Emicida Racional Vol. 2: Mesmas Cores e Mesmos Valores, rapper faz um retorno às origens com maturidade, memória e potência lírica
- alexandre.tiago209
- há 17 horas
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“Emicida Racional Vol. 2: Mesmas Cores e Mesmos Valores” de Emicida é mais do que um tributo: ele é uma impactante reafirmação artística

Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, é um dos artistas mais relevantes do rap e do hip hop brasileiro contemporâneo. Desde o fim dos anos 2000, ele transformou rimas em ferramentas de reflexão social, identidade e sensibilidade, conquistando respeito que atravessa o rap e dialoga com a MPB, a literatura, a televisão e a cultura pop. Em 11 de dezembro de 2025, o rapper encerra o ano com um lançamento forte e simbólico: “Emicida Racional Vol. 2: Mesmas Cores e Mesmos Valores”, um álbum que reafirma sua grandeza artística ao revisitar raízes com consciência e amadurecimento.
Com 10 faixas e cerca de 42 minutos e 7 segundos de duração, o disco surge seis anos após AmarElo (2019) e propõe um movimento diferente: menos conciliador, mais cru e introspectivo. O projeto funciona como homenagem e releitura da obra dos Racionais MC’s, especialmente do álbum Cores & Valores (2014), sem cair na imitação. Aqui, Emicida articula referências do rap nacional com reflexões sobre memória, pertencimento, ética, luto e vivência negra e periférica no Brasil atual.
A sonoridade é marcada por escolhas sofisticadas e simbólicas. A presença do pianista Amaro Freitas imprime delicadeza, tensão e silêncio como discurso, enquanto participações como Cassiano, Rashid, Projota e Dona Jacira — mãe do rapper, falecida em julho de 2025 — ampliam o impacto emocional do álbum. A ausência de Fióti, irmão e parceiro histórico, também ecoa como silêncio significativo dentro da narrativa do disco.
A faixa de abertura, “Bom Dia Né Gente? (Ou Saudade em Modo Maior)”, já estabelece o tom confessional do trabalho. Entre falas, emoções à flor da pele e piano minimalista de Amaro Freitas, Emicida constrói um diálogo entre passado e presente que comove sem artifícios com as vozes embargas do rapper e de Dona Jacira.
Em músicas como “Us Memo Preto Zica” e “Finado Neguim Memo?”, o rapper assume versos ainda mais diretos e densos, evidenciando a influência dos Racionais não apenas na lírica, mas também na estética sonora e traz o piano de Amaro Freitas de forma acolhedora e intimista.
O álbum também se permite respirar. As faixas instrumentais “O Que Noiz Faz Com Essa Dor” e “A Coisa Mais Esperançosa e Mais Dilacerante São a Mesma” revelam uma escolha artística corajosa: deixar que o groove e a black music falem por si, reforçando a ancestralidade musical que sustenta o projeto e que soa também como homenagem instrumental à música negra brasileira.
Ainda dentro do universo da black music brasileira, Cassiano — autor de clássicos como “A Lua e Eu” e “Coleção” — surge como uma presença emblemática em “Quanto Vale o Show Memo?”. A faixa se destaca como um dos grandes momentos do álbum, unindo lirismo autobiográfico a uma interpretação carregada de significado. O encontro consagra versos potentes, atemporais e marcantes, reforçando o diálogo entre gerações e evidenciando a força histórica e emocional da música negra brasileira.
Esse viés autobiográfico também se manifesta em “A Mema Praça”, faixa que conta com as participações de Rashid e Projota. Juntos, eles revisitam o episódio que marcou a Virada Cultural de 2007 e resultou na proibição de shows de rap no centro de São Paulo por anos, transformando memória e indignação em discurso artístico. A canção funciona ainda como uma releitura contemporânea de “A Praça”, dos Racionais MC’s, atualizando o tema com novas camadas de reflexão. O resultado é uma música atmosférica, intensa e visceral, que traduz com força o peso simbólico daquele momento para o rap nacional.
O álbum se encerra com “(outro) A Próxima Mensagem que Você Precisa Está Exatamente Onde Você Está Agora”, faixa de 10 minutos e 4 segundos de duração, ela entrega um desfecho épico, profundo e altamente simbólico. O encerramento soa satisfatório e luminoso justamente por cumprir seu propósito: homenagear os Racionais MC’s sem abrir mão das próprias ideologias, identidades e valores de Emicida, reafirmando coerência artística, respeito às origens e maturidade criativa.
“Emicida Racional Vol. 2: Mesmas Cores e Mesmos Valores” de Emicida é mais do que um tributo: ele é uma impactante reafirmação artística. Um disco que olha para trás com gratidão, encara o presente com lucidez e aponta caminhos possíveis para o futuro do rap nacional. Sem a estética expansiva de AmarElo, mas igualmente necessário, o álbum se firma como um dos trabalhos mais fortes e relevantes da carreira de Emicida — e como um capítulo essencial da música brasileira recente.












