IT’S THE LONG GOODBYE transforma dor, perda e luto em mais um disco marcante do The Twilight Sad
- Eduardo Salvalaio
- há 16 horas
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IT’S THE LONG GOODBYE é o tipo de disco que nos faz fechar os olhos por instantes, esquecer do mundo...

Pelo título de um filme ou mesmo pelos títulos das faixas de um disco temos uma imaginação do que vamos encontrar pela frente. Quando a semântica colabora para que entendamos, em parte, as mensagens que aquela obra (seja filme, seja um disco) quer nos passar.
Caso de IT’S A LONG GOODBYE, sexto e novo disco do The Twilight Sad. As faixas, por si só, confirmam as mensagens que o grupo deseja sempre passar (e consegue de forma impressionante a cada novo trabalho). Palavras como ‘Lose’, ‘Crash’, ‘Dead’, ‘Inhospitable’ e ‘Wound’, por si só, costumam estar relacionadas a sentimentos como dor, perda, luto, angústia, melancolia e escuridão.
Para o ouvinte que se importa também com as letras das canções, a identificação com os sentimentos citados anteriormente ainda se aprofunda mais, sobretudo quando ele passa a entender o que o artista quer expressar ali. Quando ele busca informações sobre como o disco chegou até ele, sobre o processo de desenvolvimento da obra em meio a uma fase delicada do artista, parece então que tudo chega mais forte e digno de contemplação.
The Twilight Sad é a banda que trouxe ‘Fourteen Autumns & Fifteen Winters’ (2007), um début sensacional permeado de forma equilibrada entre peso e melodia, onde acordeão fez bonito mesmo entre paredes de guitarras. Um grupo que passou a ser considerado por Robert Smith (The Cure) como um dos melhores da atualidade. Inclusive, o próprio líder do The Cure é amigo do vocalista James Graham.
Mas não se engane. O universo musical dos escoceses não chega de modo fácil. Apesar da emoção que a música deles transmite, estamos diante de letras que não retratam um mundo bonito, engraçado e caloroso. The Twilight Sad cria discos poderosos através de um processo nem tão assimilável e com experiências turbulentas.
Nestes últimos anos, o próprio vocalista passou por momentos complicados. Por conta de uma saúde mental dependendo de cuidados, acabou cancelando a turnê que sua banda faria junto com o The Cure. Além disso, o vocalista também se tornou pai e com isso as responsabilidades aumentaram.
‘WAITING FOR THE PHONE CALL’, por exemplo, que começa com uma belíssima guitarra, cita a própria angústia de James Graham a respeito de problemas ligados a sua saúde mental que estiveram relacionados com os tempos conturbados por qual passou: ‘So lay me down to die / For another sleepless night / Watch me die / No goodbye /Watch me die’.
Outro momento bem difícil foi quando o cantor perdeu sua mãe que sofria de demência em 2024. E Graham, a respeito de um tema tão complexo de retratar, consegue expor sobre a demência de sua mãe na canção ‘GET AWAY FROM IT ALL’, num verso eficiente e poderoso: ‘“Why are you slowly leaving me?”. Um homem de carne e osso que começa a sentir os efeitos da doença da mãe (que agora não é nem capaz de reconhecer seu próprio filho).
Seria algo como Sufjan Stevens fez no grandioso Carrie & Lowell (2015). Transformar a perda de um ente querido numa obra sensível, atemporal e que também servirá de compartilhamento para muitos instantes de nossas vidas. O ouvinte sendo cúmplice da dor e do luto do artista, fato normal para quem tem a humanidade diante de si.
Aqui, James e o guitarrista Andy MacFarlane são apoiados pelo baterista David Jeans (Arab Strap) e o baixista Alex Mackay (que participa de turnês junto com o Mogwai). Claro que com mais dois músicos experientes, o massivo instrumental não falha, até porque os grupos desses músicos sempre trazem uma sonoridade aprimorada e complexa.
A sonoridade continua impecável. Dotados de várias influências, fácil perceber resquícios do Shoegaze em ‘CHEST WOUND TO THE CHEST’ ou mesmo da década 80’s com a sonoridade grudenta de ‘INHOSPITABLE/HOSPITAL’.
‘DEAD FLOWERS’, um dos destaques do álbum, ganha contorno épico com 7 minutos, carregada de camadas e texturas dinâmicas dentro de uma atmosfera sombria. O mesmo acontece com 'TV PEOPLE STILL THROWING TVS AT PEOPLE' que, apesar de um início bem tímido, se transforma num Pós-punk bem furioso e pesado.
Também percebemos que os títulos das canções estão em letra maiúsculos. Lembra que eu citei como o título pode dizer muito? O grupo sabe disso e faz questão de frisar a mensagem que pretende passar, de nos chamar a atenção. Não escute apenas a nossa música, reflita também sobre o que ela pretende dizer. Aqui, cada palavra tem um poder imenso de mostrar a sinceridade do grupo.
IT’S THE LONG GOODBYE é o tipo de disco que nos faz fechar os olhos por instantes, esquecer do mundo ao redor e lembrar de nossos amigos e parentes queridos (muitos dos quais já se foram). Uma obra recheada de lições, essencial para reiterar o pensamento que ser humano é passar por tudo isso: dor, perda, tristeza e luto. E que, no final, ainda conseguimos curar as feridas e seguir em frente.







