The Stone Roses: o disco de 89 que fez Manchester acreditar que o futuro já havia começado
- Marcello Almeida

- há 13 horas
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Antes de o Britpop dominar o Reino Unido, quatro músicos de Manchester encontraram um ponto de encontro improvável entre guitarras, psicodelia, pista de dança e uma confiança quase insolente

“I Wanna Be Adored” demora a aparecer. Primeiro vem aquele ruído distante, quase como se fosse subterrâneo. Aos poucos, alguma coisa começa a ganhar forma. O baixo do saudoso Mani entra, Reni estabelece o pulso, a guitarra de John Squire cresce ao redor e Ian Brown surge sem pressa alguma. Não me parece uma abertura de uma banda tentando conquistar atenção ou o mundo.
Parece a entrada de quatro sujeitos absolutamente convencidos de que isso já lhes pertence. Então Brown canta o que deseja: ser adorado. Era uma ambição enorme para um grupo que, pouco tempo antes, ainda encontrava dificuldades para chamar atenção fora do noroeste da Inglaterra. Em 87, uma demo com “Waterfall”, “She Bangs the Drums” e “I Wanna Be Adored” chegou à Warner Bros. A resposta, segundo Brown recordaria anos depois, foi devastadoramente simples: a gravadora não ouviu nenhum hit naquele material.
Dois anos depois, aquelas canções estavam no centro de um dos discos que mudariam a trajetória da música britânica.
Lançado em 2 de maio de 1989 pela Silvertone, The Stone Roses foi gravado principalmente no Battery Studios, em Londres, sob produção de John Leckie. Brown, Squire, Mani e Reni chegaram ao álbum carregando referências que nem sempre coincidiam. Reggae, Led Zeppelin, acid house e punk dividiam opiniões dentro do próprio grupo. Hendrix, a fase final dos Beatles e Forever Changes, do Love, estavam entre os raros territórios compartilhados pelos quatro.
Essa mistura de gostos poderia produzir confusão. Produziu identidade. John Squire fazia a guitarra soar cristalina sem retirar dela a força. Mani não tratava o baixo como simples sustentação. Reni tocava bateria com uma elasticidade que aproximava aquelas canções do movimento de uma pista de dança. No centro, Ian Brown cantava com uma frieza estranha, distante da tradição dos grandes vocalistas de rock.
Nenhum elemento parecia disputar espaço com o outro. Eles se moviam juntos. “She Bangs the Drums” é um dos melhores exemplos. A faixa tem pouco menos de quatro minutos e carrega uma sensação difícil de fabricar: a de juventude acontecendo enquanto a música toca. Guitarras abertas, bateria inquieta e uma melodia que avança sem carregar o peso da própria importância. O single acabaria se tornando o primeiro Top 40 britânico da banda. Depois chega “Waterfall”.
Squire espalha acordes quase luminosos enquanto a seção rítmica impede que a canção simplesmente flutue. O Stone Roses conseguia olhar para a psicodelia dos anos 60 sem soar preso a ela. Esse talvez seja um dos grandes segredos do álbum: suas referências apontavam para trás, mas o corpo estava firmemente plantado em 89.
Manchester também estava mudando. A Haçienda já havia se tornado um ponto fundamental da cultura acid house, e as fronteiras entre quem frequentava shows de guitarra e quem atravessava a madrugada dançando estavam ficando menos rígidas. O chamado Madchester cresceria justamente nesse espaço, onde rock, psicodelia, roupas largas, clubes e novas possibilidades rítmicas começavam a dividir a mesma cidade. Os Roses não precisaram transformar suas guitarras em música eletrônica para pertencer àquele momento.

Bastava ouvir Mani e Reni. É ali que o disco balança. “Made of Stone” traz outra temperatura. Há melancolia por baixo da segurança, uma sombra atravessando a guitarra cintilante de Squire. “Bye Bye Badman” parece leve até que sua história e suas referências políticas começam a surgir. “Elizabeth My Dear”, construída sobre a melodia tradicional associada a “Scarborough Fair”, dura menos de um minuto e dispara sua provocação contra a monarquia britânica antes de desaparecer.
O álbum também sabia ser estranho.“Don’t Stop” nasceu de “Waterfall” tocada ao contrário e reorganizada, transformando algo familiar numa espécie de delírio psicodélico. Colocadas lado a lado, as duas faixas parecem mostrar a mesma fotografia revelada em universos diferentes.
E então chega “I Am the Resurrection”. O título já seria arrogante o bastante para qualquer banda. Para o Stone Roses, ainda parecia pouco. A faixa começa como uma canção e termina em uma longa explosão instrumental. Brown gradualmente perde espaço, e Squire, Mani e Reni assumem o restante da viagem. Quando tudo termina, fica evidente a simetria quase absurda do álbum: ele começa pedindo adoração e termina anunciando ressurreição.
Modéstia nunca esteve no projeto. O curioso é que o sucesso não chegou na mesma velocidade dessa autoconfiança. O álbum entrou modestamente nas paradas britânicas, enquanto a reputação do grupo crescia através dos shows, dos singles e de uma imprensa musical cada vez mais fascinada por aquilo que acontecia em Manchester.
Meses depois, “Fools Gold” empurraria a ligação entre rock e cultura de clubes ainda mais longe e daria ao grupo seu primeiro Top 10 no Reino Unido. A faixa não fazia parte da edição britânica original de The Stone Roses, embora tenha sido incorporada posteriormente a outras versões e relançamentos.
A influência do disco atravessaria a década seguinte. Sua combinação de melodias imediatas, psicodelia, atitude e groove pode ser percebida na música britânica que veio depois, e o próprio Oasis jamais escondeu a importância dos Roses em sua formação.
Mas reduzir The Stone Roses a uma ponte para o Britpop seria diminuir o que acontece dentro daqueles minutos.
O disco ainda funciona porque não depende exclusivamente da ordem do tempo. Coloque “I Wanna Be Adored” para tocar agora. Aquele baixo continuará surgindo da escuridão. A bateria continuará esperando o momento certo. Squire continuará abrindo espaço com a guitarra. Ian Brown continuará entrando como se o mundo já soubesse quem ele é.
Mais de três décadas depois, o pedido feito na primeira música soa quase desnecessário.
A adoração veio.
Com amor para Mani.
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