Baleia Azul e o som de quem ainda está construindo um lugar pra existir
- Marcello Almeida
- há 14 horas
- 3 min de leitura
Tem muita coisa viva acontecendo, você só precisa olhar pro lado

Direto do interior paulista, duo transforma o cotidiano em matéria-prima e mostra que o rock brasileiro independente está longe de morrer.
Existe um discurso meio preguiçoso que insiste em voltar: o de que “não tem mais nada acontecendo no rock brasileiro”, principalmente quando se trata de coisa nova, cantada em português, feita fora dos grandes centros ou longe das vitrines óbvias.
Mas basta sair do piloto automático. Aqui no TC, por exemplo, chegam e-mails o tempo todo. Bandas de tudo quanto é canto, gente fazendo som com verdade, com identidade, sem depender de validação externa pra existir. Tem muita coisa viva. Só não está gritando.
Não é um movimento organizado, com nome e manifesto. É mais difuso que isso. Bandas surgindo em cidades médias, gravando em casa, entendendo algoritmo, mas sem depender dele. Gente que cresceu ouvindo streaming, mas ainda acredita no impacto de uma música que fica.
A Baleia Azul é um desses encontros que acontecem quando você decide prestar atenção. Formada em Itu, no interior de São Paulo, por Xitos Marx e Tety Caires, a dupla surge sem pressa de parecer maior do que é. E isso já diz muito. Antes mesmo de lançar oficialmente suas músicas, eles já vinham criando uma relação com o público mostrando processo, bastidores, dúvidas, o tipo de coisa que normalmente fica escondida.
Como duo, a Baleia Azul trabalha com menos camadas e mais intenção. Não tem onde se esconder. Cada escolha aparece, e da melhor forma possível. “Talvez um dia o amor te encontre aí dentro, onde você se esconde”.
Não tem personagem. Tem caminho. Musicalmente, o que eles fazem atravessa o rock alternativo e o pop brasileiro com uma naturalidade interessante. Em alguns momentos, dá pra sentir ecos de Titãs na forma direta de lidar com o cotidiano, uma liberdade que lembra Rita Lee, e um cuidado de construção que aproxima, em espírito, de nomes como O Terno. Mas sem soar como cópia. São referências que atravessam, não que definem.
É nesse contexto que nasce o “EP do Sofá”. E o sofá aqui não é estética. É símbolo. É o lugar onde as coisas começam sem glamour. Onde você pensa demais, trava, tenta de novo. Onde a vida não é performática, é real. E talvez seja exatamente por isso que o EP funcione tão bem: ele não tenta escapar desse espaço.
Tem algo no som da Baleia Azul que remete a um outro tipo de escuta. Não necessariamente a uma estética específica, mas a uma sensação. Como se as músicas não estivessem ali só pra preencher um feed, mas pra ocupar um espaço. Existe uma continuidade, um cuidado, uma intenção que lembra a época em que a gente ouvia discos inteiros, quando a música não era só consumo rápido, mas companhia. E talvez seja isso que mais chama atenção: mesmo sendo um lançamento recente, o “EP do Sofá” carrega uma espécie de permanência.
“Longe do Horizonte” abre com essa sensação de deslocamento. Existe vontade de ir além, mas sem saber exatamente pra onde. É movimento interno, mais do que físico. “Parte de Mim” aprofunda essa ideia. Mais íntima, mais fragmentada, ela entende que identidade não é algo pronto. É feita de pedaços, e nem todos são confortáveis de assumir.
“Crescer” abandona qualquer romantização. Crescer aqui não tem nada de inspirador no sentido clássico. Tem dúvida, tem ruído, tem aquele incômodo de perceber que amadurecer não resolve tudo. “Contida” é tensão segurada. Quase silenciosa, mas densa. É o tipo de faixa que não explode, ela permanece, ocupando espaço por dentro.
“Lembrança” fecha o EP sem dar um fechamento de verdade. O passado não aparece como algo superado, mas como algo que continua ali, respirando baixo. O que a Baleia Azul entrega nesse trabalho não é um produto acabado. É um recorte honesto de processo. E talvez seja isso que falte em muita coisa hoje: menos preocupação em parecer pronto e mais coragem de existir no meio do caminho.
Porque, no fim, o “EP do Sofá” não é só sobre eles. É sobre uma cena inteira que segue acontecendo, mesmo sem holofote. Sobre gente criando, errando, insistindo. Sobre música feita antes da certeza. E, se você prestar atenção, tem muita coisa boa acontecendo.






