top of page

IT’S THE LONG GOODBYE transforma dor, perda e luto em mais um disco marcante do The Twilight Sad

IT’S THE LONG GOODBYE é o tipo de disco que nos faz fechar os olhos por instantes, esquecer do mundo...

 The Twilight Sad
CRÉDITO: Abbey Raymonde

Pelo título de um filme ou mesmo pelos títulos das faixas de um disco temos uma imaginação do que vamos encontrar pela frente. Quando a semântica colabora para que entendamos, em parte, as mensagens que aquela obra (seja filme, seja um disco) quer nos passar.


 

Caso de IT’S A LONG GOODBYE, sexto e novo disco do The Twilight Sad. As faixas, por si só, confirmam as mensagens que o grupo deseja sempre passar (e consegue de forma impressionante a cada novo trabalho). Palavras como ‘Lose’, ‘Crash’, ‘Dead’, ‘Inhospitable’ e ‘Wound’, por si só, costumam estar relacionadas a sentimentos como dor, perda, luto, angústia, melancolia e escuridão.

 

Para o ouvinte que se importa também com as letras das canções, a identificação com os sentimentos citados anteriormente ainda se aprofunda mais, sobretudo quando ele passa a entender o que o artista quer expressar ali. Quando ele busca informações sobre como o disco chegou até ele, sobre o processo de desenvolvimento da obra em meio a uma fase delicada do artista, parece então que tudo chega mais forte e digno de contemplação.

 

The Twilight Sad é a banda que trouxe ‘Fourteen Autumns & Fifteen Winters’ (2007), um début sensacional permeado de forma equilibrada entre peso e melodia, onde acordeão fez bonito mesmo entre paredes de guitarras. Um grupo que passou a ser considerado por Robert Smith (The Cure) como um dos melhores da atualidade. Inclusive, o próprio líder do The Cure é amigo do vocalista James Graham.

 

Mas não se engane. O universo musical dos escoceses não chega de modo fácil. Apesar da emoção que a música deles transmite, estamos diante de letras que não retratam um mundo bonito, engraçado e caloroso. The Twilight Sad cria discos poderosos através de um processo nem tão assimilável e com experiências turbulentas.

 

Nestes últimos anos, o próprio vocalista passou por momentos complicados. Por conta de uma saúde mental dependendo de cuidados, acabou cancelando a turnê que sua banda faria junto com o The Cure. Além disso, o vocalista também se tornou pai e com isso as responsabilidades aumentaram.


‘WAITING FOR THE PHONE CALL’, por exemplo, que começa com uma belíssima guitarra, cita a própria angústia de James Graham a respeito de problemas ligados a sua saúde mental que estiveram relacionados com os tempos conturbados por qual passou: ‘So lay me down to die / For another sleepless night / Watch me die / No goodbye /Watch me die’.


 

Outro momento bem difícil foi quando o cantor perdeu sua mãe que sofria de demência em 2024. E Graham, a respeito de um tema tão complexo de retratar, consegue expor sobre a demência de sua mãe na canção ‘GET AWAY FROM IT ALL’, num verso eficiente e poderoso: ‘“Why are you slowly leaving me?”. Um homem de carne e osso que começa a sentir os efeitos da doença da mãe (que agora não é nem capaz de reconhecer seu próprio filho).

 

Seria algo como Sufjan Stevens fez no grandioso Carrie & Lowell (2015). Transformar a perda de um ente querido numa obra sensível, atemporal e que também servirá de compartilhamento para muitos instantes de nossas vidas. O ouvinte sendo cúmplice da dor e do luto do artista, fato normal para quem tem a humanidade diante de si.

 

Aqui, James e o guitarrista Andy MacFarlane são apoiados pelo baterista David Jeans (Arab Strap) e o baixista Alex Mackay (que participa de turnês junto com o Mogwai). Claro que com mais dois músicos experientes, o massivo instrumental não falha, até porque os grupos desses músicos sempre trazem uma sonoridade aprimorada e complexa.

 

A sonoridade continua impecável. Dotados de várias influências, fácil perceber resquícios do Shoegaze em ‘CHEST WOUND TO THE CHEST’ ou mesmo da década 80’s com a sonoridade grudenta de ‘INHOSPITABLE/HOSPITAL’.

 

‘DEAD FLOWERS’, um dos destaques do álbum, ganha contorno épico com 7 minutos, carregada de camadas e texturas dinâmicas dentro de uma atmosfera sombria. O mesmo acontece com 'TV PEOPLE STILL THROWING TVS AT PEOPLE' que, apesar de um início bem tímido, se transforma num Pós-punk bem furioso e pesado.

 

Também percebemos que os títulos das canções estão em letra maiúsculos. Lembra que eu citei como o título pode dizer muito? O grupo sabe disso e faz questão de frisar a mensagem que pretende passar, de nos chamar a atenção. Não escute apenas a nossa música, reflita também sobre o que ela pretende dizer. Aqui, cada palavra tem um poder imenso de mostrar a sinceridade do grupo.


 

IT’S THE LONG GOODBYE é o tipo de disco que nos faz fechar os olhos por instantes, esquecer do mundo ao redor e lembrar de nossos amigos e parentes queridos (muitos dos quais já se foram). Uma obra recheada de lições, essencial para reiterar o pensamento que ser humano é passar por tudo isso: dor, perda, tristeza e luto. E que, no final, ainda conseguimos curar as feridas e seguir em frente.


bottom of page