ideia do disco exige movimento. Se existem vários Brasis, por que deveria existir apenas um Black Pantera?
Peso também pode ter balanço
Uma das coisas mais interessantes do disco está justamente na maneira como a banda entende o peso. Peso não significa apenas distorção. Às vezes ele está no baixo de Chaene, empurrando a música por baixo enquanto a guitarra abre espaço. Em outros momentos está na bateria de Pancho, que toca com uma combinação impressionante de violência e balanço. Há músicas que avançam como se fossem partir alguma coisa ao meio e outras que encontram força justamente quando deixam o corpo respirar.
Essa liberdade impede que álbum vire uma sequência de pancadas indistinguíveis. “Start The Game” já havia mostrado uma banda feroz e direta. “Hórus” apontava para outro território. Dentro do álbum, porém, essas faixas deixam de funcionar como peças isoladas e passam a integrar uma obra muito mais ampla.
E então aparecem Sandra Sá, Duquesa, Derrick Green e Chico César. Quatro nomes que, colocados lado a lado, parecem pertencer a conversas musicais completamente diferentes. É justamente por isso que funcionam.
Quem disse que essas músicas não poderiam sentar à mesma mesa?
Duquesa entra em “Serotonina”. Sandra Sá aparece em “Quando Canto”. Derrick Green divide “Obsoleto” com o trio. Chico César está em “Banzo” Não parecem participações escolhidas para enfeitar capa de álbum ou alimentar algoritmo. Cada uma amplia uma parte da conversa.
Sandra Sá carrega décadas de música negra brasileira em uma voz imediatamente reconhecível. Duquesa representa uma geração que encontrou no rap outra maneira de disputar narrativa, espaço e identidade. Derrick Green traz consigo uma história particular dentro do metal: um homem negro ocupando há décadas o posto de vocalista de uma das bandas mais importantes que o gênero produziu. Chico César chega de outro Brasil, com outra tradição, outro vocabulário musical.
O ponto de encontro não é o gênero. É a origem de muita coisa que aprendemos, convenientemente, a separar em prateleiras. Rock de um lado. Rap do outro. Soul ali. Música brasileira acolá. Como se essas histórias nunca tivessem se tocado. Continental desmonta essa organização.
“Banzo” sabe exatamente onde está pisando
Entre tantos momentos fortes, “Banzo” merece atenção particular. Até a palavra incomoda. Ela carrega uma memória que não pode ser tratada como decoração estética. Dentro do álbum, a presença de Chico César ajuda a levar a música para um território em que passado e presente deixam de parecer coisas tão distantes. A crítica à meritocracia que atravessa a faixa ganha uma dimensão ainda mais dura quando colocada diante da experiência histórica negra no Brasil.
Afinal, falar que todos largam do mesmo lugar é muito fácil quando se apaga quem construiu a pista, quem começou quilômetros atrás e quem passou séculos impedido até mesmo de correr. O Black Pantera não precisa transformar isso em palestra. A música resolve.
Essa talvez seja uma das maiores virtudes do grupo: discurso e som raramente parecem disputar espaço. A indignação não chega depois, adicionada à música como legenda. Está no riff, na voz, na escolha das palavras, na velocidade, no silêncio e no corpo de quem toca.
O Black Pantera não suavizou seu discurso para crescer
Há ainda outra leitura possível de Continental. A banda chega ao álbum vivendo uma dimensão muito diferente daquela de seus primeiros anos. Vieram grandes festivais, apresentações internacionais, abertura para o Korn, reconhecimento no Prêmio da Música Brasileira e palcos cada vez maiores.
Seria compreensível que essa ascensão produzisse algum tipo de domesticação. Não produziu. A banda continua falando de racismo. Continua falando de ancestralidade. Continua colocando a experiência negra no centro de uma música que, durante muito tempo, parte do próprio público brasileiro preferiu imaginar como essencialmente branca.
Mas existe uma diferença muito importante. O grupo já não parece interessado apenas em provar que pertence ao rock. Essa discussão ficou pequena. O álbum soa como um trabalho de músicos que perceberam que podem levar o rock para onde quiserem, misturá-lo com aquilo que quiserem e continuar sendo exatamente quem são.
Talvez aí esteja a verdadeira expansão deste disco. Não é abandonar o peso. É descobrir quantas coisas cabem dentro dele.
Continental demais para caber numa definição
Existe uma tentação de chamar Continental de disco político. Ele é. Mas parar nisso seria diminuir bastante o que acontece aqui. Porque política também está na escolha de Sandra Sá. Está na presença de Duquesa. Está em Chico César cantando “Banzo”. Está em Derrick Green dividindo uma música com três músicos negros brasileiros. Está em Milton Santos abrindo o álbum. Está numa banda de Uberaba olhando para o território onde nasceu e recusando uma versão simplificada dele.
E está, sobretudo, na possibilidade de três homens negros fazerem um disco de rock sem aceitar que alguém determine até onde esse rock pode ir. O Brasil de Continental não é cordial. Não é homogêneo. Não cabe numa fotografia aérea de praia, floresta, avenida ou favela.
É um país atravessado por beleza e violência, criação e apagamento, memória e esquecimento. Um lugar que produziu algumas das culturas mais extraordinárias do mundo enquanto passou séculos tentando decidir quais de seus próprios filhos teriam o direito de ser reconhecidos como parte delas.
O Black Pantera não oferece solução para esse país. Também não deveria. Faz algo que a boa música sempre soube fazer quando encontra seu momento histórico: obriga o ouvinte a permanecer alguns minutos diante daquilo que seria mais confortável ignorar. E faz isso alto. Muito alto.
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