Por que ainda ouvimos “The Whole of the Moon”, do The Waterboys
- Marcello Almeida
- 25 de fev.
- 3 min de leitura
Quando você olha para o luar no céu, você vê a lua crescente ou você a enxerga inteira?

Tem algo muito legal sobre The Whole of the Moon, que é a própria fala do Mike Scott, vocalista do Waterboys, ele afirmou que escreveu a letra inspirado por todas aquelas adversidades da vida, mas sobretudo aquelas pessoas que possuem uma visão visionária, capazes de enxergar oportunidades e luz onde muitos só veem obstáculos.
E isso me leva para a linda versão que Fiona Apple fez para a série The Affair, em 2019, mais precisamente para o final da série. Porém, o vídeo da sessão de gravação repercutiu muito durante a pandemia da Covid- 19, com aquela atmosfera mais caseira, que conversa plenamente com a narrativa da música. Recomendo: clique ali no nome dela, em azul, e saboreie essa maravilha.
E isso tem tudo a ver. Essa é uma canção sobre ambição, sobre arte, fé e sobre enxergar além. Por que ouvimos essa música? Vai ver é porque ela permanece tão viva, tão atual. É aquela faixa que não envelhece, ela continua olhando mais longe do que a gente.
Lançada no longínquo ano de 85, no ótimo disco This Is the Sea, que traz aquela capa maravilhosa em tons de preto, a canção narra a história de duas pessoas que olham para o mesmo céu, porém enxergam coisas diferentes. Um deles vê a lua crescente, o outro vê a lua inteira.
Ainda de acordo com Scott, a ideia era justamente essa: a canção precisava soar como um retrato nostálgico do próprio contraste. Sabe aquela coisa de pequenez versus grandeza, timidez versus ousadia. É bem isso que The Whole of the Moon escancara na nossa cara, ou melhor dizendo, em nossos ouvidos. E tem aquela voz gostosa dele, embalada por arranjos saltitantes que conversam o tempo todo com a música. Aquela coisa do artista que observa contra o artista que se joga- lembra David Bowie né?
A letra em si nunca se revela por inteiro, ela não entrega quem é aquele “you”. Pode ser eu, pode ser você, pode ser o amor da sua vida, da minha, pode ser um rival. Pode até ser algum mentor. Pode ser o próprio ego, pode ser aquele amor idealizado, projetado. Não faz diferença, o charme habita justamente nessa ambiguidade. É isso que mantém a chama dessa canção viva, queimando em você durante pouco mais de quatro minutos. Eu sei, você vai dar o play novamente.
Porque, musicalmente, ela explode, te faz sair cantando pela casa, te faz esquecer do mundo lá fora por instantes.

Não dá pra falar de The Whole of the Moon sem mencionar que ela começa com aquele jeito introspectivo, quase contida, e vai ganhando proporções, camadas. São pianos, metais, guitarras que se expandem e ganham o mundo, aquele sax sensacional, a bateria que soa como uma marcha triunfal. Não é exagero dizer que ali o The Waterboys inaugurava o que chamaram de “big music”. Um som expansivo, quase espiritual, que misturava rock, folk, poesia beat e uma ambição cinematográfica rara para a época.
Isso foi genial. Em 1985, o mundo estava sendo dominado pelo synthpop e por toda aquela estética plastificada vinda da MTV. Mas essa canção aqui, essa aqui não. Ela nada contra a maré, caminha na direção oposta. Soava grandiosa para a época, ainda é, sem ser artificial. Era épica sem soar meramente projetada e calculada para isso. E outra, ela é emocional, desperta sensações, eleva sua autoestima às alturas, e tudo isso sem nunca parecer piegas.
E talvez por isso tenha demorado a ser devidamente reconhecida. O single não foi um sucesso imediato no Reino Unido. Só anos depois, relançada em 91, a música atingiu o Top 3 britânico. Às vezes o mundo demora para perceber quem estava olhando a lua inteira.
Demais, né?
Eu ainda ouço essa canção com aquele mesmo entusiasmo de quando a escutei pela primeira vez, porque ela fala de ambição sem ser cínica. Porque ela trata a genialidade sem arrogância. Porque sua narrativa é sobre alguém que foi maior, enxergou mais longe, ousou mais, se arriscou mais. E, em vez de ressentimento, o lugar é tomado por reverência. Num tempo em que tudo parece calculado para viralizar, “The Whole of the Moon” soa quase ingênua na sua grandiosidade. Mas é justamente essa falta de cálculo que a torna eterna.
A música nos lembra que arte não é sobre competir. É sobre enxergar. E às vezes a diferença entre uma vida comum e uma vida extraordinária está na coragem de levantar a cabeça e olhar o céu inteiro. Alguns veem um pedaço de luz. Outros veem a lua inteira.







