top of page

Por que ainda ouvimos “The Whole of the Moon”, do The Waterboys

Quando você olha para o luar no céu, você vê a lua crescente ou você a enxerga inteira?

 Mike Scott, vocalista do Walterboys
Imagem: Reprodução

Tem algo muito legal sobre The Whole of the Moon, que é a própria fala do Mike Scott, vocalista do Waterboys, ele afirmou que escreveu a letra inspirado por todas aquelas adversidades da vida, mas sobretudo aquelas pessoas que possuem uma visão visionária, capazes de enxergar oportunidades e luz onde muitos só veem obstáculos.


E isso me leva para a linda versão que Fiona Apple fez para a série The Affair, em 2019, mais precisamente para o final da série. Porém, o vídeo da sessão de gravação repercutiu muito durante a pandemia da Covid- 19, com aquela atmosfera mais caseira, que conversa plenamente com a narrativa da música. Recomendo: clique ali no nome dela, em azul, e saboreie essa maravilha.



E isso tem tudo a ver. Essa é uma canção sobre ambição, sobre arte, fé e sobre enxergar além. Por que ouvimos essa música? Vai ver é porque ela permanece tão viva, tão atual. É aquela faixa que não envelhece, ela continua olhando mais longe do que a gente.


Lançada no longínquo ano de 85, no ótimo disco This Is the Sea, que traz aquela capa maravilhosa em tons de preto, a canção narra a história de duas pessoas que olham para o mesmo céu, porém enxergam coisas diferentes. Um deles vê a lua crescente, o outro vê a lua inteira.


Ainda de acordo com Scott, a ideia era justamente essa: a canção precisava soar como um retrato nostálgico do próprio contraste. Sabe aquela coisa de pequenez versus grandeza, timidez versus ousadia. É bem isso que The Whole of the Moon escancara na nossa cara, ou melhor dizendo, em nossos ouvidos. E tem aquela voz gostosa dele, embalada por arranjos saltitantes que conversam o tempo todo com a música. Aquela coisa do artista que observa contra o artista que se joga- lembra David Bowie né?


A letra em si nunca se revela por inteiro, ela não entrega quem é aquele “you”. Pode ser eu, pode ser você, pode ser o amor da sua vida, da minha, pode ser um rival. Pode até ser algum mentor. Pode ser o próprio ego, pode ser aquele amor idealizado, projetado. Não faz diferença, o charme habita justamente nessa ambiguidade. É isso que mantém a chama dessa canção viva, queimando em você durante pouco mais de quatro minutos. Eu sei, você vai dar o play novamente.


Porque, musicalmente, ela explode, te faz sair cantando pela casa, te faz esquecer do mundo lá fora por instantes.


Waterboys
ITV/Shutterstock

Não dá pra falar de The Whole of the Moon sem mencionar que ela começa com aquele jeito introspectivo, quase contida, e vai ganhando proporções, camadas. São pianos, metais, guitarras que se expandem e ganham o mundo, aquele sax sensacional, a bateria que soa como uma marcha triunfal. Não é exagero dizer que ali o The Waterboys inaugurava o que chamaram de “big music”. Um som expansivo, quase espiritual, que misturava rock, folk, poesia beat e uma ambição cinematográfica rara para a época.



Isso foi genial. Em 1985, o mundo estava sendo dominado pelo synthpop e por toda aquela estética plastificada vinda da MTV. Mas essa canção aqui, essa aqui não. Ela nada contra a maré, caminha na direção oposta. Soava grandiosa para a época, ainda é, sem ser artificial. Era épica sem soar meramente projetada e calculada para isso. E outra, ela é emocional, desperta sensações, eleva sua autoestima às alturas, e tudo isso sem nunca parecer piegas.


E talvez por isso tenha demorado a ser devidamente reconhecida. O single não foi um sucesso imediato no Reino Unido. Só anos depois, relançada em 91, a música atingiu o Top 3 britânico. Às vezes o mundo demora para perceber quem estava olhando a lua inteira.


Demais, né?



Eu ainda ouço essa canção com aquele mesmo entusiasmo de quando a escutei pela primeira vez, porque ela fala de ambição sem ser cínica. Porque ela trata a genialidade sem arrogância. Porque sua narrativa é sobre alguém que foi maior, enxergou mais longe, ousou mais, se arriscou mais. E, em vez de ressentimento, o lugar é tomado por reverência. Num tempo em que tudo parece calculado para viralizar, “The Whole of the Moon” soa quase ingênua na sua grandiosidade. Mas é justamente essa falta de cálculo que a torna eterna.



A música nos lembra que arte não é sobre competir. É sobre enxergar. E às vezes a diferença entre uma vida comum e uma vida extraordinária está na coragem de levantar a cabeça e olhar o céu inteiro. Alguns veem um pedaço de luz. Outros veem a lua inteira.



bottom of page