A obscura música de Roger Waters escolhida por David Gilmour
- Marcello Almeida

- há 13 horas
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Entre “Wish You Were Here”, The Wall e algumas das palavras mais marcantes da história do Pink Floyd, Gilmour encontrou sua resposta em um lugar muito mais improvável

David Gilmour tinha material de sobra para escolher. Poderia ter mencionado “Time”, com Roger Waters escrevendo sobre o momento assustador em que percebemos que os anos passaram enquanto estávamos ocupados fazendo outros planos. Poderia ter escolhido “Brain Damage”, “Us and Them”, “Comfortably Numb” ou praticamente qualquer trecho de The Wall.
E havia, naturalmente, “Wish You Were Here”. Poucas imagens escritas por Waters atravessaram tantas gerações quanto a de duas almas perdidas nadando em um aquário, repetindo os mesmos movimentos ano após ano. É uma frase que funciona sem precisar conhecer Syd Barrett, a história do Pink Floyd ou sequer o homem que a escreveu.
Mas Gilmour não escolheu nenhuma delas.
Quando perguntaram ao guitarrista qual composição continha, em sua opinião, a melhor letra escrita por Roger Waters, ele pensou por alguns instantes e respondeu:
“Que tal uma música chamada ‘Walk With Me Sydney’?”
É difícil imaginar uma resposta menos previsível. “Walk With Me Sydney” pertence praticamente à pré-história do Pink Floyd. Waters escreveu a música em 1965, quando o grupo ainda atravessava suas primeiras formações e estava muito distante de se tornar a banda que gravaria The Dark Side of the Moon, Wish You Were Here, Animals e The Wall.
A gravação conta com Waters, Richard Wright, Nick Mason, Syd Barrett e Juliette Gale, que havia sido casada com Wright. Durante décadas, permaneceu escondida nos arquivos, até aparecer oficialmente em 2015 no EP 1965: Their First Recordings.
E basta ouvir a música para perceber por que a escolha de Gilmour chama tanta atenção.
Não encontramos ali o Waters que posteriormente escreveria sobre alienação, guerra, morte, ausência, poder ou isolamento. “Walk With Me Sydney” é quase inocente. Estranha, divertida e muito distante da solenidade associada às grandes obras do Pink Floyd.
Em determinado momento, Waters consegue até colocar meningite e peritonite dentro da mesma letra. O homem que anos depois escreveria The Wall ainda estava aprendendo a escrever canções.
Gilmour estava brincando com Waters?
É justamente aí que a resposta fica interessante. Gilmour poderia estar simplesmente demonstrando conhecimento sobre uma peça obscura da história da banda. Também poderia ter carinho genuíno pela canção ou pelo absurdo de sua letra. Mas existe uma terceira possibilidade difícil de ignorar. Ele poderia estar se divertindo.
A relação entre David Gilmour e Roger Waters nunca foi exatamente conhecida pela delicadeza. Os dois ajudaram a conduzir o Pink Floyd durante sua fase artisticamente mais poderosa, mas a mesma parceria que produziu obras extraordinárias acabou se tornando um campo permanente de disputa criativa.
Depois da saída de Syd Barrett, nenhum integrante simplesmente assumiu sozinho o espaço deixado por ele. O Pink Floyd precisou descobrir outra identidade. E levou tempo.
Ummagumma ainda parece uma banda testando até onde poderia levar suas experiências. Atom Heart Mother ampliou a escala. Meddle começou a revelar uma linguagem mais definida. Então veio The Dark Side of the Moon. Ali, alguma coisa finalmente encaixou.
Waters encontrou uma força extraordinária como letrista e arquiteto conceitual. Gilmour possuía uma sensibilidade melódica capaz de transformar ideias densas em músicas que poderiam alcançar milhões de pessoas. Richard Wright acrescentava harmonias que davam profundidade àquelas paisagens, enquanto Nick Mason segurava a estrutura sem disputar protagonismo.
Por algum tempo, quatro personalidades diferentes conseguiram fazer a mesma máquina funcionar. O problema é que ela funcionou bem demais.
