O fim, segundo David Bowie
- Marcello Almeida
- há 11 horas
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Dez anos… faltam palavras, faltam meios de dizer, falta ele aqui

Dez anos depois, falar da morte de David Bowie ainda não é simples. Não porque o assunto seja pesado demais, mas porque Bowie nunca tratou o fim como algo óbvio. Ele não transformou a morte em espetáculo, nem em drama público. Preferiu encará-la com uma lucidez desconcertante, quase silenciosa.
A morte sempre esteve presente em sua obra, mas raramente de forma explícita. Ela aparecia como sombra, como deslocamento, como a sensação de não pertencer totalmente a lugar nenhum. Em Blackstar, isso muda. Não no sentido do choque, mas da consciência. Ali, Bowie parece saber exatamente onde está e quanto tempo ainda tem. E, mesmo assim, escolhe criar.
Quando penso nisso, me chama atenção a ausência de desespero. Blackstar não soa como pedido de socorro, nem como confissão tardia. Não há tentativa de comover o ouvinte. O disco pede outra coisa. Pede escuta. Pede tempo. Pede que a gente aceite ficar diante do desconforto sem tentar resolvê-lo rápido demais.
Bowie não canta a morte como quem luta contra ela. Ele conversa. Observa. Há dor, claro, há fragilidade, há um corpo que já não responde da mesma forma. Mas existe também uma serenidade estranha, quase difícil de digerir. A serenidade de quem entende que não controla mais o futuro, mas ainda controla o gesto. A forma de dizer. O momento de sair.
Lazarus é um bom exemplo disso. Não é uma música sobre partir, no sentido clássico. É uma música sobre estar suspenso. Sobre não pertencer mais completamente a este mundo, mas ainda não ter ido embora. Quando eu ouço, não sinto o fim. Sinto deslocamento. Como se Bowie estivesse, mais uma vez, habitando esse espaço entre identidades, entre estados, entre tempos.
E isso diz muito sobre ele. David nunca gostou de lugares fixos. Nunca pareceu confortável com definições finais. Talvez por isso tenha encarado a morte não como ruptura absoluta, mas como transição. Algo estranho, indefinido, incômodo. Exatamente o tipo de território que sempre alimentou sua arte.
Há algo profundamente humano nessa postura. Em uma cultura que foge da morte, disfarça o envelhecimento e trata o fim como fracasso, Bowie escolheu olhar direto. Não romantizou. Não dourou a dor. Não tentou transformar o próprio desaparecimento em mito heroico. Apenas aceitou que o tempo tem um limite e decidiu o que fazer com o tempo que restava.
Quando penso nisso, percebo como Blackstar dói mais hoje do que em 2016. Não só porque Bowie se foi, mas porque o disco nos obriga a encarar o que evitamos. A finitude. O corpo. O fato de que somos provisórios. De que as coisas realmente importantes não podem ser adiadas indefinidamente. Ele não tentou vencer a morte. Não tentou enganá-la. Não tentou suavizá-la para torná-la mais palatável. Ele transformou o fim em obra- prima. Em gesto. Em voz eterna. E fez isso sem roubar a dignidade do silêncio.
Talvez esse seja o fechamento mais honesto possível para um artista como ele. Bowie não nos ensinou a morrer, no sentido literal. Ele nos ensinou a olhar para o fim sem desviar os olhos. A entender que a consciência da morte não empobrece a vida. Pelo contrário. Dá peso. Dá urgência. Dá verdade.
Dez anos depois, o que ele deixou não é apenas ausência. É legado. Um eco que não pede saudade automática nem idolatria vazia. Pede pausa. Pede reflexão. Pede coragem. E talvez seja por isso que, mesmo em silêncio, David Bowie ainda diga tanto.











