Ramones, prog rock e a revolta contra um rock que esqueceu de onde veio
- Marcello Almeida
- há 20 horas
- 3 min de leitura
Muito antes de ser estética, o punk foi uma reação direta ao excesso que dominava a música nos anos 70

Existe uma ideia confortável, e completamente equivocada, de que o punk surgiu como um raio em céu azul. Como se bandas como os Ramones tivessem simplesmente inventado uma nova linguagem do nada, movidas apenas por rebeldia e atitude. Mas basta olhar com mais atenção para o cenário da época para perceber que o punk não foi um acidente. Foi uma consequência.
Nos anos 1970, o rock mainstream havia se afastado radicalmente de suas origens. O que antes era direto, urgente e juvenil começou a se transformar em algo grandioso, técnico e, muitas vezes, distante. O rock progressivo dominava as rádios, com bandas como Yes, Genesis e Emerson Lake & Palmer criando composições longas, complexas e altamente elaboradas. Para muitos, aquilo representava evolução. Para outros, era exatamente o oposto: um desvio.
Ao mesmo tempo, a disco music crescia como fenômeno cultural, ocupando pistas e rádios com uma estética completamente diferente do que o rock havia representado até então. Esse novo domínio sonoro, associado a ambientes como o Studio 54, gerava rejeição imediata dentro da cena punk emergente. Johnny Ramone não escondia isso. Em 1979, declarou sem rodeios:
“Eu odeio música disco. É repugnante. É algum tipo de complô comunista para amolecer nossos cérebros.”
Mas, curiosamente, o incômodo com o prog era ainda mais profundo.
Para alguém como Joey Ramone, o problema não era apenas sonoro, era conceitual. Em entrevista de 1988, ele relembrou sua frustração com o rumo que o rock havia tomado:
“Gostei do Pink Floyd quando eles surgiram, mas bandas como Yes e Pink Floyd, e todas essas bandas, um álbum passava a ter seis faixas em vez de 12 ou 14.” E completou, de forma ainda mais direta: “Era uma bagunça total de mediocridade, clichês controversos e toda essa porcaria, sabe o que quero dizer? As pessoas perderam o foco.”
Essa fala diz muito.
Porque o que estava em jogo não era apenas gosto musical, mas uma disputa de visão sobre o que o rock deveria ser. Para o punk, o gênero havia se tornado excessivamente autocentrado, preocupado demais com virtuosismo e grandiosidade, e cada vez menos conectado com a realidade de quem ouvia.
É nesse contexto que a cena do CBGB ganha força. Bandas começam a resgatar uma abordagem mais crua, mais direta, mais próxima da energia garageira dos anos 60. Nada de solos intermináveis, nada de estruturas complexas. Apenas impacto imediato. E ninguém encapsulou isso melhor do que os Ramones.
Suas músicas raramente ultrapassavam dois minutos. Não havia espaço para excessos, nem para demonstrações técnicas desnecessárias. Era tudo reduzido ao essencial: ritmo, atitude e urgência. Uma resposta direta a tudo que o rock havia se tornado naquela década.
Isso não significa que o punk rejeitava apenas um estilo específico. Ele rejeitava um comportamento.
A ideia de que o rock precisava ser grandioso para ser relevante. A ideia de que complexidade era sinônimo de qualidade. A ideia de que o público deveria admirar à distância, em vez de se reconhecer na música. Ao fazer isso, o punk não destruiu o rock.
Ele o lembrou de quem ele era.
Antes de ser barulho, o punk foi um ajuste de rota.
Ramones e a cena punk surgiram como reação ao excesso do rock progressivo e da disco nos anos 70, resgatando a essência crua do rock and roll.
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