David Bowie e o direito de mudar
- Marcello Almeida
- há 17 horas
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Há artistas que passam pela história deixando obras. E há aqueles mais raros que deixam permissões.

Falar de David Bowie dez anos depois de sua morte (em 10 de janeiro de 2016) talvez só faça sentido se a gente parar de tentar explicá-lo. Bowie escapa das biografias certinhas, das listas definitivas, das homenagens que soam como encerramento. Ele nunca foi um ponto final. Sempre foi travessia.
Bowie não nos deixou apenas músicas, discos ou personagens. Ele deixou algo mais difícil de nomear: uma permissão silenciosa. A permissão para mudar. Para não sustentar versões antigas de nós mesmos só porque elas funcionaram um dia. Para aceitar que a identidade não é um lugar seguro, mas um território em constante movimento.
Em um mundo que cobra coerência como virtude máxima, Bowie escolheu a contradição. E não como pose, mas como necessidade. Quando algo começava a se acomodar demais, ele se deslocava. Quando um personagem era entendido, ele o abandonava. Quando uma estética virava conforto, ele a quebrava. Não havia apego à própria imagem, apenas compromisso com a inquietação.
Talvez por isso Ziggy Stardust tenha sido morto em público. Não por desprezo ao personagem, mas porque Bowie entendia algo essencial: repetir a si mesmo é uma forma elegante de desaparecer. Mudar, ao contrário, é um gesto de sobrevivência. Um risco. Um salto no escuro.
Bowie parecia desconfiar profundamente da estabilidade. E, ao mesmo tempo, era profundamente humano. Havia fragilidade ali, havia medo, havia excesso, havia silêncio. A diferença é que ele nunca tentou esconder essas fissuras. Transformou dúvida em linguagem. Transformou desconforto em arte. Transformou crise em movimento.
Antes que o mundo tivesse palavras prontas para falar de gênero, identidade ou fluidez, Bowie já vivia tudo isso sem pedir explicação. Não havia manifesto, não havia discurso.
Havia gesto. Corpo. Olhar. Presença. Ele não dizia o que era certo ou errado. Apenas mostrava que havia outras formas de existir.
Isso é profundamente humano. Porque ser humano é, antes de tudo, não ser definitivo.
Bowie nunca pareceu interessado em dar respostas. Sua arte sempre foi mais parecida com uma pergunta aberta, dessas que ficam aí por muito tempo. Quem sou eu hoje? E se eu não for mais amanhã? E se mudar não for fracasso, mas coragem?
Até a morte, ele tratou com essa lucidez desconcertante. Blackstar não soa como lamento, nem como drama. Soa como consciência. Um artista que olha para o fim sem negar, sem dourar, sem fugir. Há dor ali, claro. Mas há também serenidade. A compreensão de que tudo é transitório, inclusive nós mesmos.
Dez anos depois, o mundo parece mais acelerado, mais barulhento, mais ansioso por certezas. Paradoxalmente, parece ter menos coragem de mudar. Há medo de errar, medo de se contradizer, medo de abandonar versões antigas que já não dizem mais nada. Nesse cenário, Bowie faz falta como ideia viva.
Não porque ele era um gênio inalcançável, mas porque nos lembrava de algo simples e esquecido: viver também é um ato criativo. E criar exige risco. Exige desapego. Exige a coragem de não ser sempre o mesmo.
Talvez esse seja o verdadeiro legado de David Bowie. Não a música. Não os personagens. Não os discos. Mas a certeza íntima de que mudar não é trair quem somos. É, muitas vezes, a única forma honesta de continuar sendo.











