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O mundo depois de David Bowie: arte, liberdade e humanidade em estado puro

Do arrepio provocado por Heroes em Stranger Things à permanência de um legado que atravessa gerações.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Eu me vi pensando em toda a grandeza de David Bowie após ser impactado e sentir os cabelos do corpo arrepiarem com o fechamento de Stranger Things ao som de Heroes. Eu já estava arrepiado com Purple Rain, de Prince, só para constar. Aquilo foi emoção pura e dialoga abertamente com o mundo e com a proposta da série criada pelos irmãos Duffer.



Este texto sobre esse artista fora do tempo, fora da curva, é o que vier à cabeça — uma tentativa mais do que frustrada e falha de tentar entender toda a magia que perpetua sua obra, seu legado. E fico pensando o quanto somos privilegiados por termos vivido (viver) em um tempo, em que esse homem viveu. O quanto somos ricos pelo simples fato de termos a oportunidade de ouvir seus discos, sua visão de mundo e suas histórias sobre nós.


Há momentos em que a arte abandona qualquer distância segura e atravessa o corpo antes de alcançar a razão. Nesse caso, me asseguro em dizer que o arrepio vem primeiro; o pensamento corre atrás. Bowie sempre operou nesse território. Sua música nunca foi apenas trilha sonora; foi experiência física, emocional, quase espiritual. Heroes, naquele contexto, não fala de heroísmo grandioso. Fala de outra coisa. Fala de resistência íntima. De continuar existindo quando tudo parece desabar. E é exatamente aí que Bowie sempre esteve.


Ele foi, e continua sendo, um artista fora da curva porque nunca se acomodou em fórmulas, nem estéticas, nem identitárias. Bowie cantou sobre a humanidade em sua forma mais crua: medo, desejo, solidão, transformação. Cantou sobre pessoas comuns tentando se reconhecer em meio ao caos do mundo. Não como quem aponta respostas, mas como quem oferece uma direção, um norte. Cada canção é um espelho da alma.


E outro ponto interessante que emerge em meio a essa reflexão é lembrar que, muito antes de o debate ganhar nome, palco e hashtags, David Bowie já falava de gênero, identidade e liberdade como algo natural, fluido, humano. Ele não apontava caminhos prontos. Apenas dizia, com elegância e coragem, que você podia ser quem quisesse. E isso, em qualquer tempo, é um gesto profundamente político.


Seu legado é inestimável não apenas pela quantidade de obras essenciais, mas pela inquietação permanente. Nosso camaleão jamais se repetiu. Cada fase foi ousada. Cada personagem, uma pergunta lançada ao mundo. Ziggy, Aladdin Sane, o Duque Branco, o artista crepuscular de Blackstar — não eram máscaras vazias, mas formas de investigar o tempo, o corpo, a mente e o futuro.


Dizer que o mundo parece ter descido ladeira abaixo depois de sua morte, em 10 de janeiro de 2016, pode soar exagerado; eu prefiro dizer que é licença poética. Mas há algo de verdadeiro nisso. Como se Bowie, aquele camaleão charmoso, fosse uma linha tênue de equilíbrio, uma espécie de sustentação simbólica que ajudava a manter o caos em suspensão por meio da arte, da imaginação e da coragem criativa. Como se, ao partir, ele tivesse deixado o mundo um pouco mais exposto.



No fim, o impacto de Heroes em Stranger Things não é apenas nostalgia ou acerto dramático. É reconhecimento. É o corpo entendendo antes da razão que certas obras não pertencem ao passado. Elas continuam acontecendo dentro da gente. E Bowie, com toda a sua grandeza e mistério, segue ali, impossível de explicar completamente, mas absolutamente essencial.




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