Lô Borges (1972): o disco que ensinou a música brasileira a andar descalça pela cidade
- Marcello Almeida
- há 22 horas
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Um álbum íntimo, urbano e silenciosamente revolucionário, criado em plena ditadura, onde a juventude virou linguagem

O dia 10 de janeiro vai chegando ao fim, e eu simplesmente não poderia deixar passar em branco essa data sem falar sobre ele, mencionar ele, Lô Borges, um baita músico, compositor e instrumentista da nossa música brasileira. E, para homenageá-lo nessa data, nada melhor do que falar do seu emblemático, icônico e atual demais disco de 1972, Lô Borges. Então segue aqui este texto, como uma forma de tentar dizer, em meras palavras, a preciosidade e a magistralidade de Lô Borges.
Em 1972, em pleno endurecimento da ditadura militar, a música brasileira vivia um paradoxo. Enquanto o país era vigiado, censurado e violentado institucionalmente, a criação artística encontrava brechas para respirar. Foi nesse contexto que Lô Borges chegou ao mundo. Um disco silenciosamente revolucionário, sem slogans, sem palavras de ordem, mas profundamente político no gesto de existir.
A capa diz muito antes mesmo da primeira nota. Um par de tênis gasto, sujo, fotografado sem glamour. O nome “Lô Borges” em vermelho, quase cru, quase infantil. Um cenário urbano, concreto, sem ornamento. Aquela imagem não vende um sonho. Ela afirma um lugar. Um jovem brasileiro, de Belo Horizonte, vivendo o agora, pisando o chão da cidade, carregando o peso e a liberdade de uma geração que não se encaixava nos discursos prontos.
O álbum nasce na esteira do Clube da Esquina, mas não é uma continuação direta do projeto coletivo. É outra coisa. Mais íntima, mais fragmentada, mais urbana. Se o Clube da Esquina apontava para o encontro, este disco aponta para o indivíduo. Para o sujeito em trânsito, em dúvida, em observação. Lô tinha pouco mais de 20 anos e já soava como alguém que entendia o mundo como processo, não como resposta.
O disco rompe com expectativas. Há rock, há folk, há bossa, há ecos do jazz e da música latina, mas nada soa como exercício de estilo. Tudo está a serviço da canção. Você Fica Melhor Assim tem delicadeza sem ingenuidade. Canção Postal carrega uma melancolia deslocada, quase estrangeira. O Caçador traz tensão, movimento, inquietação. Homem da Rua olha diretamente para o espaço urbano, para quem anda sem destino certo, sem promessa de chegada.
Pra Onde Vai Você talvez seja o coração conceitual do álbum. A pergunta não é retórica. É existencial. Em um país onde o futuro era controlado, perguntar “pra onde” já era um gesto de risco. Como o Machado e Eu Sou Como Você É aprofundam essa sensação de espelhamento, de identidade em construção, de juventude tentando se reconhecer no outro e no mundo. Uma canção composta por Lô em homenagem ao seu irmão, Márcio Borges.
Nada ali soa panfletário. E isso é central. Em 1972, quando muitos artistas precisavam codificar mensagens para driblar a censura, Lô escolheu outro caminho. Ele falou de gente, de sentimento, de cidade, de deslocamento. E isso também era resistência. Talvez até mais duradoura.
O disco Lô Borges não tenta explicar o Brasil daquele momento. Ele o sente. E, ao sentir, registra. A solidão urbana, o desejo de pertencimento, a dúvida como motor criativo, a juventude como estado permanente de busca. Tudo isso atravessa o disco sem nunca virar discurso fechado.
Ao lado de Milton Nascimento, Lô ajudou a expandir os limites da MPB, mas aqui ele faz algo ainda mais raro. Ele mostra que a música brasileira podia ser introspectiva, cotidiana, imperfeita e, ainda assim, profundamente sofisticada. Um disco que não grita. Ele permanece.
Revisitado hoje, mais de cinco décadas depois, Lô Borges soa atual não por nostalgia, mas por verdade. O tênis da capa continua sujo. As perguntas seguem sem resposta. E talvez seja exatamente por isso que esse álbum ainda importa tanto. Ele não oferece caminhos. Ele caminha junto.
E enquanto houver alguém disposto a escutar com atenção, esse disco seguirá sendo o retrato honesto de um tempo e, ao mesmo tempo, de todos os tempos.












