top of page

Do the Evolution: a barbárie também aprendeu a usar tecnologia

há 11 horas
6 min de leitura

Em 1998, o Pearl Jam transformou a história da humanidade em uma crítica feroz à violência, à ganância e ao abuso de poder. Quase três décadas depois, a música de Eddie Vedder encontra no Brasil um retrato inquietante das nossas próprias contradições

Imagem do clipe de Do the Evolution, do Pearl Jam
Imagem: Reprodução


Se é difícil entender ou compreender, a gente desenha.


Há algo profundamente perturbador no videoclipe de Do the Evolution, do Pearl Jam. Em pouco menos de quatro minutos, a humanidade nasce, se desenvolve, constrói civilizações, descobre novas tecnologias e encontra maneiras cada vez mais sofisticadas de destruir a si mesma.





Guerras, intolerância religiosa, racismo, exploração, violência e devastação ambiental aparecem em uma sucessão frenética de imagens. A espécie humana domina ferramentas, conquista territórios, acumula riquezas e desenvolve máquinas extraordinárias. Mas continua reproduzindo comportamentos que atravessaram séculos de brutalidade.


O resultado é um dos retratos mais incômodos já produzidos pelo rock sobre aquilo que gostamos de chamar de progresso.


Lançada em 1998, no álbum Yield, a música tem letra de Eddie Vedder e composição musical de Stone Gossard. Influenciada pelas reflexões do escritor Daniel Quinn em Ishmael, a canção apresenta um narrador arrogante, convencido de sua superioridade e do direito de dominar o mundo.


Vedder explicou, na época, que não estava cantando como ele próprio, mas interpretando alguém entorpecido pela tecnologia e pela sensação de controle sobre o planeta. Essa distinção é fundamental.


O personagem celebra aquilo que a música denuncia. Sua confiança é tão absurda quanto sua indiferença diante das consequências dos próprios atos. Para ele, conquistar, explorar e destruir são manifestações naturais da evolução.


O videoclipe, dirigido por Todd McFarlane e Kevin Altieri, transforma essa visão em imagens difíceis de esquecer. Referências ao nazismo, à Ku Klux Klan, aos conflitos armados e à destruição da natureza compõem uma história na qual o avanço tecnológico não consegue esconder a permanência da crueldade.


A humanidade aprende a construir máquinas cada vez mais complexas, mas parece incapaz de abandonar seus velhos impulsos de dominação. E é impossível assistir a essa animação em 2026 sem pensar no Brasil.


Vivemos em um país onde a educação pública frequentemente se transforma em alvo de disputas ideológicas, onde o trabalho de professores é desqualificado no debate político e onde a ciência precisa reafirmar constantemente sua importância diante da desinformação.


Em maio deste ano, durante uma discussão sobre reajuste salarial de profissionais da educação na Câmara Municipal de São Paulo, o então vereador Lucas Pavanato chamou professores de "burros" e "vagabundos". A declaração provocou indignação e foi alvo de uma moção de repúdio apresentada na Câmara Municipal de Itariri. Meses depois, Pavanato foi eleito deputado federal por São Paulo com mais de três milhões de votos.


Não é necessário concordar com as reivindicações de uma categoria para reconhecer o absurdo de tratar seus profissionais dessa maneira. Desde quando humilhar professores passou a representar alguma forma de coragem política? Uma sociedade que transforma o desprezo pelo conhecimento em espetáculo público está caminhando em qual direção?





A pergunta me parece ainda mais urgente diante do incêndio que atingiu, na noite de 7 de outubro, um prédio da Universidade Federal de Pernambuco. O local abrigava laboratórios e pesquisas nas áreas de genética, medicamentos, informática e outras atividades científicas. Equipamentos, amostras e trabalhos acumulados ao longo de anos foram atingidos pelas chamas.


Imagem do clipe de Do the Evolution, do Pearl Jam
Imagem: Reprodução


O episódio ganhou contornos ainda mais preocupantes após o deputado federal eleito Jones Manoel relatar que estudantes haviam recebido mensagens de ameaça de motivação política. A ocorrência também aconteceu em meio à repercussão de uma manifestação estudantil em apoio à reeleição do presidente Lula.


É indispensável fazer uma distinção: a origem do incêndio ainda está sendo investigada, e não existe comprovação de que tenha sido um ataque criminoso ou uma retaliação política. As ameaças relatadas também precisam ser verificadas pelas autoridades. Mas o episódio reúne duas questões que não podem ser ignoradas: a necessidade de proteger nossas instituições científicas e a gravidade de qualquer ameaça dirigida a estudantes por suas posições políticas.


A investigação precisa esclarecer os fatos. A indignação não substitui as provas, assim como a falta de uma conclusão não torna aceitável a violência política. E, independentemente da causa do incêndio, há uma perda concreta a lamentar. Pesquisas não são apenas documentos guardados em computadores. Representam anos de trabalho de estudantes, professores e cientistas, muitas vezes dedicados a problemas que afetam a vida de milhões de pessoas.


Destruir ou perder esse conhecimento significa comprometer possibilidades que poderiam beneficiar toda a sociedade. É aqui que Do the Evolution deixa de parecer uma música distante, composta nos Estados Unidos no final dos anos 1990, e passa a dialogar diretamente com o país em que vivemos. Afinal, o que significa evoluir?