O aquário foi ficando pequeno
O sucesso transformou o Pink Floyd numa das maiores bandas do planeta, mas também aumentou as tensões internas. Waters passou a exercer controle criativo cada vez maior. Animals já carregava fortemente sua visão; The Wall levou essa centralização ainda mais longe. Richard Wright acabou afastado durante aquele período, e a relação entre Waters e Gilmour se deteriorava enquanto os dois ainda produziam alguns dos melhores momentos musicais de suas carreiras.
“Comfortably Numb” é provavelmente o exemplo definitivo dessa contradição.
Gilmour trouxe a música. Waters escreveu a letra. Os dois discordaram sobre sua construção e produção. O resultado virou um dos maiores clássicos do Pink Floyd.
Anos depois, Gilmour definiria músicas como “Comfortably Numb” como algumas das últimas brasas da capacidade que ele e Waters ainda possuíam de trabalhar juntos.
É uma imagem brutalmente adequada. Eles ainda conseguiam criar fogo. Já não conseguiam permanecer próximos dele.
The Final Cut, lançado em 1983, tornou evidente o desequilíbrio. Waters dominava a composição e a direção artística, enquanto o Pink Floyd parecia cada vez menos uma banda funcionando coletivamente. Dois anos depois, ele saiu. Waters acreditava que o Pink Floyd havia chegado ao fim. Gilmour discordava. E dessa discordância nasceu uma guerra.
Pink Floyd contra Pink Floyd
Gilmour e Mason decidiram continuar usando o nome Pink Floyd. Waters tentou impedir judicialmente que isso acontecesse. A disputa ultrapassou música, amizade e diferenças criativas. Agora envolvia identidade, direitos e uma pergunta difícil: a quem pertencia o Pink Floyd? Waters havia se tornado seu principal compositor e conceitualista. Mas não era seu único integrante.
Gilmour venceu aquela batalha prática e o Pink Floyd seguiu adiante sem Waters, lançando A Momentary Lapse of Reason em 1987 e, posteriormente, The Division Bell. A relação entre os dois nunca seria verdadeiramente reconstruída. Houve tréguas. A mais célebre aconteceu em 2005, quando Waters, Gilmour, Mason e Wright dividiram novamente o palco no Live 8. Por alguns minutos, aquela formação clássica estava junta outra vez.
A imagem tornou-se histórica justamente porque todos sabiam o quanto aquilo era improvável. O tempo não resolveu o restante.
E então Gilmour escolheu “Walk With Me Sydney”
É isso que torna aquela resposta tão deliciosa. Imagine a discografia que Gilmour tinha diante de si. Roger Waters escreveu algumas das letras mais conhecidas do século XX. Transformou seus medos, traumas, ressentimentos e obsessões em discos estudados até hoje. Escreveu “Time”. Concebeu The Wall. Colocou sua visão de mundo no centro de Animals. Deu palavras à ausência que atravessa Wish You Were Here.
Gilmour conhecia tudo isso melhor do que quase qualquer pessoa. Ele estava dentro da sala quando parte dessas músicas nasceu. Ainda assim, quando chegou a hora de escolher, foi parar em 1965. “Walk With Me Sydney”. Uma música em que o futuro autor de “Another Brick in the Wall” rimava doenças enquanto o Pink Floyd ainda tentava descobrir o que seria.
Não podemos saber se aquilo foi uma alfinetada deliberada. Transformar a resposta em prova de uma provocação seria colocar intenção na boca de Gilmour. Também não precisamos. A graça permanece justamente na dúvida. Talvez ele realmente gostasse daquela letra.
Talvez estivesse prestando uma homenagem ao jovem Roger Waters, antes dos conceitos gigantescos, dos estádios, dos porcos voadores e dos muros. Ou talvez David Gilmour simplesmente soubesse exatamente o que estava fazendo. Depois de tantos anos dividindo um aquário com Roger Waters, poucas pessoas conheceriam melhor onde tocar no vidro.
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