O corpo estranho de David Bowie no cinema
- Marcello Almeida
- há 23 horas
- 3 min de leitura
Há corpos que nunca se encaixam. E, justamente por isso, permanecem

Falar de David Bowie no cinema é aceitar, desde o início, que algo nunca vai se encaixar direito. E talvez seja exatamente isso que torna tudo tão potente. Bowie não entra em cena para pertencer. Ele entra para deslocar.
Existe sempre uma sensação estranha quando ele aparece na tela. Um olhar que demora um pouco mais do que o esperado. Um gesto que parece vir de outro lugar. Um corpo que não se dissolve completamente no personagem. Em qualquer outro ator, isso poderia soar como limitação. Em Bowie, vira linguagem. Ele não atua para ser natural. Atua para ser inquietante.
O cinema, em geral, pede identificação. Quer que a gente reconheça, compreenda, se projete. Bowie faz o contrário. Ele cria distância. Não porque seja frio, mas porque parece sempre estar um passo fora da realidade comum. Como se estivesse ali, mas também observando tudo de fora. Quando penso nisso, me dou conta de que Bowie nunca parece totalmente humano no cinema, e isso nunca foi um defeito.
Essa sensação encontra seu ponto mais forte em O Homem que Caiu na Terra. Thomas Jerome Newton não é apenas um alienígena tentando sobreviver entre humanos. Ele é a imagem perfeita do deslocamento absoluto. Alguém que chega com outra lógica, outro tempo, outra sensibilidade, e acaba sendo sugado, explorado, diluído pelo mundo ao redor.
O filme envelheceu, sim, em alguns aspectos. Mas a sensação central não. A ideia de alguém que nunca consegue se integrar completamente, que observa mais do que participa, que pertence a lugar nenhum, continua atual. O homem caiu. E nunca voltou. Talvez porque voltar significasse se adaptar. E Bowie nunca foi sobre adaptação.
Esse deslocamento não aparece só ali. Ele atravessa toda a presença de Bowie no cinema. Seja no Major Jack Celliers, em Furyo: Em Nome da Honra, seja no Rei dos Duendes de Labirinto. Em todos esses papéis, Bowie não constrói personagens no sentido clássico. Ele constrói presenças. Figuras que parecem existir além do roteiro, como se carregassem uma história própria fora da tela.

Quando penso nisso, fica claro que Bowie atuava como quem compunha. Seus personagens funcionam como canções encarnadas. Não seguem necessariamente um arco dramático tradicional. Têm clima, atmosfera, silêncio, pausa. Às vezes parecem mais estados de espírito do que pessoas completas. E isso os torna inesquecíveis.
Bowie nunca separou completamente suas linguagens. Música, imagem, corpo, cinema, tudo fazia parte do mesmo gesto criativo. O cinema não foi uma carreira paralela, nem um capricho. Foi mais um espaço para experimentar identidade, estranhamento e forma. Um lugar onde ele podia existir sem precisar se explicar.
Talvez por isso ele nunca tenha buscado reconhecimento como ator convencional. Nunca pareceu interessado em prêmios ou validação. O que importava era o risco. A sensação de não pertencimento. A possibilidade de ocupar a tela como alguém que não cabe nela.
No fim das contas, o Bowie do cinema é o mesmo Bowie da música, da mudança constante, do enfrentamento da morte. Um corpo estranho em qualquer lugar que estivesse. Alguém que nunca se acomodou dentro das expectativas alheias. Alguém que fez do deslocamento uma casa provisória.

Encerrar um dossiê sobre Bowie falando de cinema faz sentido por isso. Porque ali, sem a música como escudo, sobra apenas o corpo. E o corpo de David Bowie sempre disse muito. Disse que não pertencer também é uma forma de existir. Disse que o estranhamento pode ser beleza. Disse que, às vezes, é justamente quem não se encaixa que permanece.
E talvez seja por isso que, mesmo na tela, Bowie nunca tenha ido embora completamente. Ele continua ali. Deslocado. Observando. E, de algum modo, ainda nos encarando.











