10 anos de Blackstar, de David Bowie, e parece que foi ontem
- Marcello Almeida
- há 9 horas
- 4 min de leitura
'Blackstar', no mínimo, é uma carta aberta de despedida ao mundo, escrita com tamanha genialidade e sensibilidade

Quando olho para Blackstar, não consigo tratá-lo como um disco comum. Nunca consegui. Ele não se apresenta como obra para ser consumida, explicada ou encaixada em listas. Blackstar exige silêncio, tempo e um tipo raro de escuta, aquela em que a gente aceita não entender tudo de imediato. Talvez porque ele não queira ser entendido. Talvez porque ele saiba que certas verdades só se revelam depois.
David Bowie sempre foi essa figura impossível de fixar. Um artista que nunca se permitiu permanecer inteiro por muito tempo. Sempre que parecia reconhecível, ele se desfazia. Sempre que o mundo achava que o havia compreendido, ele trocava de pele. Por isso, sempre que me volto pra ele, a imagem que me vem não é a de um ícone pop cristalizado, mas a de um corpo em constante mutação, consciente do tempo, do desgaste, da finitude. Bowie nunca fingiu que o fim não existia. Ele apenas decidiu transformá-lo em arte.
Há algo profundamente simbólico no fato de Blackstar ter sido lançado em 8 de janeiro de 2016. Não como uma despedida anunciada, mas como um gesto silencioso. Dois dias depois, o mundo entenderia que aquele disco não falava sobre a morte, ele falava a partir dela. Olhar para essas canções hoje, é entender que Bowie não estava se despedindo de nós. Estava organizando seus próprios escombros. Estava escolhendo como permanecer.
Sempre me chama atenção como esse álbum soa fora do tempo. Não dialoga com tendências, não tenta agradar, não oferece conforto. Bowie, ao lado de Tony Visconti, constrói um território sonoro áspero, atravessado por jazz fragmentado, pulsões eletrônicas, silêncios incômodos e uma sensação constante de instabilidade. É música que parece respirar com dificuldade. Música que não resolve tensões. Música que aceita a falha como linguagem.
“Lazarus” é aquela canção na qual é difícil escapar da sensação de estar diante de alguém que já atravessou o espelho. “Look up here, I’m in heaven” não soa como provocação. Soa como constatação. Bowie canta como quem já não pertence completamente a este lado. Há cicatrizes invisíveis, dramas irrecuperáveis, uma liberdade que só chega quando o corpo começa a falhar. Não é romantização da morte, é intimidade com ela.
Esse diálogo se aprofunda quando lembro de O Homem que Caiu na Terra. Aquele estrangeiro deslocado, quebrado, incapaz de se integrar totalmente, parece ecoar em Blackstar como uma sombra tardia. Quando escuto o disco com atenção, percebo que Bowie revisita esse personagem não como ficção, mas como espelho. O estranho que caiu na Terra envelheceu. E agora observa o mundo com um misto de lucidez e exaustão.
A faixa-título é, para mim, o coração escuro do álbum. Quase dez minutos de uma travessia inquietante, que se move entre o ritual e o colapso. Ela não avança em linha reta, ela se contorce. Em 2016, parecia apenas uma visão abstrata, quase apocalíptica. Hoje, soa como um aviso que não quisemos ouvir. Desgovernos, intolerância, violência, isolamento. Mesmo assim, a estrela preta não é apenas um símbolo de fim. Ela também pulsa. Ela insiste. Há ali uma esperança torta, frágil, mas ainda viva.
Em “’Tis a Pity She Was a Whore”, é possível compreender como Bowie ainda se permitia experimentar até o último fôlego. Sons metálicos, uma bateria nervosa, uma interpretação vocal que oscila entre o controle e o colapso. Não há vaidade. Não há tentativa de soar elegante. Há urgência. Há tensão. Há um corpo que sabe que não pode mais desperdiçar palavras.
E então o disco se encaminha para o fim, não como encerramento, mas como exposição. “Dollar Days” e “I Can’t Give Everything Away” são momentos em que Bowie deixa a máscara cair apenas o suficiente. Não completamente. Nunca completamente. Mas o bastante para vermos as marcas. Quando ele canta “I’m dying to push their backs against the grain”, não parece um lamento. Parece um último gesto de resistência. Um artista que, mesmo diante do fim, se recusa a se alinhar.
“I Can’t Give Everything Away” sempre me desmonta. Talvez porque ela aceite o limite. Bowie não promete respostas, não oferece catarse. Ele admite que não pode entregar tudo. E talvez aí esteja sua maior honestidade. Nem toda obra precisa se explicar. Nem todo artista deve se revelar por inteiro. Há beleza também no que permanece oculto.
Essa é a grande força de Blackstar. Ele não fecha ciclos, ele os deixa em suspensão. Não tenta controlar sua própria narrativa póstuma. Apenas existe. Um disco estranho, denso, silenciosamente devastador. Um trabalho que não busca eternidade, mas acaba alcançando algo ainda mais raro: permanência.
Essa imortalidade não é mitológica. É dolorosa. É concreta. Bowie vive porque deixou perguntas abertas. Porque recusou respostas fáceis. Porque transformou o fim em linguagem. E quando volto a esse disco, dez anos depois, percebo que ele continua ali, não como lembrança, mas como presença. Olhando para frente. Sempre.