De que adianta uma sociedade desenvolver inteligência artificial, construir equipamentos médicos extraordinários e alcançar avanços científicos impressionantes se continua tratando a educação como inimiga e a dignidade humana como algo negociável? Eu tenho um posicionamento político e não vejo razão para escondê-lo. Defendo o Sistema Único de Saúde. Defendo a educação pública, as universidades federais, a pesquisa científica, os professores e os programas sociais que procuram reduzir desigualdades.


Não considero essas instituições perfeitas. Pelo contrário. O SUS precisa de investimentos, fiscalização e melhorias constantes. A educação brasileira enfrenta problemas profundos. Universidades precisam prestar contas, governos devem ser cobrados e recursos públicos exigem transparência.


Nenhum partido é dono da honestidade. Nenhum governo está livre de falhas ou de denúncias de corrupção. E ninguém deveria relativizar irregularidades simplesmente porque foram cometidas por políticos de sua preferência. Mas reconhecer essas imperfeições não significa aceitar que direitos fundamentais sejam tratados como privilégios dispensáveis.


O SUS não precisa ser defendido apenas por quem depende diariamente de seus serviços. Uma universidade pública não merece existir somente porque alguém da nossa família estuda nela. E um programa social não perde sua legitimidade simplesmente porque não precisamos dele neste momento.





É justamente aí que começa a ideia de sociedade. A capacidade de reconhecer que existem necessidades além das nossas. Que outras pessoas enfrentam dificuldades que talvez nunca tenhamos experimentado. Que a dignidade de alguém não deveria depender de sua renda, de sua origem ou de suas convicções. Isso não é ingenuidade. É compreender que a vida coletiva exige responsabilidades que ultrapassam os interesses individuais.



E há algo profundamente contraditório em celebrar os benefícios da ciência enquanto se despreza quem a produz. Em exigir profissionais qualificados enquanto se humilha quem ensina. Em falar obsessivamente de liberdade enquanto se normalizam ameaças contra pessoas que pensam diferente.


Tenho dificuldade de enxergar qualquer sinal de evolução nessas atitudes. A discussão também passa pela maneira como consumimos cultura. Música e política nunca viveram em compartimentos completamente separados. O rock, em particular, tem uma extensa tradição de enfrentamento às guerras, ao racismo, à censura, às desigualdades e aos abusos de autoridade.


Isso não significa que todo músico seja progressista ou que todo admirador de rock precise compartilhar uma mesma orientação política. A própria história do gênero é muito mais ampla e contraditória do que qualquer definição ideológica. Mas ignorar deliberadamente as mensagens políticas de determinadas obras é esvaziar uma parte essencial daquilo que seus autores procuraram comunicar.


Do the Evolution não foi concebida como uma celebração inocente da humanidade. Seu narrador é uma representação crítica da arrogância humana. Seu videoclipe não glorifica o autoritarismo, a exploração ou a guerra. Exibe suas consequências de maneira brutal.

A canção continua sendo uma advertência.


E uma das coisas mais assustadoras em sua mensagem é perceber que não precisamos imaginar um futuro distópico para reconhecer muitos dos comportamentos apresentados na animação. Eles fazem parte da nossa história. E alguns continuam bastante presentes. Não quero uma sociedade na qual a liberdade de expressão seja confundida com licença para humilhar, na qual professores sejam transformados em inimigos públicos ou na qual a ciência precise disputar legitimidade com a ignorância organizada.


Quero que seja possível discordar politicamente sem transformar o outro em alguém que merece ser destruído. E não considero isso uma exigência excessiva. Ao contrário, parece o mínimo que deveríamos esperar de uma civilização que se orgulha tanto de suas conquistas.


Talvez a ironia mais devastadora de Do the Evolution esteja justamente no orgulho de seu protagonista. Ele acredita representar o ponto mais avançado da existência humana. Não percebe que a sofisticação de suas ferramentas apenas ampliou sua capacidade de causar sofrimento.


Quase três décadas depois, a provocação permanece intacta. Podemos construir máquinas capazes de realizar tarefas antes inimagináveis. Podemos dominar tecnologias, acumular informações e desenvolver novos sistemas de comunicação. Mas nada disso garante que estejamos nos tornando pessoas melhores.


Porque evolução tecnológica não é sinônimo de evolução moral. E uma sociedade que aprende a fazer praticamente tudo, menos respeitar a vida, deveria ter um pouco mais de cuidado antes de se declarar civilizada.



Comentários


O Teoria Cultural nasceu da paixão pela cultura pop, pela música, pelo cinema e pela arte como forma de expressão e entendimento do mundo. O projeto começou como uma página no Instagram, inicialmente chamada Caro Vinil, voltada à celebração dos discos, do rock e das narrativas culturais que atravessam gerações. Saiba mais

  • Whatsapp
  • Instagram
  • Facebook
  • X
  • Tópicos

Categorias + Comentadas

Institucional

Teoria Cultural

INSCREVA SEU EMAIL PARA RECEBER

ATUALIZAÇÕES, POSTS E NOVIDADES

© 2026 Todos os direitos reservados a Teoria Cultural |  PRODUZIDO CRIADO E DESENVOLVIDO, com EXPRESSÃO SITES

Expressão Sites
bottom of page